[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Primeiro de Dezembro
e o meu iberismo


Encaro o episódio do Primeiro de Dezembro de 1640, por exemplo, não como a comemoração da libertação de um jugo vergonhoso, pasto fértil ao alimento de ódios atávicos, mas no quadro de movimentação muito mais global, que se inscreveu na sofisticada estratégia de apoio às revoltas antiespanholas, desenhada pelo espantoso Homem de Estado que foi Armand Jean du Plessis, Duque de Richelieu, Cardeal e Primeiro Ministro do Rei de França, Luís XIII.

Naquele contexto, sim, forçoso é enquadrar o que aconteceu há precisamente trezentos e setenta e um anos. Ora bem, se a data que assinala um facto histórico tão determinante para o destino das duas nações peninsulares é muito estimável, então, merece o entendimento desvinculado dos calores vibrantes de um patriotismo que, às tantas se confunde com patrioteirismo, tudo ou quase tudo perdendo com a paixão dos ânimos exacerbados.

Entretanto, no Primeiro de Dezembro de cada ano que passa, não consigo deixar de conjecturar nas diferenças que a História registaria se o Primeiro Ministro da França de então não tivesse mexido uns certos cordelinhos. De facto, a coisa correu muito bem para a França, acabando por resultar na designada ‘recuperação da independência’ do reino de Portugal, independência esta que, em termos do Direito, nunca esteve em causa.

Convém não esquecer que, de acordo com a resolução das Cortes de Tomar, reunidas em 16 de Abril de 1581, afinal, o reino apenas se limitou a aclamar, como monarca, aquele que também era rei de Espanha, ou seja, Filipe II – filho do Imperador Carlos V e da Imperatriz D. Isabel – filha esta do Rei D. Manuel de Portugal – portanto, aclamar, para depois acolher um rei que, muito longe de ser o usurpador que continuam a impingir nos bancos da escola, tinha direito a reinar em Portugal, neto que era do ‘Venturoso’, por via absolutamente legítima, e não, como acontecia com D. António, Prior do Crato, também neto de D. Manuel, mas como filho bastardo do Infante D. Luís.

Durante os sessenta anos passados num quadro muito propício ao renascimento de quezílias ancestrais, não é difícil entender como, à França, em particular, convinha aproveitar terreno tão fértil e promissor. Apenas faltava que a inteligência superior de um Richelieu estivesse à altura do momento. E de tal modo esteve que, décadas de intrigas, traições, negócios claros e escuros, traficâncias e interesses de toda a ordem, acabaram por revelar o lastro ideal à conjura delineada a partir de Paris. Por outro lado, julgo ser pacífico afirmar que as consequências do acontecimento, a curto, médio e longo prazos – tão longo que atingem os nossos dias – foram altamente nefastas tanto para Portugal como para Espanha.

Mesmo que vingasse a tese de que os conjurados de 1640 teriam libertado o país de um jugo estrangeiro, então seria imperioso aceitar a ideia de que, ao fazê-lo, acabariam por entregar a Pátria à mercê dos interesses de outras potências. Tal continuava sendo o caso da França – que, durante todo o reinado de D. João IV, patrocinou a Guerra Peninsular a troco de compromissos avultados, no âmbito dos quais, mais tarde, já com D. Afonso VI, impõe o casamento deste com Maria Francisca Isabel de Sabóia, prima do próprio Luís XIV – e passou a suceder com a Inglaterra, como veio a acontecer com o casamento de D. Catarina, implicando num dote estrondoso que incluiu as praças de Tânger e de Bombaím com as consequências da perda do comércio e do império do oriente.

O meu iberismo

Naturalmente, pela proximidade do feriado de ontem, socorri-me de um episódio que, aliás, como muitos outros, não abalou qualquer factor da enorme estima que nutro pela Espanha desde miúdo, levando-me a assumir como iberista confesso e irredutível. Este sentimento de pertença ao grande país que é a Ibéria, identificando-me no idealismo levado à loucura de um Don Quixote, em perfeita simbiose com o realismo mais terra a terra de Sancho Pança, é crença e convicção herdadas na minha casa de família, afinal, coisa muito concreta e vivida, na experiência de todos os dias, já que o pai tinha casa e empresa em Espanha, em pleno coração de Madrid, Calle de Carretas, esquina com a Puerta del Sol.

De facto, na Espanha fascista, muito mais do que no Portugal igualmente fascista, era muito mais fácil negociar com determinados países. Os negócios da empresa da família, no campo da alimentação, da agricultura, da pesca e da pecuária, ganharam uma dimensão de escala que só a sede em Madrid permitia. O meu pai foi um empresário ibérico, à altura das circunstâncias, com uma visão culta e abrangente da actividade económica em que se movia. Dele me ficou uma perspectiva da realidade peninsular que, ainda hoje, infelizmente, está longe de ser dominante.

Habituei-me a considerar, como Pátria, a grande Ibéria, onde a minha terra, Portugal, é uma das grandes regiões, tal como o são, por exemplo, a Catalunha, Castela, Andaluzia ou a Galiza. Para mim, D. João II é tão grande e especial como Filipe I. Luís de Camões e Miguel de Cervantes, Velasquez e Grão Vasco, Juan Crisostemo de Arriaga e João Domingos Bomtempo, Miguel de Unamuno e Manuel Pedro de Oliveira Martins, Fernando Pessoa e Federico Garcia Lorca, todos estes e tantos, tantos mais, na sua ibérica grandeza, são massa da mesma farinha.

Habituei-me a amar o meu rincão alentejano, as terras do Ribatejo e das Beiras, donde são oriundas as minhas famílias paterna e materna, e nesses lugares me sentindo ibérico, até à medula, tal como em Córdoba, na minha Granada, onde me perco de amores, ou nos montes e estreitos desfiladeiros das Astúrias, que me apertam e afagam, com braços enormes, a estenderem-se entre o Oceano e telúrico coração da Meseta, numa arreigada pertença, que não concede a mínima hipótese de ruptura ou de separação.

ão bem me tenho dado com estas afinidades, que não me passa pela cabeça qualquer razão contrária. E, na realidade, não são alguns episódios históricos, de maior, menor ou aparente importância, que me afastarão de convicções já muito radicadas. Tento, o mais possível, não ceder à força de atavismos seculares, que se impuseram só porque muito se repetiu uma e única perspectiva, absolutamente parcial, dos eventos, transformada em verdade conveniente e oficial.

Assim sendo, tão lucidamente quanto me é permitido, procuro beneficiar da verdade global, que ultrapassa o risco das fronteiras ou dos campos onde ocorreram lutas cuja moldura escapa a quem, mais comodamente, não põe em causa a facilidade das versões correntes, sabidas e consabidas, desde os tempos em que começavam a circular nos bancos da nossa instrução primária, do torneio de Valdevez até Ourique, Aljubarrota, Alfarrobeira, Toro, de Alcácer Quibir a Chaimite e não sei a quantas mais, todas cabendo na mesma pacotilha fatalista, nacionalista, patrioteira e santificada. Não, decididamente, cá por casa, não gasto desse produto...

A propósito, penso eu, gostaria de vos propor esta maravilha.


http://youtu.be/n3Ek5kZr8Yc

1 comentário:

João Cachado disse...

Transcrições do facebook:

Ana D'Oliveira, Carlos Gordo, Jorge Tavares e 2 outras pessoas gostam disto..


Carlos Gordo

Excelente, João. Depois de ter passado os dias 1 e 2 de Dezembro a ver e a ler as mais incríveis idiotices sobre a efeméride é muito gratificante e salutar poder ler algo que consegue ver para além do "quintalinho". Já começava a desespera...r de ver tanta idiotice, alguma propalada por distintas figuras de algumas das actuais nomenclaturas; oposição incluída. :(( (Amanhã tenciono ir ao concerto com a soprano Patricia Petibon na CG. Se fores, avisa, sff)Ver mais Sábado às 1:27