[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011


As árvores?
-Também se abatem...

Nos últimos dias, muitos sintrenses foram alertados para a hipótese do abate de umas quatro árvores na Rua Barão de Almeida Santos – artéria do Bairro da Estefânea, que coincide com a área da designada Correnteza – junto à Casa Mantero e Biblioteca Municipal, na Freguesia de Santa Maria e São Miguel, bem no coração da sede do concelho.

Desloquei-me ao local, deparando com uma cinta vermelha e branca cingindo a série de árvores que seriam objecto de intervenção. Pendurado em cada um dos troncos, inserido em saqueta de plástico, havia um aviso em folha A4, muito tosco, solicitando aos condutores que ali costumam estacionar as suas viaturas o favor de não o fazerem em determinado dia devido a trabalhos de poda que, assim, eram anunciados.

Duvido que, efectivamente, houvesse intenção de abater as referidas árvores. De facto, o que se anunciava, era, repito, uma intervenção no âmbito da poda. Muito estranharia que, conhecedores da sensibilidade dos cidadãos na sua relação com as árvores, os serviços camarários ousassem anunciar um objectivo absolutamente pacífico que, afinal, em plena operação, se transformaria num corte radical. Enfim, em Sintra, tudo é possível. No entanto, apesar de habituado à surpresa perante os mais dissimulados desmandos, ainda não cheguei ao ponto de prever perfídia que tal…

Porém, a abordagem deste assunto, suscita que, a propósito, traga outro à colação no sentido de alertar para a necessidade de resolução de um grave problema de circulação de peões. Moro na zona há mais de quarenta anos, sei do que falo, confronto-me com o problema e, no local, tenho visto tanta gente em apuros, que não imagino como ainda não ocorreu algum lamentável acidente.

Tendo em consideração que os passeios estão pejados de árvores, cujo porte obriga ao desvio das pessoas para a faixa de rodagem, impõe-se zelar e, de todo em todo, não descurar qualquer detalhe que possa pôr em causa a sua segurança. Mais especificamente, trata-se de zona frequentada por muita gente, em especial, imensas senhoras acompanhadas de crianças de tenra idade, em carrinho de bebé, ao colo e pela mão, deslocando-se entre a estação de caminho de ferro, terminais rodoviários e as instalações da Segurança.

Tanto quanto alcança a minha capacidade de discernimento, obrigada a equacionar os interesses dos peões, das árvores e dos condutores que ali encontram uma informal área de estacionamento, parece óbvio que, optando por não abater as árvores, apenas resta a solução de, definitivamente, cancelar a hipótese de ali arrumar os veículos automóveis, provendo à instalação de um corrimão com baia de protecção que impeça alguma criança mais irrequieta de fazer qualquer disparate.

Comunicar, é preciso

Por outro lado, não resta a menor dúvida de que a controvérsia gerada pela questão em apreço teve origem na falta de uma estratégia de comunicação entre os serviços municipais e os munícipes. É perfeitamente previsível que se tenha de podar, de desbastar e de realizar não sei quantas mais intervenções, inclusive a do abate destes maravilhosos seres, muitos dos quais já cá estavam quando nascemos e que por aqui continuarão depois de partirmos.

As árvores tudo merecem. É óptimo perceber até que ponto estão os cidadãos tão sensíveis às suas necessidades e preocupados com o seu bem estar. Sendo isto mesmo assim e não recurso de mera retórica, há que saudar a relação, cada vez mais forte, entre as pessoas e as árvores. Nestes termos, já se sabe que a necessidade de qualquer manobra, em benefício das próprias árvores, se não for oportuna e devidamente justificada e muito bem explicadinha, pode suscitar os mais perversos efeitos.

Se este terreno é tão sensível, se a hipótese de fricção está sempre iminente, ninguém pode dar-se ao luxo de lançar evitáveis rastilhos. Então, como entender que os serviços camarários – actuando em benefício último dos munícipes e, em geral, de todos os cidadãos contribuintes – se tenham permitido descurar o importantíssimo factor da comunicação que, para os cidadãos, se traduz na necessidade de satisfazer o inalienável direito à informação?

Vão deixar que passe o exagero mas, perante a eventualidade do abate, quase vi jeitos de um levantamento popular. Tudo isto porque, ao fim e ao cabo, algum (ir)responsável da Câmara Municipal de Sintra não esteve à altura das circunstâncias. Numa época em que, com a maior eficácia, os mais variados suportes de comunicação permitem que as mensagens cheguem aos destinatários sem qualquer problema, admite-se que significativa parte da comunidade sintrense quase tivesse entrado em polvorosa devido à incompetência de alguém que, está visto, há-de escapar-se por entre as malhas da reinante irresponsabilidade?

Aqui deixo ao Presidente Seara uma especial chamada de atenção para a necessidade de repensar a estratégia de comunicação entre os diferentes serviços
e os munícipes que, uma vez conseguida, certamente evitará a ocorrência de muitos episódios, mais ou menos caricatos. Então, neste caso de pretensos atentados às árvores, o que não falta é aquele habitual dose de histeria à solta dos defensores de pacotilha...


5 comentários:

João Cachado disse...

Transcrição do facebook

Ricardo Duarte

Penso que a questão é mesmo esta, a correcta abordagem a esta atitude da Câmara Municipal. Julgo que ninguém intelectualmente honesto pode pôr em causa, de forma leviana, a intervenção técnica. Embora possa ser questionada se reflectida coe...rentemente. O facto grave quanto a mim é mesmo o carácter da comunicação, ou falta dela. É sabido que este assunto mexe com a sensibilidade dos sintrenses (basta nos recordarmos das reacções suscitadas à hoje tida como correcta intervenção feita pela P.S. Monte da Lua nas Tapadas na serra) e por isso deveria de ser abordado de outra maneira pela entidade responsável. Tanto mais que da pobre comunicação no website faz parte uma mentira. NUNCA a Câmara substituiu qualquer árvore abatida conforme divlugado.

Unknown disse...

Bom dia.
Gosto de aqui vir "beber" informação sorbe Sintra, uma vila que passou a ser o meu "poiso" faz agora cerca de 6 anos.
costumo passar pela Av. Gen. José Estevão Morais Sarmento onde foram abatidas ontem pelo menos 2 árvores. Fiquei realmente triste e foi com curiosidade que vi aqui o seu comentário ao possível abate de árvores.
Fica apenas aqui a nota desse acontecimento.
Obrigado pela sua partilha neste espaço.

Helder Pereira

Anónimo disse...

Foram abatidas mais 2 ali nesse dia, a juntar muitas outras noutras ruas nos últimos meses.

Anónimo disse...

"neste caso de pretensos atentados às árvores, o que não falta é aquele habitual dose de histeria à solta dos defensores de pacotilha..."
Assim o Sr. é o primeio a não saber comunicar.

JAC disse...

Na cabeça de maioria das pessoas está a ideia que se existem árvores em passeios então deviam ser abatidas. Em primeiro lugar estão os automobilistas depois estão os peões e claro só depois estão as árvores...E as soluções hoje em dia encontram-se tendo em conta esta ordem. Mas se nos esforçassemos um pouco mais saberiamos que a solução correcta seria a que considerasse todos. Essa sim seria a solução e essa é a solução em maior parte dos países civilizados. Países esses em que uma artéria daquele tipo não deve ter a quantidade de transito que tem, não devia ter aquela quantidade de estacionamento permitido e um dos passeios devia ser naturalmente mais largo para permitir a existênciia das árvores e a passagem de peões com carrinhos de bébés ou outros. Se houver um estacionamento periférico para quem vem para Sintra pela estrada de Colares e aí houver um transporte publico de acesso gratuito ou quase que transportasse as pessoas até vários destinos dentro do centro de Sintra - todos ficariam a ganhar teriamos a chamada qualidade de vida.