[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sábado, 26 de junho de 2010


Os boys dos chips

Em Portugal, seja qual for o quadro de referência, está visto que o tema das auto-estradas jamais se revelará matéria pacífica. Sempre que o assunto vem à baila, não posso deixar de lembrar o que, há dezenas de anos, afirmava Emílio Vilar – homem do PS mas, definitivamente, de outra estirpe… – que, entre nós, a solução que se deveria generalizar era a das vias rápidas, para além de um eixo longitudinal Norte-Sul em auto-estrada.

Naturalmente, o então ministro e actual Presidente do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian, não pensava em vias rápidas como o IP-5, cujo perfil, resultante de opções escandalosamente economicistas, se revelou um perfeito assassino, tantas foram as vidas escusada mas criminosamente ceifadas. Hoje em dia, como a memória é curta, já toda a gente esqueceu que tão notável rodovia foi construída no tempo em que Cavaco Silva era Primeiro-Ministro e Joaquim Ferreira do Amaral, Ministro das Obras Públicas, esses génios da direita liberal…

Rui Vilar sabia do que falava quando pensava o país, neste extremo ocidental da Europa. Uma bem dimensionada rede de vias rápidas, bem projectadas, operacionais e seguras despachariam o tráfego nacional de ligeiros e pesados com toda a eficácia. Contudo, apesar de extremamente pertinente, uma tal ideia não passaria de coisa de somenos para a mente de papalvos provincianos, descidos à cidade convencidos de que eram os salvadores da pátria.

Cifrando-se em incontáveis milhões de toneladas de material, aconteceu o famoso advento do betão, que transformou este país numa coisa desconforme, atravessada por inúmeras e evitáveis auto-estradas que, independentemente da quantidade de viaturas a cruzá-las, serão sempre excelentes negócios, não só para os consórcios construtores mas também para os concessionários, porquanto o Estado, ou seja, o povo português, sempre cobrirá eventuais prejuízos.

A génese das Scuts radica neste quadro de belíssimos negócios. Enfim, não podendo invocar qualquer actuação à sua revelia, por parte de sucessivos governos, os cidadãos portugueses, pelo menos, deveriam esperar uma actuação mais consentânea com os reais interesses nacionais, tudo menos o que temos visto nos últimos tempos.

Eis os piquenos...

Com um Governo que, a começar pelo próprio Primeiro-Ministro, transborda de rapazes demasiado habilidosos, cuja actuação é invariavelmente ditada por uma primordial aposta nas soluções afins daquilo que designam como agilização de procedimentos, não admira que, para animar o início deste Verão de tanto descontentamento, só nos faltasse esta monumental trapalhada das Scut.

Desta feita, tanto atabalhoamento, teria de provir do Gabinete de alguém que, a nível profissional, antes de engrossar a lista de incógnitos e medíocres governantes, estava particularmente vocacionado para a gestão das águas… Pois o Secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas e das Comunicações, ainda não satisfeito e mal refeito do envolvimento na malfadada questão do portátil Magalhães – tão agilizado, pois não se lembram, através do enquadramento na Fundação das Comunicações Móveis? – Continuou a meter água…

E de que maneira! As consequências das medidas que pretende introduzir no sistema de comunicações rodoviárias são de tal ordem que, já a nível internacional, até o Presidente da Junta da Galiza veio a público dizer que não entende como o Governo português pode pretender prejudicar os próprios interesses de Portugal, impedindo que se processe uma circulação sem obstáculos entre duas regiões atlânticas, a Norte do Douro e Galiza, com interesses tão comuns e indissociáveis.

Há uma data de críticas e sofisticadas questões, nomeadamente, a relacionada com a garantia dos cidadãos à privacidade, que colidem com a universal instalação de dispositivos electrónicos de matrícula (DEM), também conhecidos como chips, que a Comissão Nacional de Protecção de Dados não se tem cansado de alertar e que, ontem mesmo, levou toda a oposição a chumbar a legislação indispensável à sua utilização.


Como é que um governo que se supõe de gente avisada, tranquila e sabedora, se abalança a uma coisa destas, sem um diagnóstico tão correcto que lhe permitisse prever a embrulhada em que se meteu e nos quer meter? Então, para este efeito, não prevaleceu a visão global e sistémica, que permite perceber como a introdução de alguma – ainda que insignificante alteração no sistema – se repercute a todo o sistema?

Então, ninguém previu que, para se processar uma cobrança pela sua utilização, devido ao específico perfil, estas vias careceriam de uma solução muito operacional, simples e barata, praticamente reduzida à eventual necessidade de alargamento da estrada na zona, e à instalação de expeditas cabines, mesmo sem operadores, para onde os condutores pudessem lançar as verbas em moedas na quantidade exacta, como se vê, por exemplo, em Espanha e França, na zona do País Basco?

O Senhor Secretário de Estado quando afirmou que, para dotar os noventa e dois pontos de cobrança das respectivas instalações, seria necessário o investimento de 450 milhões de euros, só devia estar a pensar em portagens formais e pesadas. Por outro lado, depois de se ter metido no sarilho dos chips que não terá sido propriamente uma pechincha - em
que está envolvido um recente empresário* que foi assessor do seu Gabinete... - o que é que o homem havia de fazer e dizer senão desvalorizar qualquer ideia que se apresente como praticável alternativa à sua inqualificável asneira?

Bem, com esta me vou, depois de ter dado inusitada importância a quem não merece mais que meia dúzia de toscos alinhavos… Mas, como compete, tem de ser denunciado o estrago causado por estes senhores que só são Secretários de Estado e assessores porque têm cartãozinho. Eu cá vou fazendo o meu dever cívico.

João Cachado


*O semanário Expresso de hoje concede ao assunto o espaço adequado. Leiam que merecem ser elucidados.




6 comentários:

Anónimo disse...

O senhor não pára.
Ainda bem que o temos em Sintra atento às coisas de Sintra mas também ao resto.
Esta dos «piquenos» do PS que são secretários de Estado e negociantes não podia ser
mais sobre a hora.
Óptimo.
Sabe que aproveito partes dos
seus textos nas aulas?
Obrigado por não cobrar direitos...
R.S.

Távares Sales disse...

Estes rapazes e todos os que andam à volta do 35/40 anos, como o Rui Pedro Soares da PT e do Taguspark andaram todos na mesma escola: a jota do PS. Mas os outros partidos não se safam do mesmo porque precisam destes oportunistas sem qualquer moral.
Távares Sales

Carlos Sotto disse...

Como em todo o lado há excepções mas as "jotas" são autênticos
aviários de futuros parasitas e hipócritas candidatos a uma vida politicamente correcta.
Com o cartão do partido na mão têm um passaporte para todos negócios sem trabalho.
É assim que as empresas públicas e municipais são enxames destes
tipos desqualificados
muitos filhos de importantes membros do partido
como este secretário de estado
que é filho do António Campos.
Carlos Sotto

R.L. Mestre disse...

Caro João Cachado,
Concorsdo consigo e com comentários anteriores. Mas a
conclusão é geral, para todos os partidos e não só PS
Abraço
R. L. Mestre

Anónimo disse...

Para estes "boys" não há crise e, como se vê, para os negócios vai de vento em popa. Este governo do PS consegue ser pior que o Santana Lopes. É obra.

João Cachado disse...

Façam o favor de ter em consideração a ntícia de ontem, 27.06.10 do Diário de Notícias segundo o qual o Ministério das Obras Públicas Transportes e comunicações considerou a notícia do Expresso «abusiva, insinuante e falsa».

Para perfeito esclarecimento, consultar o texto completo no referido jornal, através do qual se fica a saber também que o MOPTC admite recorrer aos tribunais para repor a verdade.

João Cachado