[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Da ignorância


Ontem mesmo, em Lisboa, durante uma conversa de circunstância a propósito daquela patetice da campanha turística Sintra, capital do romantismo, percebi que um arquitecto dos seus quarenta anos, havia tropeçado nas minhas palavras quando me referi ao ecletismo revivalista sintrense. E não foi precisa muita perspicácia da minha parte para perceber que, pura e simplesmente, o homem ignorava o que é o revivalismo romântico.

Jamais me passaria pela cabeça que um arquitecto não dominasse a terminologia e conceitos conotados. Todavia, tive de me render à evidência. Parece impossível, mas a coisa era absolutamente inequívoca, tanto para mim como para os outros dois companheiros, médicos, envolvidos na troca de impressões. A situação era tão bizarra que, desconhecendo os antecedentes e as coordenadas do artista, não saí da mesa sem perceber o fenómeno.

E consegui entender. É arquitecto, apenas porque se licenciou numa faculdade de arquitectura. De facto, nunca exerceu a profissão. É funcionário de uma autarquia em cujos serviços culturais emite parecer sobre projectos de animação cultural. Pasmo. De queixos caídos, continuo a sondar, acabando por perceber que o sujeito decide. O senhor arquitecto até tem responsabilidade de chefia! Pasmo duplo, não triplo, meu e dos outros dois.

Enfim, é o que pode designar-se como ignorância institucionalizada… Trata-se de ignorância, dura e crua, porque, repito, um licenciado em arquitectura não pode deixar de conhecer a matéria em questão. Olhem, fiquei tão afectado que ainda estou a recompor-me. Apenas me permito partilhar convosco o episódio porque o ignorante é funcionário público, da administração local, cujo salário é assegurado pelo erário público, portanto, produto dos impostos liquidados por todos nós.

Por acaso, Sintra não é a autarquia da história. Não, desculparão mas não esclareço. Paciência, fica na pasta das vossas dúvidas… Até porque o que relatei podia ter-se passado em muitas Câmaras Municipais. Contudo, infelizmente, como todos bem sabemos, por cá – e, então nos serviços culturais! – o tal arquitecto da treta não está nada mal acompanhado…

Apenas se confirma, aqui e por todo o lado, que são os ignorantes, sempre mal preparados, que colocam subordinados ignorantes em patamares de responsabilidade. É assim que a ignorância alimenta e gera a ignorância. O pior é que a potencia inusitadamente, reproduzindo-se sem controlo. É um flagelo!


PS:

Outro assunto, mas ainda a propósito de ignorância. O que terá querido dizer o Senhor Deputado Ricardo Rodrigues do PS, ao afirmar que o PSD pretendia fazer chincana política [ao chamar à Comissão de Inquérito o Senhor Primeiro Ministro]? Chincana? É que nem sequer se trata de regionalismo açoriano...

Claro que o Senhor Deputado desconhece ser chicana o termo correcto. No precipitado afã de fazer eco da voz do dono, não se lhe colocou qualquer dúvida. Lamentável, perfeitamente lamentável a ignorância do Senhor Deputado. Por ali, terá acontecido um fenómeno de contaminação fonética [gincana?] - deveras interessante de explorar noutro contexto - que, provavelmente, o conduziu à retumbante calinada. Estou desejoso de verificar como resolveu a questão o Diário das Sessões...


4 comentários:

Anónimo disse...

Só uma observação acerca do deputado do PS. No Parlamento foi a tal calinada. Aqui em Sintra com o tal Vereador do Turismo que diz «pusi-o» em vez de pu-lo não haja dúvidas que estamos bem servidos...
José Miguel

Carlos Jorge disse...

Este blogue consegue ser intimidatório com tanta sapiência.
Carlos Jorge

Anónimo disse...

Não me diga que se trata do arquitecto da tenda esotérica? É que pelo calibre...
Os melhores cumprimentos
Miguel Geraldes

João Cachado disse...

Caro Miguel Geraldes,

Não, esse da tenda esotérica até saberá alguma coisa acerca do ecletismo revivalista sintrense.

No entanto, a propósito de uma conversa, com o meu amigo José Cardim - segundo a qual se nos afigurava que a grande abóbada temática do revivalismo poderia funcionar como ideia geradora de todas as conotações agregadoras do Festival de Sintra com que ainda sonhamos - permita que lembre o caso de alguém, relacionado com a programação cultural em Sintra, que também não entendeu a pertinência de tal hipótese de trabalho...

Este tema do revivalismo é dos mais pertinentes em relação ao contexto sintrense. De qualquer modo, não é coisa que os ignorantes possam abordar com um mínimo de conforto.

Se bem terá entendido, não foi simplesmente en passant que aludi ao José Cardim. Gosto muito dele e não quero deixar passar a oportunidade de aqui o trazer, recordar e, calorosamente, saudar. Em termos culturais, Sintra é um caso tão patológico que se permite ostracizar, e, por vezes, até hostilizar este brilhante homem de cultura, demasiado importante para que não se aproveite a transbordante riqueza daquela cabeça que tão à frente está e vai relativamente ao marasmo em que se amodorrou aquele Roseiral empastelado...

Vitor Serrão e José Cardim sonharam e concretizaram o belíssimo projecto que resultou no dossiê a partir do qual a UNESCO atribuiu a Sintra a qualificação de Paisagem Cultural da Humanidade. Foram especialmente eles. Embora os políticos se acotovelem e ponham em bicos dos pés na mira dos louros... Na realidade, Sintra deve-lhe(s)serviços inestimáveis.

Entretanto, muito longe de estarem à altura de Sintra, e ofendendo gente da cultura, que sabe como Sintra merece ser tratada, aparecem estas porcarias inconsequentes da "capital" de umas tretas quaisquer, que passam por aquelas bacocas cabeças de «responsáveis» misturando coisas sérias com indigência e geral ignorância, tudo resultando em maus tratos a uma terra já tão castigada.

Veremos quem mais ri por fim.

As melhores saudações do
João Cachado