[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sábado, 12 de novembro de 2011


Mais uma vez,

a estrela Sokolov



[Domingo, 13 Nov 2011, 19:00, Grande Auditório da Fundação Gulbenkian- Johann Sebastian Bach, Concerto Italiano, BWV 971; Abertura Francesa, BWV 831- Johannes Brahms, Variações sobre um tema de Händel, op. 24, Três Intermezzi, op. 117]

Amanhã à tarde, teremos Sokolov, novamente, na Gulbenkian. Em Portugal, jamais perdi algum dos seus recitais ou concertos, informação esta que talvez vos baste para confirmar como, em minha opinião, são acertados todos os adjectivos, no grau superlativo, com que têm sido qualificadas as suas prestações. Não significa isto que sempre concorde com as suas interpretações. Contudo, o que não posso deixar de reconhecer é que todas as propostas de leitura são informadas pelo génio.

Difícil, talvez mesmo impossível, será encontrar outro pianista, da sua craveira, que, tão bem como ele, conheça os segredos dos pianos Steinway com os quais luta, sacando o melhor que têm para dar. Como não há dois iguais, o desafio é particularíssimo. São lendárias as histórias que se contam deste Sokolov que, nas vésperas e horas antes de enfrentar as audiências, se entende e desentende com o piano, montando e desmontando, afinando, conhecendo-lhe os detalhes que lhe permitirão obter este ou aquele efeito…


Quando se abre a porta de acesso aos palcos onde se apresenta, o pianista já vem de tal modo concentrado que, mal saudando o público, se senta e ataca a peça, para não mais se dissociar daquele casulo negro e branco que forma com o instrumento. É um fascínio. Muito poucos, como ele, verdadeiros demiurgos, conseguem levar-nos para onde pretendeu o compositor. Com ele, é frequente dar o salto para uma dimensão outra, perdendo o fio que me liga à realidade do auditório. Acreditem que, não raro, chega a ser perigoso. Só a grande Arte, nas mãos do intérprete de eleição, faz tal percurso de autêntica epifania.

Sokolov é de uma generosidade absolutamente ímpar. Certa ocasião, em Sintra, ofereceu dez peças extra. Mas cinco, seis, é perfeitamente habitual. No entanto, não posso deixar de partilhar convosco um episódio ocorrido num concerto no Mozarteum de Salzburg. Fui consultar o meu ficheiro para não me enganar. Em 30 de Janeiro de 2005, depois de ter interpretado o Concerto em Lá Maior KV 488, de Mozart, com a Orquestra de Câmara Mahler, dirigida por Trevor Pinnock, desentendeu-se com o maestro.

A coisa era muito simples. Sokolov considerava e, nesse sentido, deu a entender a Pinnock, que devia destacar a prestação do clarinetista. Porém, apesar de o pianista ter feito a menção por três vezes, o outro não correspondeu. Entretanto, sem que, na generalidade, o público se apercebesse do que estava a suceder, continuava a aplaudir freneticamente, esperando ter a sorte de um encore. Pois bem, o homem amuou mesmo e não houve mais nada para ninguém. Foi esta a única vez em que presenciei tal atitude por parte do extraordinário artista.



Amanhã, como se trata de recital, cena semelhante não será possível. A menos que se desentenda com o próprio público, aliás, como aconteceu, por exemplo, com Alfred Brendel, também na Gulbenkian, que suspendeu a execução de uma das Bagatelas de Beethoven devido ao barulho que se fazia no auditório… Uma vergonha célebre que veio acrescentar-se a outras a que tenho assistido. Aí está um tema interessante para outro artigo.

Do programa anunciado, proponho que ouçamos o Andante do Concerto Italiano de J.S. Bach, precisamente, por Grigory Sokolov, numa gravação captada num seu recital em 23 de Abril deste ano, em Sanpetersburg.



http://youtu.be/QUKlSBqIG5A
Grigory Sokolov - Bach Italian Concerto - II. Andante http://www.youtube.com/




1 comentário:

João Cachado disse...

Transcição do Facebook:

Natália Carvalho

Magnífico; estou tão arrependida de só ter feito meia dúzia, é que não foi mais de aulas de piano,a minha sobrinha,andou na conservatória na Suiça 7 anos depois começou a crescer e não quis mais!!!Estúpida,desculpe.Adorei ♥
há 3 horas ·

João De Oliveira Cachado

Não tem qualquer razão para se autopunir ou culpabilizar. Tudo o que terá aprendido constitui uma inequívoca mais-valia para a apreciadora de música que a Natália é. Os compositores conceberam as suas obras pensando em bons ouvintes. Claro ...que, quanto mais 'ferramentas', o ouvinte tiver, melhor. O que faz o bom ouvinte é a frequência com que ouve música, quer em directo, nas salas de música, quer através de gravações. Há perguntas pertinentes cuja resposta, em quantidade e qualidade, ajudarão a definir o perfil do ouvinte. De que maneira aumenta o seu reportório? A quantas e diferentes vesrsões e 'leituras' da mesma peça acede? Que experiência de vida é a sua e que abertura de espírito, que capacidade de acolhimento da novidade revela? E, muito importante, que perspectiva é a sua do gozo da música, ou seja, de que modo a música faz parte da sua vida? Pois, muito naturalmente, os conhecimentos rudimentares desta Arte, nomeadamente o solfejo - que fazem parte do curriculo escolar nos países onde a Educação é coisa séria - são preciosos auxiliares. podem revelar-se um grande suporte. Mas, Natália, conheço muito boa gente que, apesar de não conhecer uma nota musical do tamanho de um boi, é capaz de apreciar, de ter opinião e de não dispensar a música na sua vida. AbraçoVer mais
há 2 minutos