[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sintra, um polémico percurso

Da Alfredo da Costa…



O Casal de São Domingos é um edifício com uma certa dignidade que, a escassos metros dos Paços do Concelho, há muitos anos se degrada. Cada dia que passa, o Casal de São Domingos é um vómito e um grito. Vomita o lixo que se acumula na escada e grita o desleixo da autarquia, bem patente naqueles remendos de plástico azul aplicados no deslavadíssimo verde do portão, no painel lateral, que tem sido descaradamente roubado ao longo do tempo, e na sujidade acumulada sobre as cantarias enegrecidas.

Em plena Rua Dr. Alfredo da Costa – artéria sobrecarregada com edifícios descuidados que tive oportunidade de denunciar, há já uns anos, durante quatro edições seguidas do saudoso Jornal de Sintra (1), denúncia acompanhada de elucidativa ilustração fotográfica – o Casal de São Domingos volta hoje aqui à baila.

Desde já, cumpre esclarecer que, desta vez, não aparece como prolongamento do número zero do passatempo “Dedicação” entre aspas (2). Também não por se tratar de um caso excepcional da cultura do desleixo da Câmara Municipal de Sintra, uma vez que se multiplicam os exemplos, precisamente na mesma zona da Estefânea, aqui na freguesia de Santa Maria e São Miguel, onde a subida dedicação dos autarcas presidentes da Junta e da Câmara é nisto que dá.

…à esquecida Ribafria

O Casal de São Domingos, na economia deste texto, apenas funcionou como pretexto ou, se preferirem, como pontapé de saída, enfim, na terminologia futebolística, tão cara e, manifestamente, mais acessível a certas figuras locais que tanto se têm notabilizado nesse domínio. O pretexto é lembrar um outro exemplar de património municipal, muito mais importante, que, na minha modesta opinião, se não está tão abandonado, pelo menos, permanece muito aquém das suas potencialidades de aproveitamento.

Refiro-me à esquecida Quinta de Ribafria, um dos mais interessantes valores do nosso acervo de edifícios históricos que, entre Lourel e Cabriz, tão arredada tem permanecido, esquecida das preocupações dos responsáveis, a ponto de se desconhecer o que por lá acontece. De vez em quando, sabe-se de umas filmagens, de umas fugazes intenções de concretizar algum projecto, mas nada de palpável.

Houve notícia de que poderia ter constituído hipótese de ali sediar a Fundação Champalimaud. Uma jóia do património municipal esteve para voltar a mãos privadas mas, entretanto, Leonor Beleza acabou por preferir o ar do mar… Foi decisão bem avisada a dela já que, cá por Sintra, as neblinas matinais não parecem particularmente propícias. Depois de outra Fundação, a Friedrich Naumann, ali ter trabalhado durante anos, nunca mais o lugar esteve afecto a algo de permanente e definitivo.

Consultei várias pessoas que não puderam adiantar qualquer informação mais substantiva porque, efectivamente, se desconhece quais as intenções da Câmara Municipal de Sintra relativamente a uma digna, pertinente e atinente utilização da Quinta e do Palácio, pólo de invejável e indiscutível mais-valia que, manifestamente, o município não tem sabido explorar. Lamentável? Talvez. Para mim, é Sintra e está tudo dito!

…até à Quinta do Relógio

Tudo, não. De facto, há algo a acrescentar. Este caso da Ribafria vem a propósito porque, neste momento de tão significativas crises nacional e internacional, a autarquia, que não sabe o que fazer com ela, se permite vir solicitar aos munícipes mais de seis milhões de euros, com o objectivo de adquirir outro elemento do património sintrense, a saber, a Quinta do Relógio, desconhecendo-se ainda o montante a afectar para obras subsequentes. (3)

Tanto quanto se conhece, por exemplo, através de informação veiculada por Miguel Geraldes (4), o edifício está em obras, pelo menos, há nove anos, com o interior totalmente desvirtuado da sua forma original. Actualmente, existem dois novos pisos abaixo do nível da quota soleira, porque os actuais proprietários pretenderiam construir uma garagem. E, hoje em dia, as obras ainda estão muito longe do termo.

Quem terá sido o historiador de serviço que produziu a memória histórica descritiva apensa à proposta que a CMS apresentou, ocultando o descalabro da situação actual do edifício principal? O que levará a Câmara Municipal de Sintra a pretender acrescentar um tal património, nestas precárias condições, na ausência de um plano credível de utilização futura do imóvel?


Porque insistirá ser parte num negócio tão avultado, assim impedindo que o mercado continue a funcionar, com as suas regras de oferta e procura? Porquê? Que urgência é esta de, tão manifestamente, assim comprometer a capacidade de endividamento da Câmara? Só porque, na sequência de um divórcio, o proprietário da Quinta do Relógio está interessado em desfazer-se de um bem dificílimo de transaccionar?

Sem respostas

Como se sabe, o dinheiro é um bem cada vez mais escasso e precioso. Penso que o pedido dos milhões que a Câmara Municipal de Sintra apresentou aos munícipes, para esta aquisição tão controversa e polémica, é de um atrevimento tanto mais patente quanto, noutros domínios, afins do turismo, precisa de concretizar urgentíssimas e avultadas obras que tem sido incapaz de promover ao longo de mandatos estéreis e improdutivos.

Mais uma vez, lembro o crítico e famigerado caso do estacionamento. Porque continuam os munícipes em constante e manifesta perda de qualidade de vida, por exemplo, com a sede do concelho e o centro histórico transformados em locais perfeitamente comprometidos, armadilhados e inseguros, impossíveis de descansada visita? Porque não investe a Câmara Municipal de Sintra os milhões necessários na construção dos indispensáveis, expeditos e civilizados parques periféricos?

Como se permite este executivo municipal dar-se ao luxo de adiar e não se implicar na resolução da recuperação do centro histórico, na reconstrução de muros, valas, valetas, sarjetas e saneamento básico, estradas e lindíssimos mas abandonados e degradados caminhos nas três freguesias da sede do concelho?


E, estando preocupado com a promoção das pernoitas, porque não se implica, a sério e não atirando com foguetes pífios para o ar, na reabilitação de uma unidade hoteleira como o Netto, fazendo valer a sua capacidade de negociação junto de grupos económicos? Porque insiste em álibis, como este da Quinta do Relógio, que não levam a lado algum? Ou levarão? Talvez a algum escuso beco…

_________________________


(1) Quem cala..., Jornal de Sintra, 13, 20 ,27 de Janeiro e 3 de Fevereiro de 2006;
(2) sintradoavesso, 01.04.10;
(3) sintradoavesso, 14.01.10 (I);
(4) sintradoavesso, 14.01.10
(II).




9 comentários:

carol disse...

Que bom que é revisitar (apesar de ser pelos piores motivos) todos esses lugares maravilhosos onde passei parte da minha infância e toda a adolescência e juventude até ao casamento! Que saudades me faz ler sobre todos esse lugares que tão bem conheci e que agora, pelo que deixa escrito, estão degradadíssimos e quase em ruínas! Ainda bem que há quem denuncie! Oxalá consiga alguma coisa com estes seus textos quase zangados! O que não será fácil dada a inércia dos nossos autarcas e dos nossos governantes em geral que se interessam é pelo que lhes dê dinheiro e por... futebol!
Uma sugestão de uma "Sintrense" de coração e de cá de longe: ponha fotografias! Tem (ainda) mais impacto.

Anónimo disse...

Concordo com Carol ponha fotografias e já agora que se saiba quem foram os partidos políticos que possibilitaram a compra da Quinta do Relógio (se não me engano PS e BE votaram contra e PSD e PCP!!!! votaram a favor, bem o PCP desceu muito na minha consideração).
Este seu texto é incrivelmente importante e incrivelmente pertinente. NOS DIAS DE HOJE!! Realmente a C.M.S. tem de explicar as razões, os planos e a previsão de quanto, ainda, vão custar as obras.
Porque não deixar um particular desenvolver aí um projecto como por exemplo o Lawrence's Hotel?
Que tal primeiro cuidarem do que já possuem e só depois encarar projectos como o da Quinta do Relógio.
E de uma vez por todas resolvam o problema do estacionamento FORA DA VILA. Invistam em pequenos autocarros com carreiras regulares, como por exemplo a nova carreira que vai até ao Jardim de Monserrate. Repitam mais carreiras deste género com preços mais acessíveis e limitem mais o estacionamento no Centro Histórico e abram mais estacionamento com parques periféricos. Vejam exemplos em Évora, em Cascais, etc, etc...

João Cachado disse...

A Carol, que tem a minha idade, conheceu e viveu uma Sintra que não existe mais. Desgraçadamente, não existe mais. E poderia existir, assim houvesse e tivesse havido a competência bastante, por parte de sucessivos executivos autárquicos, no sentido de a manter e melhorar, como, aliás, acontece em tantos lugares, mesmo a nível nacional.

De facto, num tão privilegiado lugar como Sintra é, sempre se suporia que as coisas mudassem mas, meu Deua!, sempre para melhor. Aqui, não. A incúria de dezenas de anos teve como consequência o descalabro que está bem à vista de quem insiste visitar esta terra, não apressada mas detidamente e a pé, pois claro.

Só há uma entidade que, em sintra, administrada por equipa de gente à altura do desafio, liderada por um homem culto e informado - o Prof. António Ressano Garcia Lamas - a empresa de capitais públicos Parques de Sintra Monte da Lua, é digna herdeira de um passado que soube enobrecer e transmitir um património inigualável. A PSML é responsável, entre outros, pelo Palácio e Parque da Pena, Palácio e Parque de Monserrate, Convento dos Capuchos, Castelo dos Mouros e toda uma vasta área de floresta que, globalmente,tem sido administrar, dirigir e gerir (que, como sabe, são coisas diferentes).

Só pela PSML, podemos - pode a Carol - estar descansada. No que ao resto respeita, é um pavor a degradação que por aí vai nas três freguesias da sede do concelho onde estão as jóias da coroa. É como a Carol escreve, ou seja, muito futebol...

Um abraço

João Cachado

João Cachado disse...

Apenas a rectificar, respectivamente, nos segundo e penúltimo parágrafo da minha resposta ao comentário de Carol:

- "(...) meus Deus!(...);
- "(...) globalmente, tem sabido(...)".

Muito obrigado,

João Cachado

carol disse...

Muito obrigada, caro João Cachado, pelo seu texto e por se ter dado ao trabalho de me responder. Que pena me fazem algumas coisas que diz! Realmente, quando vou a Sintra e vejo muitas das belíssimas casas apalaçadas degradadas, abandonadas, sem que haja quem chame os proprietários às suas responsabilidades, sinto uma grande tristeza. Ver, por exemplo, a Casa dos Penedos e a anexa casa onde foi, durante muitos anos, a Escola de Santa Maria (onde vivi algum tempo) absolutamente dada ao abandono e muitas outras que não só esta, dá-me uma imensa tristeza. Claro que não é fácil tomar conta de tudo num concelho tão vasto e tão populacional como é esse, mas não malbaratar algumas verbas de vulto que lhes chegam às mão http talvez já fosse uma boa ajuda.
Obrigada por me ter falado da Parques de Sintra Monte da Lua. Já, de alguma forma, tinha conhecimento. Fui, há unas anos,com alunos, visitar os Capuchos e fiquei encantada porque, de facto, nada tem com os Capuchos que eu conheci nos inícios de 60.
Continue com a sua luta e bem haja. Há vozes que não se podem calar.
Um abraço.

Ricardo Duarte disse...

Caro Prof João Cachado,

Na esperança que este seu blogue seja visitado por responsáveis da governação da nossa terra, gostaria hoje de o utilizar para deixar uma questão no ar bem ao estilo de “carta aberta” ou “queixa contra desconhecidos”.

Ao caminhar por diversas artérias de Sintra, reparei que vários domicílios ostentam na sua entrada uma placa negra com as inscrições “Sintra Inn – membro associado – Sintra Capital do Romantismo”. Sem conhecer do que se tratava, deduzi o que seria este “projecto”: uma rede de locais de hospedagem (ou pelo menos, com a intenção de o serem) organizada pela Câmara.

Uma busca na internet confirmou as minhas deduções. Sob a parvoíce do slogan da Capital do Romantismo lá se encontra a tal rede de estabelecimentos propostos a alojar visitantes. O mais surreal é que qualquer visitante que tenha a infelicidade de fazer uma busca nesse site encontrará lá todos, mas mesmos TODOS os tipos de alojamento possíveis e imaginários e nos locais mais descabidos também.

Daqui resulta então a minha pergunta (na verdade são duas):

Com que linha orientadora, com que ideal, se concebe uma rede de alojamentos num lugar de características turísticas como Sintra, e que tipo de fiscalização existe para verificar os serviços de hospedagem mesmo mínimos que sejam dos estabelecimentos que se propõem a tal?

Já não bastará a ofensa que um visitante sofrerá durante o dia se visitar Sintra com os olhos bem abertos para depois há noite poder ainda ter que pernoitar num antro qualquer?

Ficam então as perguntas no ar.

Ricardo Duarte

Teresa Alves disse...

A intenção da compra da Quinta do Relógio teve a "cobertura" da CDU. É uma vergonha o que acontece em Sintra com a CDU a servir de apoio à coligação no poder. A verdade é esta: O PS consegue demarcar-se e votar contra enquanto à sua direita e à sua esquerda se fafem arranjinhos que não são inesperados porque se sabe dos compromissos...
Teresa Alves

Anónimo disse...

O PCP tem destas coisas. Para se aguentar nos SMAS, faz uns jeitos em certos negócios. Cada um tem as contrapartidas que pode.
Carmo

Anónimo disse...

O engº Baptista Alves (CDU) de comunista nada lhe resta!!! Passou a benfiquista, porque também é vermelho e dá mais tacho!!! Para além do SMAS é vogal no conselho de administração da fundação culturasintra que gere a Regaleira, sei que por lá atenta-se ferozmente contra os direitos dos trabalhadores, violando-se leis elementares do código de trabalho!!! E o que faz o representante dos oprimidos em Sintra??? Nada!!! Não comparece ás reuniões para depois hipocritamente sacudir do capote!!! Realmente o nome deste blog faz todo o sentido, Sintra está mesmo do avesso!!!
Zé Saloio mas não parvo