[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 7 de setembro de 2011


Padre Manuel Antunes,
o portento


No passado domingo, na última edição do programa Ponto Contraponto, do canal televisivo Sic Notícias, José Pacheco Pereira chamou a atenção para um curso, sobre a Grécia Antiga, ministrado pelo historiador americano, Prof. Donald Kagan, da Universidade de Yale. E, para o efeito, passou um excerto da aula de introdução em que o académico fala sobre os motivos pelos quais é suposto que o cidadão comum se interesse pelos antigos gregos, não só em função dos imensos contributos para a Civilização Ocidental, por exemplo, no domínio da Ciência, Direito e Política, mas também devido à sua concepção única da Humanidade.

Adiantou mais uma ou outra generalidade e, santo Deus, tudo aquilo me soube imenso a muito pouco… Imediatamente, a minha mulher, que comigo assistia, me tirou da boca as palavras que eu estava prestes a dizer: ”Coitado do Pacheco Pereira, não teve a nossa sorte…” Lembrava as «nossas» aulas de História da Cultura Clássica, em 1965, na Faculdade de Letras de Lisboa, comparando com aquela amostra da prestação de Kagan. Que diferença entre estas quase banalidades do professor americano e o rigor, a profundidade científica das extraordinárias lições do Padre Manuel Antunes!

Felizmente há centenas de jovens da nossa geração, muitos e conhecidos intelectuais, artistas e homens de letras, tal como nós, também seus antigos alunos, que podem e têm dado testemunho inequívoco do altíssimo gabarito de Manuel Antunes, por muitos considerado o maior erudito e intelectual português do século vinte. Assim sendo, se a minha opinião por alguma coisa peca, é por manifesto defeito.

Bem imagino que opinião seria a do exigentíssimo Manuel Antunes acerca da wikipedia, essa bíblia da informação mastigada, qual espécie de Reader’s Digest... No entanto, sabendo que a maioria dos leitores não dispensa este fácil recurso, cometo o sacrilégio de aconselhar a consulta. Lá irão encontrar dois curiosos depoimentos de dois queridos e saudosos companheiros, Eduardo Prado Coelho e João Bénard da Costa, que vale a pena ter em consideração acerca da personalidade de Manuel Antunes.

Permitir-me-ia deixar um conselho a José Pacheco Pereira e a quem estiver interessado no estudo da herança grega, em particular, e dos clássicos, em geral. A Fundação Calouste Gulbenkian (Serviço de Educação e Bolsas) publica a Obra Completa do Padre Manuel Antunes. No Tomo I, Volume II, Parte I, pode aceder-se à famosa Sebenta da História da Cultura Clássica, numa Edição Crítica extremamente escrupulosa cuja coordenação científica foi confiada ao Prof. Doutor Arnaldo Espírito Santo.

Trata-se de obra absolutamente fundamental, lições de uma Academia que só está acessível por esta via, em que cada página é o deslumbramento perante a concretizada ideia de que o conhecimento é o maior bem. Se quiserem acreditar na humilde opinião de um aluno, eternamente grato pelo privilégio que foi o seu, pois fiquem com a certeza de Manuel Antunes ser o paradigma do professor que, constantemente, desafia os talentos de cada um, arruma, sistematiza conceitos, para abrir todas as portas possíveis. Um espanto, uma surpresa, ainda hoje, quase cinquenta anos depois…

Finalmente, ainda mais uma nota que não deixa de ser outro conselho. Interessem-se pelas actividades do Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes. Verão como tenho razão em vo-lo aconselhar.


4 comentários:

Dina Baltazar disse...

Caro Professor
O meu comentário remete para a frase que tem no início do seu blog,ou seja esta:[sempre de acordo com a antiga ortografia]
Ora bem. Esta espécie de aviso que vejo repetido em muitos jornais e outros meios de comunicação, não me parece correcto. Verifica-se que ao introduzi-la existe à priori uma aceitação de um "acordo moderno" a circular e traz implícito a de que a ortografia ainda em uso é já antiga e como tal deve ser substituída.
Como sabemos as palavras têm muita força e influenciam o inconsciente.

Cumprimentos da Dina Baltazar
(sua aluna da E.P.R.P no ano II dessa escola)
PS- Enviei-lhe mensagem para o Facebook. Mas como não responde, penso que, ou não viu ou não tem interesse.
Acontece.

João Cachado disse...

Minha Cara Dina Baltazar,

Não se precipite. Tenho o maior prazer [não, não é rectórica...] em ter notícias suas. Dê-me até à próxima semana para lhe responder convenientemente. Estou fora e com pouquíssimo tempo para dedicar à actualização destas páginas. Mas, acredite, vou voltar ao seu contacto para pormos a escrita em dia. Já vi e publiquei o seu comentário ao meu texto sobre o Prof. Manuel Antunes. A propósito do Acordo Ortográfico, remeto-a para um texto que pode consultar no arquivo do blogue, bastando digitalizar 'acordo ortográfico' no canto superior esquerdo do painel. Esse texto teve a honra de ser publicado no blogue do exigentíssimo Pedro Tamen que, como sabe, é um bom poeta e distinto cultor da Língua Portuguesa. Até breve, um abraço com muitas saudades

[msg transcrita do fb]

Fernando Lemos disse...

Amigo João
O Padre Manuel Antunes era de uma exigência tremenda. Tinha razões para isso: quem se preparava como ele, só podia ser exigente com os alunos. Como deves saber há histórias muito interessantes acerca da sua exigência. Talvez pudesses contar uma ou outra. Abraço amigo, Fernando Lemos

Rui Castro disse...

Meu caro João Cachado,
Tiveste uma boa iniciativa. Para mim, é oportunidade para lembrar uma gente excepcional que nos formou e marcou para sempre.
O nosso tempo de faculdade foi um espanto quanto a professores. Em pleno fascismo, Manuel Antunes Lindley Cintra, Vitorino Nemésio, Jacinto Prado Coelho, Borges Macedo, Virgínia Rau, Orlando Ribeiro, Rosenthal, Fernando M.Moser, D. Fernando de Almeida, Manuel Viegas Guerreiro, David >Mourão Ferreira, Monteiro Grilo, etc. Espero voltar a ver-te, já a partir do dia 17 na Gulbenkian, grande abraço, Rui L. Castro