[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

João Cachado - Sintra

Dedicação total?
Mais um episódio

No passado sábado, pelas onze e meia da noite, havia tremendo barulho no velho e desactivado ginásio da Av. Heliodoro Salgado. A escassos metros, na Rua Câmara Pestana, as traseiras do prédio onde, afinal em plena zona residencial, vivem de dezenas de famílias, entre as quais a minha. Por isso, conto este lamentável episódio na primeira pessoa.

Não sendo a primeira vez que tal acontece e, prevendo que o desmando se prolongasse pela madrugada fora, telefonei para a GNR. Pois, com a maior gentileza, pouco passava da meia-noite, e depois de, entretanto, já ter feito deslocar uma patrulha ao local, me informava nada poder fazer porque, lamentavelmente, os promotores do manifesto desacato sonoro estavam munidos de licença para o efeito E até às duas da manhã!...

O agente da autoridade que me atendeu, sempre com a máxima correcção e amabilidade, mais me esclareceu que, perante a incapacidade de actuação – uma vez que, ufanamente, os prevaricadores exibiram documento bastante à continuação da atitude tão lesiva dos direitos dos residentes na área – os seus colegas teriam apenas solicitado que, enfim, na medida do possível, tivessem em consideração a possibilidade de baixar um pouco o exagerado volume do som.

Não deixa de ser importante registar que, ao fim e ao cabo, pretendendo actuar a contento, a própria GNR se viu manietada e impedida de agir. Quantas e quantas vezes situações análogas sucederão em Sintra e um pouco por todo o país? Quantas e quantas vezes os infractores, na realidade, infringem mesmo, mas a coberto de autorizações conseguidas sabe-se lá como?

Apenas um pormenor da história. Infelizmente, também no caso vertente, os promotores do batuque não foram sensíveis ao pedido da polícia local, razão pela qual tivemos de aguentar a desagradável barulheira até cerca da referida hora limite. Em suma, através da controversa emissão de uma licença, o poder local impediu que a força policial exercesse a autoridade democrática de que está investida. Perverso? Não, em Sintra, coisa naturalíssima…

Ou seja, a Câmara Municipal de Sintra, entidade que, em princípio, seria a mais interessada em cumprir e fazer cumprir a Lei da República no concelho sob sua jurisdição, não teve a menor hesitação em autorizar que um grupo de pessoas se permitisse ofender quem, pacata e ingenuamente, confia na atenção dos serviços autárquicos. Como entender?

Não, não são sinais dos tempos, muito menos de novos tempos. Apenas se trata do seguimento dum programa que, antes e depois das recentes eleições, não conheceu qualquer pausa. Se alguns sinais haverá, não vale a pena grande esforço das meninges. É mais um manifesto da prometida dedicação total. Não tenham que eu também não tenho a mínima dúvida. Por mim, já estou à espera do próximo episódio. Convençam-se, este é um programa sem interrupções…






9 comentários:

César Ramos disse...

Boa noite,
Peço desculpa entrar nesta coluna de comentários sem ser p/dar opinião s/o post. Sou seguidor do s/blog, e vou acompanhando em silêncio as suas teses, beneficiando conhecimentos e apreciando a sua escrita que admiro.
Terminei há pouco um post s/uma causa que é nobre, e me atrevi a botar discurso: referi Dan Brown, e expus o pensamento de Pessoa deixando o meu coração abrir um pouco do que sinto.
Gostaria que desse uma vista de olhos, e se houver algo incorrecto, tudo apagarei!
Obrigado.
César Ramos
http://alfobre.blogspot.com
cesar.st.ramos@gmail.com
Votos de Paz Profunda

J.Saraiva disse...

Não é só no campo da poluição sonora que a Câmara de Sintra dá cobertura à ilegalidade e promove mesmo as atitudes irregulares e ilícitas. O estacionamento é um caso evidente em que também a polícia se vê impedida de actuar. Muitos crimes pequenos e grandes nascem de actuações descuidadas e reprováveis.
J. Saraiva

Manuel Moura disse...

Há inúmeros casos de ilegalidade autorizada. A Câmara Municipal de Sintra dá péssimos exemplos e sugere que prevaricar compensa.

Manuel Moura

Renato Pais disse...

É preciso saber quem autorizou esse ginásio a fazer barulho até às duas da manhã. Não quero ensinar o Padre Nosso ao vigário mas julgo que o João Cachado devia apurar esta questão e denunciar publicamente quem despachou individualmente este caso.

R. Pais

José Telmo disse...

Caro João,
Estamos muito mal quando a própria Câmara facilita a vida a quem tem falta de civismo. Devia ser ao contrário. Assim nem a polícia pode actuar para repor a legalidade. É a subversão institucional ou a perversão do sistema?
José Telmo

Anónimo disse...

A poluição sonora é dos factores mais causadores de stress. Só um sádico pode ser autor do despacho que Renato Pais aconselhou o João Cachado a descobrir. Esse funcionário precisava de um correctivo exemplar. Sei o que é ter filhos pequenos que não conseguem dormir em consequência do barulho de um bar nas traseiras do Centro Cultural Olga Cadaval cujo dono está «muito bem protegido» na Câmara de Sintra. Tudo isto é uma vergonha, é um escândalo e um desgosto.
Maria José

MissM disse...

Boa tarde, quer-me cá parecer que estamos a exagerar um pouco nesta questão particular do Ginásio do Sintrense.
A minha perspectiva, e não descorando do direito ao silêncio e do respeito pelo próximo, leva-me a ter a noção de que os ditos "prevaricadores" apenas pretenderam trazer cultura e arte a um local tão nobre de Sintra como a Estefânia e a um espaço lamentavelmente abandonado como o Ginásio Ernesto Neves.
As actividades culturais que ali decorreram durante 12 meses mensalmente deram a conhecer diversas artes e culturas, artesanato, produtos biológicos, teatro infantil e bandas locais, numa tentativa de repor alguma da vida cultural perdida neste canto de Sintra.
É de facto verdade que são inúmeros os casos de desrespeito, ultraje e manipulação dos direitos que assistem a eventos do género, mas parece-me importante sublinhar a sempre presente atenção e cuidado desta Associação em avisar os vizinhos e manter o diálogo com os mesmos.
Toda a burocracia necessária para a realização destes eventos foi condignamente concedida, sem meios caminhos ou corta matos, depois de detalhada análise por parte da direcção do Sport União Sintrense, da Junta de Freguesia local e da Câmara Municipal de Sintra.
Os eventos desta Associação terminaram ali no passado mês de Novembro e é lamentável que fique esta má impressão depois de um esforço enorme dos responsáveis para que a cultura prevaleça e chegue a todos.

João Cachado disse...

Escrevi, confirmo e reafirmo: prevaricadores! Assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo.

Aqueles que, ao longo de doze meses, se permitem incomodar dezenas e dezenas de pacatos cidadãos vizinhos de uma zona inequivocamente residencial, através de inusitados manifestos de barulheira - agora atrevidamente qualificados como eventos culturais - são inequívocos perturbadores da ordem, prevaricadores cujas atitudes, actividades e actuações a autoridade democrática não poderá deixar de controlar e sancionar devidamente.

Ao remeterem-me [-nos] um comentário tão a despropósito, tais indivíduos ou não estão bons da cabeça ou pretendem atirar com areia para os olhos de quem ainda tem o topete de se mostrar incomodado... Alguém, no seu perfeito juízo, admitirá que um facto ou artefacto cultural seja suposto ofender, sequer beliscar, os direitos e interesses de terceiros para se afirmar como tal?

Pode, isso sim, ferir a susceptibilidade estética, desafiar e abalar ícones estabelecidos, contribuir para rasgar preconceitos, mas sempre acrescentando conhecimento e, eventualmente, até transmitindo novas perspectivas de abordagem de mais ou menos conhecidos fenómenos.

Todavia, cai imediatamente pela base o argumentário do promotor de um evento dito cultural, se e quando alguma das iniciativas afins incorrer no prejuízo de potenciais destinatários. Tal é, manifestamente, o caso dos residentes nas imediações do velho ginásio da Heliodoro Salgado que, impotentes, nada mais puderam fazer, já que a própria autoridade policial local seria ultrapassada pela autarquia que concedeu licença ao despautério.

A situação vertente, que não deixa de ser paradigmática, é perfeitamente entendível se tivermos em consideração o baixo nível de quem, nos serviços respectivos, tem de analisar, avaliar, provavelmente subsidiar e, finalmente, autorizar a pública concretização de propostas que, afinal, acabam por colidir com a tranquilidade da comunidade, em horário que a Lei vigente considera vedado a práticas que tais.

De facto, em Sintra, o prevaricador foi ao encontro do autarca cujo «gabarito cultural» correspondia ao baixo nível em que tudo se enquadrou, pelo que, com a maior facilidade, terá obtido autorização bastante para a prevaricação que, repetidamente, se processou.

Há muitos anos, toda a gente me conhece como um grande consumidor de bens culturais de toda a ordem, de todas as origens, mais ou menos selectos, eruditos ou populares, sejam quais forem as vertentes e suportes, desde a literatura às artes plásticas, principalmente à música, ao artesanato, etc. No entanto, a minha avidez cultural tem os contornos e limites dos direitos dos outros, razão pela qual não frequento e desconsidero qualquer programa que desrespeite a mínima conveniência de alguém.

Naturalmente, pessoas como eu - e, felizmente, vamos sendo cada vez mais - jamais frequentaram ou se permitirão colaborar nas investidas «culturais» nocturnas(?!?) do Bairro Alto e quejandos, que transformaramm num inferno absolutamente insuportável a vida dos desgraçados residentes.

Para todos os efeitos, apesar de me ver contemplado com escritos deste calibre e destempero, ainda não desisti de me consider a viver num país civilizado, razão pela qual, ao longo do ano, fui recorrendo à intervenção da Guarda Nacional Republicana que, cumpre assinalar, sempre correspondeu como seria de esperar.


João Cachado

Anónimo disse...

Boa tarde
Eu também vivo com a poluição sonora provocada pelo dono do bar s'pontaneo - Diogo Pessoa Lopes desde 1999 e que tem, sem dúvidas, boas relações na CMS (a começar pelo seu tio o Vereador Dr. João Lacerda Tavares) e que tem, também, exactamente o mesmo tipo de discurso de MissM a que João Cachado tão brilhantemente respondeu: - "(...)Alguém no seu perfeito juízo, admitirá que um facto ou artefacto cultural seja suposto ofender, sequer beliscar, os direitos e interesses de terceiros(...)" Pois é! e acredito que muitos dos artistas participantes não tenham a menor ideia do prejuízo que provocaram a terceiros!
Já agora aproveito a ocasião para falar de outro tipo de poluição; pois, defender direitos dos animais não é deixá-los o dia todo soltos na rua a vasculhar caixotes de lixo, a beber água das poças, a cagar o bairro inteiro e a serem atropelados pelos carros como faz o senhor Diogo Pessoa Lopes, dono do bar s'pontaneo e dos referidos cães.
Escondo-me atrás do anonimato pois tenho medo, coisa que já percebi que João Cachado não tem. Houvessem mais como ele! Obrigada