[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sintra,
ou a cultura dos futebóis

Tenho a certeza absoluta. Bastaria que, em qualquer jornal local, apenas por uma vez, alguém tivesse chamado a atenção da Câmara Municipal de Sintra para a necessidade de homenagear o futebolista ou dirigente de um qualquer, mais ou menos obscuro clube do concelho e a positiva resposta não teria faltado por parte da autarquia, com a celeridade habitual, já que estas coisas do futebol, essas sim, lhe merecem a mais séria consideração.

Sem diferenças de maior, o mesmo se passa com a indigente casta de apresentadores, locutores ou cantores e músicos populares que, através da RTP, SIC e TVI preenchem as manhãs e as tardes, de domésticas e velhinhos que, em suas casas ou nos centros de dia das misericórdias, perdem o pouco tempo que lhes resta ouvindo e vendo as baboseiras desses comunicadores de terceira classe, alguns dos quais são nossos vizinhos, galardoados com a medalha de ouro do concelho.

Ao contrário de Cascais ou de Oeiras, onde artistas plásticos, músicos, mulheres e homens de letras são tratados com o devido respeito – e lembrados pelas comunidades, quer através da toponímia e das casas onde residiram, quer por se terem tornado patronos de equipamentos culturais – Sintra apenas lhes dedica o olímpico desprezo ditados pela geral incultura e reinante ignorância.

Enfim, a cultura é outra coisa, dá muito mais trabalho. Contudo, quanto mais trabalho, tanto mais gozo... Para estar à altura, é preciso ler bastante, todos os géneros de literatura, estar atento à comunicação social escrita e audiovisual, nacional e internacional, frequentar exposições e concertos, ir à ópera, ao teatro e ao cinema, fazer o possível por estar actualizado quanto às grandes preocupações do mundo, tanto no campo das humanidades como no das ciências, é preciso viajar, com os sentidos bem despertos, contactar as mais diversas gentes, de todas as idades, concedendo todo o tempo necessário a tão complexo processo.

Actualmente, não me consta que, pelos corredores do Roseiral, circulem responsáveis com o perfil cultural enunciado no parágrafo anterior. De modo algum. A gente culta de Sintra que, por ali, poderia andar, ou dali foi arredada ou auto excluiu-se. Por aqueles lados, as maiores preocupações estão voltadas para os relvados, televisões, telenovelas ou caricatas figuras de marchands de bijutarias…

Mily Possoz. Quem?

De facto, é perfeitamente impossível e escusado pensar que Sintra proceda, relativamente a Bartolomeu Cid dos Santos ou Mily Possoz, como Cascais tem feito em relação à sua gente das artes e das Letras. Ora bem, como acabam de verificar, ao lado de Bartolomeu – que já se tornou um pretexto para a luta que empreendi no sentido de chamar a atenção geral para a necessidade de assinalar na urbe os nossos valores culturais – coloquei o nome de Mily Possoz.

Pois bem, fi-lo, penso eu que com a maior pertinência. Reparem que, ontem mesmo, foi inaugurada, uma exposição de obras de Mily Possoz, na Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, ao Jardim das Amoreiras. [Então, é agora chegado o momento de dar uma ajudinha ao distraído pessoal do Roseiral…] Mily Possoz (1888-1967), companheira da grande aventura e desafios vividos pelos humoristas e independentes, foi uma irreverente pintora, de ascendência belga, que conquistou lugar de destaque no movimento modernista português.

Faço sinceros votos de que passem pelo museu das Amoreiras. Se aceitarem o meu repto, hão-de verificar como tão certos são os comentários que, acerca da sua obra, assinaram José Augusto França ou Rui Mário Gonçalves nos manuais, catálogos e documentos afins da Arte contemporânea. Se querem ter uma ideia do que foi o fauvismo português, indispensável se torna voltar a Possoz que é o seu nome mais representativo e importante.

Trata-se de uma artista que, tendo passado pela célebre escola de irreverentes que é a Académie de la Grande Chaumière, desenhou compulsivamente, com um espantoso sentido de humor, frescura, espontaneidade e grande originalidade. Como tantos outros artistas portugueses seus contemporâneos, aceitou a proposta do Arq. Cotinelli Telmo, Comissário da Exposição do Mundo Português, tendo colaborado com um biombo, de inspiração na tradição Namban, que, entretanto, se perdeu. Todavia, recentemente, foram encontrados esboços afins.

Muito mais poderia escrever sobre Possoz que, tendo residido em Sintra, muito pintou Sintra e aqui morreu, quase no fim da década de sessenta, na sua casa, muito perto da do seu bom amigo… Bartolomeu Cid dos Santos. Disse-me ele, várias vezes, que, ali, na Vila Velha, em termos de recuperação de casas com memórias, nada lhe daria mais alegria do que ver bem tratada a casa da Mily Possoz, casa onde, durante muitos anos, também viveu o pintor Eduardo Viana.

Já escrevi acerca desta vontade do Barto, do património desleixado, colado à memória de outra artista, que quase perdida está para estas paragens, tão madrastas, relativamente a quem tinha Sintra no coração, que a pintou de maneira tão interessante e original, como testemunha o quadro da Colecção do Palácio Foz que tem Sintra como título.

+ Sugestões

Primeiramente, esqueçam a vida cultural em Sintra. Salvo raríssimas excepções, não vale a pena agendar eventos. Se quiserem e puderem, não deixem de seguir o meu conselho. Vão até às Amoreiras. Percam-se por ali. Apesar da chuva, o jardim, mesmo junto da Mãe d' Água, é um must em Lisboa. Sei do que falo e escrevo. Nasci mesmo em frente, na Rua das Amoreiras, em casa dos meus avós maternos, num tempo em que ainda se nascia em casa, e as casas eram grandes, belas, com enorme pé direito e até tinham um estupendo sótão para as fantasias dos infantes…

Infelizmente, devido ao adiantado da hora, poucos serão os que ainda aceitariam outra sugestão, para o fim do dia de hoje. Lembram-se de vos ter escrito que está patente uma exposição de obras do Bartolomeu* no Centro de Arte Manuel de Brito, Palácio Anjos em Algés, iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras?**

Pois, às 21,30, acontece o primeiro de um ciclo de nove concertos de música de câmara, comentados pelo compositor Alexandre Delgado. O ciclo abre com a actuação do Quarteto com Piano de Moscovo, grupo que comemora em 2010 os seus vinte anos de existência, num programa que reúne uma obra russa, uma obra portuguesa e o primeiro dos dois quartetos com piano de Schumann, uma bela obra de juventude do compositor, só editada recentemente.

Eu não vou perder o excelente programa do qual consta o Quarteto com Piano em mi maior, op. 20 de Serguei Taneiev, Canteto, de Alexandre Delgado e Quarteto com Piano [n.º 1] em dó menor de Robert Schumann.


Já sei que terei um belíssimo serão musical e, ainda, mais uma vez, a possibilidade de ver trabalhos de Barto, de recordar o nosso convívio, amizade e melomania patológica… Depois, se Deus Nosso Senhor quiser, no regresso a casa, e já em Sintra, continuarei a noite, com outras músicas, na companhia de um Collares, como sempre faço, em sua memória.

_______________________________

*vd. Bartolomeu, que saudades!..., neste mesmo blogue, há uns dias atrás;

**CAMB I Centro de Arte Manuel de Brito
Palácio Anjos, Alameda Hermano Patrone,1495-064 Algés
Telf : 21 4111400
camb@cm-oeiras.pt http://camb.cm-oeiras.pt




5 comentários:

Anónimo disse...

Colega João Cachado,
Totalmente de acordo. Você dá voz às nossas razões de queixa. Sintra é um deserto cultural. Tenho acompanhado a sua "luta" pela homenagem ao Bartolomeu Cid dos Santos e as comparações que faz com Cascais. Não tem nada a ver, porque lá é a cultura em todas as formas e aqui o futebol, como diz o colega muito bem.
Também conheci o Bartolomeu mas mais em Tavira onde a minha família tem casa e ele parava e estava muito. Como sabe, sou professora de desenho. Através do seu blogue acabei de saber da expo de Mily Possoz. Vou lá hoje à tarde e farei os possíveis por lá levar alunos meus. Ela foi (é...) uma grande artista mas está esquecida como muito acontece em geral, por todo o país, não só em Sintra. Estamos num país em que os políticos são muito ignorantes. Muito obrigado por dispor para toda a gente da sua grande informação cultural e por todo o seu trabalho a favor de Sintra.
Abraço amigo

Graça

Rosa Aquiles disse...

Nesta terra até o Festival de Sintra é uma sombra do que foi há uns anos. A vida cultural em Sintra é zero e em proporção com as homenagens que aqui se refere. De facto o que vale é que Cascais é muito perto.
Rosa Aquiles

Anónimo disse...

O problema de Sintra está nestes dois pólos: os que acham que "Cultura" é a reverência pimba a actores de telenovelas, futebolistas ou marchands de bugigangas; e aqueloutros que acham que "Cultura" é uma coisa elitista, ensimesmada, fechada, destinada a uma casta de "eleitos" e de "conhecedores" que tremem com a aproximação do "povo" e reverenciam Cascais como a "Meca" dos chás de jasmim, das tias empertigadas e dos tios presumidos. Entre e uns e outros, venha o Diabo e escolha... Pobre Sintra!

Simplesmente Saloio

João Cachado disse...

Só mais uma achega ao comentário precedente.

Na verdade, Cascais não é Meca de coisa alguma e muito menos de qualquer elite cultural.

Em Portugal, Cascais apenas passa ou funciona como paradigma de autarquia com uma programação e oferta cultural que faz inveja a Sintra e à grande maioria dos concelhos.

Num país onde a ignorância é rainha e em que o cidadão comum tem baixíssimos consumos culturais, se comparados com a média europeia, Cascais [At. não me refiro aos cidadãos de Cascais mas à terra], embora muito interessante como caso quase único, também não passa disso.

A elite é outra coisa. Casta de eleitos é alguma coisa que não é. Pretende, isso sim, entender as coisas, ser lúcida. O povo é uma entidade extremamente difusa, um dos maiores desafios para a elite. Por isso, não raro, é povo e/ou mistura-se com o povo, burrifando-se para todos os Cascais, para os seus chás de jasmim e para todos os clichés semelhantes.

Virá a propósito lembrar que a verdadeira elite não se adjectiva, pelo que não é cultural, não é endinheirada, não é aristocrática (senão no sentido etimológico de «áristos» (gr. excelente, o melhor, o mais valente, o mais nobre)... É, de facto, coisa diversa, resultado e fruto dos sofisticados filtros da vida, que estão na origem de raríssimos homens e mulheres, tantas vezes anónimos, quase sempre discretos.

O que mais para aí se confunde com elite, não passa de um certo tipo de efémera notoriedade (isso sim, de carácter cultural, social, etc) que 'transita' até...ao momento da verdade, em que tudo se joga, isto é, ou numa grande provação que resulta em queda abrupta, ou com a aproximação do fim. 'Sic transit gloria mundi', eis a frase retirada da "Imitação de Cristo", obra anónima ou, segundo alguns, atribuível a Thomas de Kempis, com que, não poderia terminar mais a propósito.

João Cachado

Fernando Castelo disse...

Meu caro João Cachado,

Para ajudar à avaliação do salto negativo de que a população sintrense foi vítima, permita que recomende a leitura atenta do Estudo elaborado pela Universidade da Beira Interior-Observatório para o Desenvolvimento Social (posso enviar um exemplar a quem esteja interessado).

No Estudo, foram considerados dados MATERIAIS: Equipamentos de Comunicação, Culturais, de Saúde, Educativos,Infra-Estruturas Básicas; SOCIAIS: Cultura e Lazer, População, Saúde, Segurança e Ambiente; ECONÓMICAS: Dinamismo Económico, Mercado de Habitação, Mercado de Trabalho e Rendimento/Consumo.

Com estes dados, no "Ranking Global" dos concelhos portugueses, Sintra baixou de um honroso 5º lugar para ... 42º, enquanto Cascais manteve o 7º. lugar.

O que se diga em contrário não passará de música barata, para ilusão de incautos.

É óbvio que devem existir muitas preocupações com o estado a que chegámos e, com tantos milhões de empréstimos para constrair, como irá ser o nosso futuro.

Para mais, até é intrigante como forças políticas que, em campanhas eleitorais, tantos "projectos" agressivos apresentam...se tornam dóceis e silenciosas.