[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 7 de setembro de 2010


Sintra, saber viver

Em todas as culturas e civilizações, uma multiplicidade de ditados se evidenciam, recomendando o recato do discurso e especiais cuidados na verbalização de certas opiniões, em especial, daquelas que, uma vez expressas, são susceptíveis de desencadearem consequências irreversíveis.

E, de facto, neste domínio, quanto mais hipócritas forem as herdadas e praticadas normas de socialização, mais hipóteses subsistem de serem transmitidos princípios educacionais que, não raro, passam à categoria de hábitos culturais, pouco ou nada recomendáveis às sociedades que privilegiam a verdade como pauta de conduta a caminho de qualquer tipo de progresso.

O calado é o melhor. O silêncio é de ouro. Eis dois dos ditados que, com as devidas adaptações e traduções, existem em todas as comunidades, independentemente das coordenadas geográficas e do respectivo nível de progresso. Notem que continuo a grafar o termo progresso, em itálico, já que o seu recurso não é minimamente pacífico, tantas são as suas mais ínvias acepções.


Todavia, mais abrangente do que os precedentes e verdadeiro corolário da cartilha de quem pretenda safar-se, em todas as circunstâncias, sejam quais forem as dificuldades, é o famoso viver não custa, o que custa é saber viver… Não deve haver maior esterco do que os execráveis conceitos contidos neste controverso conselho que, certamente, muita gente vai ouvindo ao longo da vida.

Muito gostaria eu que escassa fosse a quantidade de pessoas observando tão polémico princípio. Infelizmente, no entanto, basta olhar à volta para concluir que se o meu desejo tivesse qualquer hipótese de adopção na sociedade portuguesa, não haveria forma, por exemplo, de fazer ocupar os lugares de direcção de qualquer entidade pública ou privada…

Sintra, que silêncio este?


O silêncio é de ouro? Nem sempre, e, em especial, se pensarmos nas situações em que o silêncio é criminoso ou, pelo menos, tão contundente como a situação que, permanecendo silenciada, não tem hipótese de remédio em tempo oportuno. Vejamos, então, como e porquê, tudo isto vem a propósito de Sintra.

Naturalmente, não me refiro ao primoroso silêncio das alamedas, dos parques ou dos eremitérios da Serra. Em Sintra, o que chega a ferir é o silêncio das pessoas que calam o que não devem, nomeadamente, gente geralmente considerada afecta às actividades culturais, que não manifesta a mínima indignação perante o horroroso relaxo a que esta terra chegou.

Ora bem, isto não é normal. Normal, em qualquer latitude, e também em Sintra, é que, habituadas à discussão franca e aberta, ao debate que sempre está a montante do real progresso, tais pessoas aparecessem na praça pública a apontar o dedo àquilo que, nesta sintrense cultura de desleixo, se tornou insuportável. E isso, em Sintra, nós não vemos, não ouvimos nem lemos. O que prevalece, apesar de inaudível, é um silêncio tão incompreensível e paradoxal que grita, grita, cúmplice dos desmandos a que ninguém acode.


O silêncio a que me reporto colide com a indesmentível realidade resultante de dez anos de gestão em que os actuais autarcas bem podem limpar as mãos à parede. De nada se podem orgulhar, nem sequer de terem sabido manter os índices de qualidade de vida vigentes na altura em que iniciaram o governo local, circunstância que bem atesta a degradação vigente.*

A sua incapacidade é geral em todo o território municipal mas, ainda mais flagrante nas três freguesias da sede do concelho onde os desafios, ainda que particularmente complexos, estariam à altura de uma equipa razoavelmente credenciada, a nível político e técnico como, por exemplo, a de António Capucho, em Cascais, onde tudo acontece com outro gabarito. Isto mesmo não pode deixar de ser lembrado, em função da vizinhança. [Pois é, a comparação é dolorosa, mas como fica a meia dúzia de quilómetros, o que importa é saber beneficiar…].

Ao longo de anos e anos de denúncias, nos media locais, em reuniões da Assembleia e da Câmara Municipal de Sintra – como toda a gente sabe, muito antes de 2007, altura em que iniciei também esta tribuna do sintradoavesso – não me acusa a consciência de não ter alertado e contribuído com sugestões pertinentes para a resolução de problemas que afligem a nossa comunidade. A propósito, e, quase à guisa de súmula, permitam que vos sugira a (re)leitura de 2001-2010, esquecer ou aprender, texto aqui publicado em 07.06.10.

A verdade é que, rarissimamente, apesar da pertinência, da inequívoca verdade das situações apontadas, me senti acompanhado por quem é suposto estar na primeira linha das denúncias. Claro que não estou a pensar em Alagamares ou Chão de Oliva, cujos dirigentes considero magnificamente quixotescos e meus cúmplices dilectos. Penso, isso sim, no silêncio dos demais, e são tantos…

Porque decidiu tanta gente, relacionada com a actividade cultural, abafar o ruído da indignação contra o estado de degradação, porcaria e generalizada falta de condições que respondam à procura dos visitantes, viajantes e turistas, para além da resposta que tarda às necessidades prementes de residentes e comerciantes, indignação essa que deveria andar aí à solta, em plena liberdade?

Será que, sob a capa deste escandaloso silêncio, se acoberta alguma perniciosa forma do tal saber viver comprado a troco de alguns pratos de lentilhas? Se tal não acontece, até parece. Talvez assim não seja, oxalá não passe de distracção… Enfim, não abandonemos a nossa permanente perspectiva de boa intenção.


*De acordo com um estudo da Universidade da Beira Interior, Sintra passou de um honroso 5º para o 42º lugar na escala da qualidade de vida dos concelhos portugueses



14 comentários:

Pedro Soares disse...

Amigo Cachado,

já se vê que regressou em força. Mas eu esperava que escrevesse sobre Bayreuth. Fui ao google e fiquei muito interessado em ter informações idênticas às que fez sobre Salzburg no Jornal de Sintra. Mas gostei tanto do texto anterior como o de hoje. O senhor não diz mas o que se passa são os pratos de lentilhas, ou subsídios que a Câmara de Sintra dá. As associações que os recebem não têm condições para falar contra o mau trabalho que a mesma Câmara faz. É isso e mais nada.

Pedro Soares

Anónimo disse...

Dr. Cachado,

Alagamares misturou-se com uma série de associações que não são nada.
A reputação da Alagamares não é o que era porque não souberam distanciar-se dos parasitas da Câmara que recebem os tais subsídios e não põem em causa
o Seara porque podiam ficar descalços...
O Dr João Alvim não se confunde com estas pessoas, portanto custou-me que o Dr. Cachado ponha os dois ao mesmo nível.
TS

João Cachado disse...

Caro Pedro Soares,

Muito obrigado pela sua frequência na leitura do sintradoavesso. Em relação a Bayreuth, fará o favor de me contactar pelo e-mail. Terei o maior prazer em lhe passar a informação que precisa. Compreenderá que, depois dos comentários aos preços que paguei pelos bilhetes para as três óperas[que, em Bayreuth, até são muito em conta...] o melhor é não suscitar reacções análogas que, inclusive, já tinha notado noutras oportunidades. Portanto, fico à sua disposição mas via correio electrónico.

Relativamente à sua interpretação do silêncio decorrente da distribuição de alguns pratos de lentilhas, que poderei eu replicar? Olhe, possivelmente, que o Pedro Soares é tão bem intencionado como eu...

Melhores saudações do

João Cachado

António Lapa disse...

Silêncio que está a cantar-se o fado dos sintrenses que é pior que o fado da desgraçadinha.
Basta ir à Rua dos Arcos junto ao Palácio da Vila para saber que o nosso fado é muito antigo, tem sujidade do chão ao tecto, cheira mal e ninguém é responsável.
Eu tenho vergonha disto tudo e só o Cachado me levava a escrever isto.

AL

Anónimo disse...

Este silêncio é dos compromissos, da Regaleira, do Olga Cadaval e de todas as associações sem expressão parasitas do pelouro da cultura que tem tanto nível como os que recebem os tais pratos de lentilhas.

Carlos Távares disse...

Sou da opinião de TS: respeito o trabalho da Alagamares mas esta tem de se demarcar das outas associações que vivem na babugem dos subsídios da Câmara e que estão caladinhas com medo que a fonte possa secar.

Carlos Távares

JS disse...

Às vezes as associações quase são fantasmas nem recebem subsidios da camara mas há outras formas de compensar e ficar-se com toda a gratidão,essa é que essa,se olhar-se em volta onde estão os pios que dantes tanto piavam ninguém sabe.

Joana Santos

Anónimo disse...

Para saber viver o calado é o melhor. Ou então como faz o Seara, não se cala mas diz os disparates que o povo gosta de ouvir. As tais associações de que falam os comentários anteriores não fazem nada pelo povo. Fazem é por elas porque senão os desgraçados dos animadores ficam no desemprego.

BD

Anónimo disse...

Li recentemente num desses jornalecos de distribuição gratuita, pago pela SMS, do qual de momento não me recordo do nome, penso ser ...Fonte, qualq1uer coisa, um artigo de grande destaque sobre as dificuldades causadas pelo Partido Socialista em relação à intenção de aquisição da parte da CMS do "polidesportivo" da Rinchoa. No dito texto não se refere vez alguma a Quinta do Relógio inserida no "pack" a adquirir! O que, obviamente, causará ao pouco esclarecido leitor estranheza em relação ao veto do PS. O ilusionismo no seu melhor

Ricardo Duarte disse...

Caro Prof. João Cachado,

Fugindo um pouco à mensagem do seu texto, perfeitamente concreta e suportada por uma abordagem realista dos factos, pego nas palavras do senhor Pedro Soares para também lhe transmitir a minha curiosidade em relação a esse festival, que o Prof. de alguma forma poderia satisfazer.

Depreendo que tal como eu, o senhor Pedro Soares seja consumidor de eventos culturais embora de natureza diferente o que não invalida que tenhamos também interesse por estes.

Ora, se as manifestações culturais, sejam pela música ou qualquer outra forma de arte, servem para valorizar o ser humano, entendo que esse enriquecimento se faça pela partilha entre as pessoas das experiências vividas.

Desse modo, para quê pagar atenção (esta tradução à letra da expressão original em inglês considero deliciosa nestes contextos!) a comentários mesquinhos e invejosos tanto mais porque existem interessados naquilo que possa transmitir e até terá a oportunidade de os suprimir se ultrapassarem os seus limites?

Fica pois à sua consideração.

Um abraço,

Ricardo Duarte.

Anónimo disse...

Eu acho que até é bem feita para quem andou durante muito tempo a "limpar" o caminho para que a actual coligação Mais Sintra (ou será Menos Sintra?...) chegasse ao Poder... Buzinões, caracóis no IC19,marchas na Volta do Duche, desgaste constante contra o PS sem se valorizar o muito de positivo que foi feito e que ainda hoje se superioriza em muito ao nada que estes senhores fizeram em mais de 10 anos, etc, Alguma vez com a Direita a liderar a CMS o nosso Concelho se destacou, melhorou ou desenvolveu? Não me lembro... A culpa é apenas dos sintrenses e nada mais, só têm aquilo que merecem por continuarem a gostar de engolir demagogia e sorrisinhos...

Anónimo disse...

Se o Sr. Pedro Soares acha que crise, desemprego e caristia de vida é mesquinhez, era bom que decesse ao Mundo Real (a maioria das pessoas, mesmo com emprego, têm de viver com menos de €1000/mês e, não é por gosto ou falta cultura - é mesmo falta de dinheiro!).
ass.: "Futuro apagado"

Anónimo disse...

O anónimo tem razão. Acho que houve um pouco de falta de sensibilidade e solidariedade social na maneira como a questão "dinheiro" foi referida.
O que não invalida que não haja uma dissertação sobre o que se passou, todos gostamos de aprender e ter noção do que se passa, mesmo sem lhe podermos ter acesso.

Anónimo disse...

O anónimo tem razão. Acho que houve um pouco de falta de sensibilidade e solidariedade social na maneira como a questão "dinheiro" foi referida.
O que não invalida que não haja uma dissertação sobre o que se passou, todos gostamos de aprender e ter noção do que se passa, mesmo sem lhe podermos ter acesso.