[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 24 de junho de 2010



Sintra, alguns pendentes (3)


Em Sintra, se deixarmos os casos, sempre mais lamentáveis, em que houve registo de morte de cidadãos, eventualmente enquadráveis no quadro do homicídio por negligência, para passarmos a considerar os outros pendentes, iremos deparar com um rol infindável de situações que continuam mergulhados na sombra ou na penumbra dos intermináveis circuitos de uma Justiça que, não conseguindo ser célere, não é eficaz.

Entre tantos assuntos controversos, inicialmente objecto de parangonas logo esquecidas pelos próprios jornais que as publicaram, gostaria de destacar o da construção da casa na Quinta do Vale dos Anjos, do outro lado da estada, mesmo em frente do Palácio de Seteais. Fui o primeiro a denunciar a situação que, nos termos de notícia da altura, * acabou por suscitar o interesse do Tribunal Administrativo de Sintra para averiguações.

Muito naturalmente e, sempre de acordo com o que a casa gasta, nunca mais se soube fosse o que fosse acerca daquele despautério que resultou na autorização de construção, de uma mansão com dimensões perfeitamente proporcionais à asneira, em zona tão crítica e defendida como a de Seteais, que envolveu uma série de entidades públicas, nomeadamente, o Igespar, a Câmara Municipal de Sintra, ou o Parque Natural de Sintra-Cascais.

Quando, no princípio deste ano, esteve entre nós a equipa de peritos da Unesco, preparando um relatório de avaliação da Paisagem Cultural de Sintra, tive a oportunidade, de viva voz, de chamar a atenção para tal desconchavo que foi adequadamente documentado. Os dois técnicos, um francês e outro belga, ainda que discretamente, não deixaram de mostrar a perplexidade normal perante uma situação que deveria ter determinado o maior cuidado devido à proximidade do monumento classificado que se situa em cota inferior à da mansão.


Vale a pena que lá voltem todos quantos se mostraram preocupados. Tenho a certeza de que jamais terão imaginado que a volumetria anunciada, de facto, fosse a que agora está à vista de todos, um gigante que, entre outras consequências, também promoveu uma enorme mobilização de terras que também lá está para quem quiser ser consequente com a indignação que não pode deixar de sentir.

Mas a minha palavra de máxima atenção vai para os jornalistas, quer da comunicação social de circulação nacional – que a matéria em questão bem o justifica – quer, por maioria de razão, a de âmbito regional. É preciso continuar o trabalho que iniciaram. Parar, significa não ser digno nem da situação actual nem da denúncia que asseguraram oportunamente.

João Cachado

* Consultar a matéria publicada no sintradoavesso



5 comentários:

carol disse...

Já há imensos anos que não moro em Sintra e há muitos locais e assuntos que o Professor refere e que eu não sei já do que está a falar. Porém, leio-o sempre com atenção e com gosto e tenho mesmo de deixar aqui uma enorme palavra de enorme apreço (desculpe-me a repetição de palavras mas é propositada) pela sua presença constante em tudo o que lhe parece estar mal em Sintra, fazendo o "barulho" que pode. Ainda eu pensava que amava Sintra....
Bem haja!
Graça

Paulo Oliveira disse...

Seteais merece tudo depois das malfeitorias que ali se fizeram neste mandato do Seara. Ninguém espera uma palavra do presidente da Câmara em defesa de Seteais e contra a destruição do tanque ou casa do Pais do Amaral. A imprensa tem ali muito que fazer, é só querer.
Paulo Oliveira

Pedro Soares disse...

Sintra chegou a um ponto que a maioria dos portugueses não imagina.
Estes três textos do João Cachado sobre assuntos que ele próprio tratou neste blogue são quase um grito contra o esquecimento.
É preciso ouvir estes alertas e ler o que ele escreve contra o estado em que as coisas se encontram.
Já que na Câmara ninguém toma atenção, ao menos que fique a informação.
Para mim este blogue é imprescindíuvel. Estou na mesma linha que Carol/Graça Sampaio. O trabalho do João Cachado é de grande importância para Sintra e para os sintrenses. Obrigado.

Pedro Soares

Anónimo disse...

O mais «pendente» de todos é o Seara que está de pedra e cal...

Manuel Henriques disse...

Estes três textos fazem uma verdadeira avaliação de como Sintra é administrada. Nunca estivemos tão mal mas a imagem que vem para o exterior, através da televisão que o Seara controla,
é de uma terra sempre bonita
onde tudo está bem.
Felicito pelas denúncias tal
como as outras pessoas e ainda mais pela maneira como escreve. É raro ler um português tão
correcto e nos blogues é uma
vergonha.
Manuel Henriques