[sempre de acordo com a antiga ortografia]

domingo, 28 de março de 2010

Sintra a reinar ao romantismo...

A divulgação pelo Presidente da Câmara de que se vai investir 1,2 milhões de euros na propaganda da marca “Sintra Capital do Romantismo” é uma excelente notícia para as agências de meios e publicidade. No entanto, não desviará a atenção dos sintrenses de outros temas, entre eles o empenho na compra da Quinta do Relógio (6.750.000 euros) cujo rigor em custos de reconstrução e utilização prevista se desconhece.

Da divulgação feita no site oficial da Câmara Municipal de Sintra (
www.cm-sintra.pt) com o título “CULTURA E TURISMO” e subtítulo “SINTRA INVESTE NO ROMANTISMO”, ressalta a alusão pouco diplomática à “República da China”, já que Portugal apenas mantém relações com a República Popular da China. Também a dúbia interpretação do que é dito sobre a China “libertar” turistas, não ajudará muito a incentivar a sua vinda.

Quanto a Sintra, é sintomático que, só ao fim de 12 anos como Presidente da Câmara de Sintra, o Senhor Dr. Fernando Seara afirme, sabe-se lá se com ar consternado, que “temos que olhar para o turismo com dez anos de distância”. Talvez quisesse dizer “de antecedência”...
Tínhamos um patamar a 10 anos para o SATU, passámos a ter mais outro a 10 anos, com a chegada massiva de turistas chineses, ávidos de pedalar nas ciclovias prometidas em 2003.

Sem novos hotéis de qualidade perto dos locais a visitar (na cintura de Sintra construíram-se, sim, vários motéis) como é possível aumentar para o dobro o número de dormidas e satisfazer o “turista cada vez mais exigente”? Em parques de campismo? Ou com a zona da Volta do Duche reservada a caravanismo, sem o mínimo de segurança nem condições, tais como instalações sanitárias adequadas?

Consultando o “SintraINN” o total de quartos disponíveis não atinge os 1000, dos quais cerca de 600 em Hotéis de reconhecida qualidade. Destes, em zona acessíveis aos diferentes monumentos e palácios, apenas contamos com mais ou menos 113 quartos. Temos mais 122 em Hospedagens, 67 em Pensões, 38 em Motel, 29 Turismo de Habitação, 28 em Moradias, 26 em Pousada, 21 em Estalagem, 19 em Apartamentos e 17 Turismo Rural.

Poderá perguntar-se aos Senhores Presidente da Câmara e Vereador do Turismo se, imbuídos de tanto sucesso em alojamentos, estariam dispostos a passar dois ou três dias com as suas famílias em todos os que agora são colocados à disposição dos turistas, mesmo onde os “jacuzzi” fazem parte integrante da oferta.

Não há, pois, uma oferta adequada ao prestígio internacional de Sintra e à qualidade exigível, pois não basta embandeirar-se com o aumento de turistas se esses fluxos não forem positivos em termos económicos.

Quando muitos comerciantes se desfazem de lojas tradicionais e as mesmas passam a comércio desadequado à história dos locais, prova-se que pouco tem sido feito em prol do turismo.

Por fim, desmistifique-se que os "2,5 milhões de euros na requalificação da centenária linha do Eléctrico de Sintra”, não serão suportados pela CMS, mas sim por um mecenas cultural, facto que está omisso na divulgação feita pelo site oficial.

Fernando Castelo

3 comentários:

Anónimo disse...

Estimado Senhor,
Ao ler estas coisas que se fazem por cá para gastar dinheiro quanto o país tanto precisa de poupar deve querer dizer que um destes dias lá vão uns tantos de Sintra até à China como foi com o Japão.
E que se cuide aquele comerciante que vende queijadas porque qualquer dia ainda temos por cá as famosas queijadas da China.
Cumprimento-o com respeito,
Alzira Torres

João Cachado disse...

Meu Caro Fernando Castelo,

Tão sucinto, o seu estudo é estupendo e, sem margem para dúvida, põe a descoberto a descabelada estratégia que subjaz a uma das mais palermas campanhas de promoção turística que já tivemos oportunidade de assistir.

É mais um caso de publiciidade enganosa, à pala da estafada ideia do romântico destino - que até podia sê-lo - não fosse a circunstância de os promotores, na sequência de outros desqualificados agentes e actores políticos, se terem encarregado de descaracterizar e desqualificar o «produto» objecto da campanha...

Percebi o itálico do «patamar». Também eu estou farto de «patamares de excelência», de «perspectivas sistémicas», qual limão que, uma vez esprimido, nenhum sumo deita... Palavras ocas que enchem os dias e já quase uma dúzia de anos de discursos aliciantes de promessas. Palavras, palavras, palavras.

Não percebem estas almas a necessidade de tudo muito bem cuidar, desde o lancil do passeio às entranhas e fachadas dos prédios, de nada deixar degradar, da urgência de instalação dos parques periféricos de estacionamento e transportes públicos com eles articulados, como é imperioso recuperar espaços, lugares com e sem história e fazer expedita e sucinta campanha de sinalização e interpretação do património edificado e natural... Sem isto, sem a papa básica, nem o imanente romantismo sintrense nos vale. O desleixo chegou ao grau zero da desfaçatez e a ignorância faz o resto da tarefa.

Tanto, tanto trabalho a fazer antes que esses horrores, sob a capa de promoção turística, sejam estampados nalguma comunicação social, mais ou menos acéfala, incapaz do trabalhinho de descodificação que se impõe e que o meu amigo, sem quaisquer meios sofisticados e, afinal, tão discretamente, tem a ousadia de trazer a público neste blogue.

Bem haja Castelo! Bom trabalho. Parabéns!

Abraço do

João cachado

Carlos Sousa disse...

Vão vender chuchas para a porta do cemitério... Vendam chuchas, deixem-se de chuchar com os munícipes e de tentar vender Sintra como capital do romantismo que é uma verdadeira chuchadeira.
Carlos Sousa