[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Seteais,
omissões pouco honrosas


"(...) Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brasão rococó, as janelas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer voluntariamente naquela verde solidão-amuada com a vida, desde que dali tinham desaparecido as últimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas (...)"

(Os Maias)


À época em que faz de Sintra cenário parcial de Os Maias, era assim que Eça de Queiroz dava conta do estado de degradação a que chegara o Palácio de Seteais. Dói a alma só de imaginar a cena. E, muito naturalmente, como não sentir-nos reconfortados pelo caminho feito, desde então até à actualidade? Indubitavelmente que, entre muitos outros, o Palácio de Seteais é um notável caso de recuperação que cumpre evidenciar.

Entretanto, por assim acontecer, nada autoriza que devamos baixar a guarda, neste e nos outros locais em que os nossos bens patrimoniais classificados beneficiaram de obras de restauro e ou de preservação. Ora bem, para encurtar razões, é isso mesmo que está a acontecer na zona de Seteais. Estamos a deixar que gente pouco preocupada com os interesses da comunidade e, isso sim, apenas olhando para as suas próprias vantagens, desqualifiquem um local que nos é tão caro.

Deixámos que o concessionário do Palácio destruisse o tanque. Também parece que não sentimos a dor de nos ter sido vedado o acesso ao Penedo da Saudade. Agora, não vejo alguém de direito insurgir-se contra a instalação do picadeiro e colocação de placas comerciais nos pilares dos portões junto à estrada. Por outro lado, como tenho vindo a denunciar, mesmo em frente, na Quinta do Vale dos Anjos, continua o escândalo da construção de uma casa, só possível com a conivência de autoridades que deviam ter zelado pela preservação do espírito do lugar e, concomitantemente, em sintonia com o bem comum.

Estarão os sintrenses assim tão mal e num tão agudo estado de tabloidização dos quadros mentais que não reparam no que está mesmo debaixo dos olhos? Na falta de autarcas à altura da defesa destes lugares, deixam caír os braços como se isso fosse uma inevitabilidade? A sintonia dos responsáveis locais com as revistas cor de rosa, donde saem esses conhecidos fenómenos de género duvidoso, perturbaram assim tanto as gentes de Sintra que já não conseguem assestar as armas às lutas em defesa das suas riquezas culturais? Ou, muito simplesmente, será que estão nas tintas ou não sentem como seus esses mesmos bens?

Sejam quais forem as razões a montante, o mínimo que se pode afirmar é que correspondem a omissões muito comprometedoras e, por isso mesmo, nada honrosas. Aingem-nos a todos. A todos, sem excepção. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, um dia virá em que, ainda estejamos por cá ou não, os nossos netos nos cobrarão esta atitude tão lamentável.

5 comentários:

Cacilda Ramos disse...

Aprendo muito com o seu trabalho. Muito obrigada pelo cuidado que coloca nos textos publicados neste blogue. Estas citações já me levaram a voltar a pegar nos "Maias". Concordo completamente consigo, estes autarcas são muito fracos, pouco cultos e pouco preocupados com Sintra, não são de cá, não amam isto como nós. Mas as populações não acompanham estas questões. Era preciso um grande desastre para as pessoas se mobilizarem.
É pena mas não vejo hipóteses de melhoras.
Cacilda Ramos

Anónimo disse...

O João Cachado tem razão. A maior parte dos sintrenses não defende os seus direitos. Parece que está tudo morto. Eu admito as minhas omissões. Quem mais se acusa?

Ana Ferreira disse...

Colega João Cachado,
Nada disto é novo. Aliás tudo tem sido denunciado por si. Apesar de estar habituada à indiferença das autoridades, parece que em Sintra ultrapassa-se a decência. Em especial o Presidente e o Vereador do Turismo deviam dar um sinal qualquer. Mas os jovens das escolas do concelho vão sabendo como se portam os autarcas. Acredite que há muitos colegas a secundarem este trabalho nas aulas e mesmo em conversas com os pais. Sei que, às vezes, desanima. Por favor, continue com estas denúncias.
Ana Ferreira

Anónimo disse...

Caro João
Quanto ás obras do Vale dos Anjos e da vivenda do senhor da TVI não podemos esquecer onde trabalha a mulher do nosso presidente,se eu quiser pintar a minha chaminé de outra cor garanto-lhe que no dia seguinte tenho em casa todos os fiscais de obras desta Câmara e arredores.
Quanto à sinalética no portão é uma questão de tempo até passar por lá.

João Cachado disse...

Ainda que escudado no anonimato, resolvi publicar o comentário precedente. Gostaria de responder à letra mas não o faço pelo tratamento que merecem as mensagens anónimas.

João Cachado