[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sócrates,
imensa cloaca


Alimentada por um esterco que parece não dar sinais de estancar, a imensa cloaca continua a encher. De modo algum, será caso para admirar. Aliás, alguém esperaria que, pelo facto de se ausentar para parte certa, o cidadão Sócrates deixaria de fornecer ao caneiro o manancial inesgotável de controvérsia e polémica que constituem a marca indelével de um protagonismo caracterizado pelas piores razões?

Faltava o episódio da deslealdade institucional? Provavelmente, faltava. Por vezes, nestas lusas paragens, como bem se tem verificado nas mais diversas ocasiões, só quando transborda o esgoto e já tudo fede em redor, obrigando o pessoal a pisar os dejectos, então se fecha a comporta por onde purga a trampa. No caso em apreço, infelizmente, parece não se ter alcançado ainda esse ponto…

Apesar de, num contexto político muito medíocre, o assunto já ter sido explorado até à náusea, na fase final do segundo governo que Sócrates chefiou, disso se tendo encarregado a rasteira classe política nacional, sempre muitíssimo bem acolitada por uma comunicação social de péssimo extracto, a questão foi agora inabilmente repescada por um Presidente da República que continua dando sobejas provas de falta de sentido de Estado, num momento totalmente desadequado.

Não tenho a menor dúvida em alinhar com todos quantos consideram que, de facto, o então Primeiro Ministro actuou em flagrante delito de deslealdade institucional . Também considero que, coerente e consequentemente, a o Presidente da República apenas restava a solução de demitir Sócrates. Afinal, por muito menos, Jorge Sampaio, esse sim, soube estar à altura da situação. Naturalmente, não o tendo feito em tempo oportuno, neste momento, a «resposta presidencial» parece coisa de senhora vizinha, ainda que sob a formal aparência de inclusa num prefácio dos anais de Belém…

No meio de tudo isto se evidencia um manifesto testemunho de ofensa – não ao cidadão Aníbal Cavaco Silva, mesmo na sua condição de Presidente da República – mas de deslealdade à própria República. Na realidade, no exercício das altas funções de Chefe do Governo, encarregado da condução da coisa pública [res publica, República] José Sócrates desrespeitou o juramento que oportunamente fizera quando se comprometera a exercer ‘com lealdade’ – faz parte da fórmula – as funções em que fora investido.

Provado ficou que José Sócrates foi desleal à República. Inequivocamente. A História já registou e, para sempre, assim se dirá e constará. No entanto, não menos claramente, a actuação do cidadão Aníbal Cavaco Silva, enquanto Presidente da República, pecou por desrespeito à República e à Constituição da República. Então não se comprometeu ele a cumprir e a fazer cumprir a Constituição da República? Então a assunção deste sagrado princípio não determinaria a liminar demissão do cidadão que protagonizou o episódio de deslealdade à República?

Como, em Portugal, nada é levado às últimas consequências, claro que a resposta só pode ser negativa. Por outro lado, como a cloaca não transbordou, não cheira muito mal e ainda ninguém está suficientemente atolado na porcaria, vai ser preciso aguardar pelos episódios da licenciatura feita às três pancadas que já voltou à baila, pelo andamento dos processos Face Oculta, Freeport e Cova da Beira cuja procissão ainda não saiu do adro e sei lá o que mais. O que não falta é matéria para parangonas de jornais e abertura de telejornais…

1 comentário:

João Cachado disse...

Transcrição do facebook:

Luis Miguel Correia Lavrador, Carlos Gordo e 7 outras pessoas gostam disto: Conceição Neto
Chábeli de Castro-Camacho
Dina Baltazar
Fernando Castelo
Luiz Valadão
Carlos Gordo
Maria Fernanda F. Silva


Dina Baltazar

São todos da mesma espécie...
há 22 horas

Marco Mendes
Somos todos iguais perante a lei, mas há outros que o são mais.
há 22 horas

João De Oliveira Cachado

Os que mencionei sem dúvida que são. Goste-se deles ou não, trata-se de cidadãos que estiveram ou estão ao serviço da República depois de processos eleitorais formais, num Estado Democrático de Direito. Está na nossa mão alterar este estado de coisas para que a vida democrática seja menos perversa. Um dos dispositivos legais que urge equacionar, em substituição do actual, é o que resultará na opção por círculos eleitorais nominais já que o actual é maximamente perverso, perpetuando um statu quo que, num país com as características do nosso, é totalmente adverso ao exercício da cidadania.
há 22 horas

João De Oliveira Cachado

Atenção, o meu comentário anterior respondeu ao da Dina Baltazar.
há 22 horas

Marco Mendes

Tocou no ponto basilar do modelo representativo! Com modelo uninominal jamais mudaremos o que quer que seja!
há 22 horas

Dina Baltazar Os que mencionou...mas quais foram ou são os que actuam razoavelmente? Não foi só o governo Sócrates a estragar...
há 21 horas



João De Oliveira Cachado

Minha Amiga, o que eu não quis foi meter no mesmo saco quem lá não deve ser incluído. Apesar de extremamente medíocre, na designada classe política ainda há alguma gente digna. Até mesmo nos partidos do «arco do poder» há mulheres e homens que, outro fosse o contexto político-partidário, até renderiam trabalho mais consentâneo com as necessidades do país. Julgo que a ninguém será consentida a veleidade de pensar que «a verdade e as boas qualidades» estão todas em determinado reduto. Provavelmente, falta um decisivo abanão e inequívoco desafio para que os melhores de nós dêem o passo que é preciso...
há 21 horas

Dina Baltazar

erto. Existem muitos sacos...o problema é mesmo de raiz. O sistema democrático é eficazmente propício a este tipo de sacos. O saco da corrupção, o da incúria, o do compadrio, etc...não é por por em causa democracia que defendo a ditadura ou a monarquia. Invente-se um novo sistema!! A gente digna que eventualmente se encontrará por lá, confesso que conheço pouquíssimo sobre as personagens, terá uma máscara enorme, pois ser digno e vivenciar o actual sistema deve ser uma tortura.
há 21 horas ·

Carlos Gordo

‎"Quem assim fala... gago não é, certamente
há 5 horas