[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sintra,
o eléctrico e o mecenas

Antes do início do Verão do ano passado, o Vereador Marco Almeida, num programa de TV que me pareceu em directo do local, dava a entender que, no prazo de dois meses, a linha do eléctrico de Sintra estaria definitivamente operacional, com os carros a rodar sobre os carris. Ao dizer o que disse, mais não fez, afinal, do que afirmar a condição da Câmara Municipal de Sintra como concessionária da referida linha, entidade à qual está confiada a exploração do circuito, depois de investimento tão avultado no fim do século passado e princípio do actual.

Claro que não passou de promessa, mais uma de tantas em que o actual
executivo autárquico tão pródigo tem sido. Aliás, em relação ao eléctrico de Sintra, eu próprio ouvi falar acerca dos mais promissores projectos, como o do atravessamento da Heliodoro Salgado, primeiro a caminho da estação terminal da CP e, posteriormente, até à Vila Velha, repondo o trajecto que, os mais velhos de nós ainda nos lembramos.

Provavelmente, nos arquivos da Câmara, ainda existirão as três ou quatro montagens fotográficas, com as nítidas mas virtuais imagens dos carris e do eléctrico através da avenida pedonal, com esplanadas à direita e à esquerda. Para todos os efeitos, era coisa que estava tão prestes a acontecer… E, não senhor, não foi em tempos recentes, de promessas ainda mais retumbantes como o SATU e o protocolo com o polémico presidente da CM de Oeiras, pois tudo se passou no primeiro dos dois últimos mandatos.

A última notícia relativa à reposição da circulação do eléctrico, dentro dos carris e sob a catenária – equipamentos e materiais que a Câmara Municipal de Sintra terá deixado deteriorar, por manifesta falta de manutenção – envolve um contrato de doação em espécie, num montante de dois milhões e meio de euros, para reabilitação e manutenção da linha entre Sintra e Praia das Maçãs, obras que decorrerão no prazo de dois anos. Cabe perguntar com que base se permitiu o Dr. Marco Almeida prometer obras de dois meses… Na altura, seria só para atamancar?

É a Multi Development Portugal-Promotora Imobiliária, SA, que tem em construção 2200 lugares de estacionamento no Forum Sintra, num total de 55.000m2, a empresa que, generosa e mecenaticamente, se propõe doar tão avultada soma de dinheiro (já incluindo as despesas com a catenária que serão debitadas à CMS com mais 15%), cobrindo os encargos de recuperação de um património que a Câmara não terá sabido cuidar, como se poderá inferir dos termos da doação objecto do protocolo.

O Sr.Bernardus Van Veggel, presidente do conselho de administração da Multi, é o promotor de uma obra em curso em Sintra, o tal parque de estacionamento de cinco hectares e meio adjacente a um centro comercial. Ponto final? Parece que não. A história só acabaria por aqui se, em tempo de tão mitigadas verbas para qualquer patrocínio, não se impusesse perceber o que o levará a esta magnanimidade que, como não podia deixar de ser, tanto nos comove.

E, em sentido complementar, ao aceitar a doação, a Câmara Municipal de Sintra, sempre em nome dos superiores interesses dos munícipes, também deveria explicar se haverá alguma contrapartida. Tudo em nome da tão apregoada transparência, coisa tão cara que é fonte da dignidade pessoal e da própria vida democrática.


6 comentários:

João Cachado disse...

Amigos,

Façam como entenderem desde que consigam conjugar o texto que hoje publiquei com o da notícia que, com a devida vénia, passo a transcrever do «Cidade Viva». Não há dúvida - se bem se lembram, ainda no tempo da direcção do Luís Galrão, eu chamava a atenção para o trabalho do órgão de comunicação regional em referência - esta gente anda atenta.

Abraço do

João Cachado

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Realizou-se hoje, por volta das 11h00, o regresso do eléctrico à Praia das Maçãs; após ter sido alvo de inúmeras polémicas, vai estar a funcionar nos próximos fins-de-semana.

A convite da Câmara Municipal de Sintra, o Cidade VIVA, participou, em conjunto com outros órgãos de comunicação, na viagem de eléctrico, desde Sintra, até à Praia das Maçãs. Estiveram presentes, o Presidente da Câmara Fernando Seara, o Vereador Luis Duque, o Presidente da Junta de Freguesia de Colares, entre outros convidados.

Após uma visita à garagem onde se encontram os eléctricos e, na qual, também, se procede à reparação dos mesmos, Valdemar Alves afirma que “a frota é de nove eléctricos, dois motores e vários atrelados”. Relativamente aos próximos tempos, o responsável pelo funcionamento deste meio de transporte, espera que “o eléctrico esteja a funcionar durante todo o mês de Agosto, dependendo dos recursos humanos disponíveis”.

Luis Duque defende que a obra só agora começou, devido aos “sucessivos atrasos nos projectos e à falta de verbas”, e que “por nossa vontade a obra tinha começado em Junho e não agora”.

A viagem foi pautada por algumas peripécias, de entre as quais, o facto de não ter havido aviso prévio sobre esta primeira viagem do eléctrico. Por essa razão, eram alguns os carros estacionados na linha, ou tão perto, que impediam a sua regular circulação. Chegando a Colares e, perante um desses obstáculos, não havendo outra solução, o Vereador Luis Duque, com o apoio de outros participantes nesta viagem, procederam ao desvio de uma das viaturas, a peso. “Só assim, com o esforço muscular de alguns viajantes pudemos fazer o resto da viagem em segurança, até à Praia das Maçãs”, afirmou o Presidente Fernando Seara.

Apesar de tudo, o eléctrico está agora a funcionar, às Sextas, Sábados e Domingos, das 9h00 às 19h00, pelo preço unitário de viagem normal de 2€; para idosos com mais de 65 anos, 1€ e, grátis, para crianças até aos seis anos.

Sara Lajas

Diogo Palha disse...

Estimado Senhor Professor João Cachado e meu amigo,
Como sabe por recomendação do meu médico estou obrigado a defender a saúde e não me entregar muito a enervamentos. Mas o seu blogue não falho e sigo conselhos sobre jornais de referência mesmo digitais.
Os últimos tempos têm sido férteis na divulgação de propaganda e de acções que me repugnam do ponto de vista político.São sites turísticos,acordos com Oeiras,ontem com a ARS e Católica, eléctrico de Sintra e sabe-se o que ainda aí vira.
Sabe meu amigo, os autores destas habilidades julgarão que, chegados a Sintra há meia dízia de dias, nos conseguem enganar como se fossemos tolos.
Então nada fizeram nestes anos de poder e só agora é que aparece tanta coisa? Mas que gente, meu amigo, mas que gente que se passeia por aí a julgar que vamos nestas tretas. Rua com eles nas próximas eleições e a Dra. Manuela Ferreira Leite que venha cá ver como isto está não só os locaos históricos como todo o concelho. Penso que a Senhora sairia de cá tão envergonhada que nos p´roximos anos não desejava cá voltar.
É assim que me sinto, mas pessoa de Sintra desde os meus 5 anos não posso ocultar a revolta que me vai na alma.
Um bom slogan para uma campanha da oposição: SINTRA NÃO MERECE MAIS DISTO".
Um grande abraço e peço desculpa pelo espaço ocupado.
Diogo Palha

Note, pf. : já viu o ridículo da cena de ontem do eléctrico? Delirante.

João Cachado disse...

Amigo Engº Diogo Palha,

Outra vez por aqui, a dar-me a alegria do seu comentário sempre tão oportuno, informado, culto e, não raro, com uma ironia que muito aprecio.

Claro que não posso estar mais de acordo consigo. Estes dois mandatos resumem-se a um tempo perdido em promessas, gasto na redacção de protocolos que redundam numa mão-cheia de nada e noutra de coisa nenhuma, palavras que o vento leva mas que, entretanto, serviram para inglês ver ou «pour épater le bourgeois»...

Em especial este último programa "Sintra, capital do romantismo" - que o Presidente da Câmara assume como «marca» de um produto que, na sua perspectiva, se vende como qualquer pacote de queijadas e o Vereador do Turismo (e da Cultura, santo Deus, da Cultura que, ainda assim, está bem entregue!...)entende como mais umas camas para pares amorosos - este último programa, escrevia eu, é um perfeito escândalo já que não passa de venda de gato por lebre.

Gato por lebre, Engº Diogo Palha, pura e simplesmente, gato por lebre para apanhar papalvos através da internet. Aqueles que se deixarem apanhar pela «rede» de tal engano, tão institucionalmente entretecido, uma vez chegados cá ao burgo, deparam com um painel de degradação que nenhuma terra europeia, com muito mais barbas do que Sintra para poder alcandorar-se à designação de capital do romantismo, se permitiria mostrar tão despudoradamente.

Prédios a caír de podres nos acessos e em pleno centro histórico; o desleixo mais descarado na limpeza e higiene das ruas; falta de informação capaz, a todos os níveis, nomeadamente, nas indicações objecto da sinalização nas ruas e estradas; falta de estruturas de acolhimento para campistas e caravanistas que resultam, por exemplo, nos desmandos bem visíveis no Rio do Porto; profusão de motéis na periferia das freguesias da sede do concelho,como única mas ridícula marca de romantismo «de sexta classe» para pares de apressadas relações; evidentíssima falta de estacionamento que resulta num panorama de insegurança de pessoas e bens e de generalizada falta de qualidade de vida; falta de animação cultural que bem atesta a incapacidade da edilidade que não tem um programa de oferta cultural estruturada, bem calendarizada...

Pensará esta gente que lança uma «marca», que convida uns sujeitos e sujeitas que aparecem na televisão para uns copos na Regaleira, e que toda a gente fica embevecida com tanto provincianismo, com tanta falta de cuidado, com tal carência de informação e de outros ingredientes que fazem o caldo do arrivismo bacoco?

Tudo isto brada aos céus, Engº Diogo Palha. Fala o Senhor na Dra Manuela Ferreira Leite. Não digo que não. Neste momento, porém, estou muito mais preoupado com a vergonha e o escândalo que sentirão a Dra. Ana Gomes, o Dr. André Beja, o Engº Baptista Alves. E mantenho-me na expectativa acerca do modo como tornarão operacional a assunção dos frequentes erros dos partidos em que se enquadram e da responsabilidade na manutenção de um statu quo que tem matado e adiado Sintra.

Em Sintra está em causa toda uma classe política que não pode isentar-se de responsabilidades. Os munícipes e os fregueses estão fartos de tanta farsa. A gente ouve na rua. Estão nas tintas, marimbam. Entraram no descrédito. Não participam na vida cívica. Demitiram-se. Não votam ou, votando, fazem-no numa expressão mínima. Acontece o que seria de esperar, e, em Sintra, mais do que noutros concelhos da área metropolitana de Lisboa.

Impõe-se fazer-se ouvir uma linguagem de verdade e a liminar recusa de qualquer estratégia de tolerância que, em termos lusos, assume a capa da malfadada cultura do desleixo.

Também eu estou cansado, desanimado até mais não poder, sentindo-me ludibriado, utilizado na boa fé da minha independência, com a qual alguns autarcas se permitiram brincar, empatando o meu tempo e alguma capacidade e desejo de participação cívica na resolução de problemas da comunidade.

Deixo um beijo para Dra. Elisa e, para si um grande abraço e a expressão de muita consideração

João Cachado

Fernando Castelo disse...

Caro João Cachado,

As palavras do nosso comum Amigo (letra grande, claro) Diogo e o texto que se lhe seguiu, de sua parte, ajudam a que apareça por aqui com um tema - por nós debatido - e que nos é caro.

Enquanto cidadãos e pessoas de bem, temos pessoas a quem nos ligamos por consideração pessoal, talvez pelo seu trato e simpatia, convictos da verdade estar estampada nos seus rostos e palavras de índole particular. Ainda bem e essas não enjeito (talvez possa dizer não enjeitamos) para os actos alheios à prática política. Pelo menos enquanto tais relacionamentos forem natidos.

Do ponto de vista político, e procedimentos que envolvam toda uma sociedade, a coisa muda de figura e não há amizade privada que me faça alterar uma posture de desacordo e crítica.

Tal como o João, também eu estou cansado e desiludido, mas não vou virar as costas e deixar que tudo caminha ao inverso do que deve ser a evolução, sustentada, de uma sociedade. Irei criticar, denunciar e fazer tudo o que estiver ao meu - pequeno - alcance para que vença um projecto que se me afigujre credível de nos tirar desta situação.

Estarei atento a quem me queira escutar, a quem se identifique com a solução que é urgente para todo este concelho, e não apenas jogue em frases feitas há mais de 100 anos, sem encaixe no tempo presente.

A história de Sintra é demasiado rica para que a história dos nossos dias a não respeite, sejam os truques diversificados ou não.

Falar da história de Sintra, de ilustres que falaram sobre Sintra, é dar passos no respeito pela riqueza dessa história, mantê-la, adicionar-lhe mais história, a história dos nossos dias.

Não é isso que vemos. Nem a isso assistimos.

Nós (permita que lhe diga) lutamos para que Sintra seja respeitada, mesmo que nós não o sejamos.

Foi um desabafo e a manifestação de uma vontade.

João Cachado disse...

Amigo Fernando Castelo,

Subscrevo totalmente as suas palavras. Fez muito bem em ter utilizado a primeira pessoa do plural. «Nós» não somos apenas o Castelo, o Engº Palha e eu próprio. Somos muitos mais, estamos cansados, desiludidos mas não de braços caídos. Temos filhos, netos, alunos, a quem não podemos nem devemos dar ou deixar um testemunho de desistência.

Não temos qualquer «comércio de porta aberta, discreta ou fechada» que suscite o mínimo compromisso com os governos local ou central. Somos cidadãos livres, independentes e intervenientes.

Certamente, algumas coisas pelas quais lutamos e temos dado público testemunho, deverão ter alguma valia. Como ficaríamos satisfeitos se «alguém» nelas pegasse e, com a força e autoridade do sufrágio, concretizasse as medidas que se impõem para melhoria da qualidade de vida, em especial, nas três freguesias da sede do concelho, onde tanta coisa se joga e onde tanta coisa está sujeita ao maior abandono e à mais perniciosa ofensa!

Estacionamento, transportes, reabilitação urbana, programa de animação cultural, tudo isto objecto de uma intervenção norteada pelo exercício intransigível da autoridade democrática, incompatível com o regime de «tolerância» vigente, coincidente com o nacional porreirismo e desleixo institucional.

Que programa, amigo Castelo! Há lá coisa mais mobilizadora?

Um abraço grande

João Cachado

Eduardo Alves disse...

João,

Ao mesmo tempo que esses autarcas iluminados de Sintra anunciam essa iniciativa fracassante que dá pelo nome de capital do romantismo (mas que grande originalidade!!...) deixam que o Festival de Sintra entre no estertor moribundo em que se encontra há uns quatro anos.

Eu só costumo intervir no teu blogue quando dás lugar a assuntos que se relacionam com a vida musical. Embora não seja hoje o caso, há uma relação directa que tem a ver com o festival, que era das grandes marcas «românticas» de Sintra. Por isso é que não entendo como esses políticos de meia tigela não percebem que as coisas não são isoladas. O «romantismo» de Sintra se existe, é uma coisa com muitas vertentes que tem de ser cuidada desde o modo como se arranjam os caminhos até à estrutura e à lógica do programa do festival que este ano ocupou tantas páginas do teu blogue. Tudo isto ainda se percebe menos quando o teu presidente da Câmara invoca tanto a "visão sistémica" das intervenções. Não sei quem é o responsável pele Cultura em Sintra nem me interessa. Mas isso é sintomático porque o vereador da Cultura duma terra como Sintra tem de ser uma pessoa conhecida por um passado de posições que garanta a qualidade de programas que Sintra merece.

Talvez que a Ana Gomes tenha alguém para o sector da Cultura que preencha estas condições e que coloque Sintra no mapa da vida cultural e pegue no Festival de Sintra como ele merece. Eu que não sou de Sintra mas que gosto tanto de Sintra faço votos que assim aconteça. Agora é preciso é que os
munícipes de Sintra votem como devem e, pelo que pode observar um «outsider» como eu, só Ana Gomes tem hipótese de fazer frente ao «careca do Benfica» (como ele próprio pediu que o considerassem, disso não me esqueço eu...) Um abraço
Eduardo B. Alves