[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 29 de junho de 2009



Recomendação
de alto nível

Na contracapa do Expresso do passado sábado, apareceu a confirmação pública daquilo que já toda a gente sabia, ou seja, a certeza de que, nas próximas eleições autárquicas, o Prof. Fernando Seara se recandidata à presidência da Câmara Municipal de Sintra.

Num momento em que, ao mais alto nível da São Caetano à Lapa, se conjuga o verbo rasgar em toda a sua exuberância, bom seria que o ainda presidente e futuro candidato aproveitasse a onda para dar a entender ao eleitorado local que práticas pretende rasgar do actual e precedente mandatos.

Tão somente para o caso de alguma dificuldade inicial, quanto ao levantamento das atitudes menos condicentes com as reais necessidades dos munícipes, lembrar-lhe-ia o conselho da própria Dra. Manuela Ferreira Leite, ao dar o mote para as campanhas de todos os candidatos do seu partido, exigindo-lhes que não façam promessas cujo cumprimento lhes seja impossível.


Atenção:

Podem os leitores continuar a comentar a actual edição do Festival de Sintra no sintradoavesso. Basta aceder ao texto Revisão da matéria publicado no dia 18 do corrente.





sexta-feira, 26 de junho de 2009

Atenção:

Os leitores podem continuar os seus comentários ao Festival de Sintra. Basta aceder ao texto Revisão da matéria publicado no dia 18 do corrente.

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Pobres bancos…*


Desde dia 18, passada quinta-feira, o conhecido terreiro da Praça D. Fernando II, onde se realiza a feira de São Pedro, ficou mais aliviado – deixem-me usar a expressão –não porque haja menor concentração de feirantes mas, muito simplesmente, como efeito da remoção e deslocação de quase todos os bancos de pedra que, em determinadas zonas, há tantos anos, faziam parte do mobiliário urbano do recinto.

Entretanto, como se depreende, o espaço não está mais descongestionado. Nesta altura, pelo contrário, é inacreditável e até eventualmente perigosa a compactação com que nos deparamos, sem lógica, à trouxe-mouxe. Qualquer leigo ficará de cabelos em pé perante a insegurança reinante. Aliás, como não ficar preocupado com tantos cabos eléctricos anarquicamente pelo ar e no pavimento, botijas de gás desprotegidas, num daqueles quadros de terceiro mundo em que Sintra costuma ser tão fértil?

Então, o que dizer daqueles bancos, deslocados ali para o meio da feira, ainda com as pedras da calçada agarradas aos pés? Como justificar o destempero? Na ausência de plausível explicação, tudo leva a crer que se deveu à necessidade de ganhar mais uns palmos de terreno, expeditamente e a qualquer preço, numa atitude que, em seu perfeito juízo, ninguém ousaria promover.

Ainda que se trate de um desacato com efeitos apenas temporários, o episódio é totalmente inadmissível em latitude civilizada. Para todos os efeitos, tanto os bancos como a própria Praça D. Fernando II, enquanto peças integrantes e indissociáveis do património de Sintra, não podem estar à mercê de tais atitudes que a empobrecem e descaracterizam.

Alegadamente, terá sido por indicação ou sob o beneplácito do Senhor Presidente da Junta de Freguesia de São Pedro, que a manobra se concretizou e, afinal, num espaço cuja posse está afecta à Câmara Municipal de Sintra que é suposto cuidar da sua preservação. Naturalmente, já ao corrente da situação, a edilidade há-de pronunciar-se rapidamente. Com natural expectativa e curiosidade, ficamos aguardando a decisão que suscitará tão exemplar caso de exorbitância de atribuições.

*publicado Jornal de Sintra 26.06.09




quinta-feira, 25 de junho de 2009



Doa a quem doer

Soube-se ontem que o Ministério Público já deduziu acusações contra Jardim Gonçalves, ex-Presidente do Conselho de Administração do BCP e mais quatro membros daquele órgão de gestão por crime de manipulação de mercado, falsificação de contabilidade e burla qualificada.

Lembro que, no dia 3 de Janeiro de 2008, a propósito do assunto, publiquei um texto neste mesmo blogue, do qual respigo as seguintes passagens:


“(…) Depois da distracção do Banco de Portugal e da CMVM, que parece só terem acordado da letargia quando os americanos começarem a meter a colherada no assunto, ainda não é previsível o desfecho do caso.

Para já, de uma vez por todas, caiu e se desfez o paradigma da competência imaculada dos administradores, gestores e directores do sector privado! (…) símbolo de uma filosofia da empresa, assumida à mistura com a diáfana imagem de impolutos patrões, muito católicos e respeitáveis (…)

A Joe Berardo, com todas as suas contradições, defeitos e virtudes, ficam a dever os portugueses a sistemática denúncia dos escabrosos negócios cuja existência, pelos vistos, não era desconhecida nos mentideiros frequentados pelas comadres antes da pública zanga. Sem a atitude do Comendador, servida pelo desabrido estilo do costume, até quando continuaria o farisaísmo do BCP a abotoar a conveniente capa de santidade? (…)”


Já naquela altura, o Banco de Portugal não saía nada bem da fotografia. Os accionistas do BCP tinham e têm toda a razão para a animosidade que demonstraram contra a alegada falta de capacidade dos supervisores. E, mais recentemente, tendo em conta o que se passou no BPN e BPP, não acham que o Senhor Governador do BP deveria assumir as falhas que, afinal, todo o mundo reconhece?

Não acham que nós, contribuintes, o remuneramos principescamente para que, de boamente, acolhamos o seu descaramento na confissão de que, provavelmente, terá havido ingenuidade dos serviços de inspecção? É que, salvo melhor opinião, vós e eu, que nada percebemos do assunto, até podemos ser ingénuos. Contudo, se pagamos a uma entidade para, com toda a competência, desenvolver um trabalho a contento, não podemos admitir que arvore a ingenuidade de uma indefesa virgem.

Que banqueiros e bancários prestem contas dos seus negócios, mais ou menos claros, mais ou menos escuros, é coisa que se saúda como prova do cuidado da comunidade, que não deixa passar em claro as manobras de certos habilidosos, venham eles ou não com capinha de santos. Todavia, tendo entrado numa atitude de pedir responsabilidades a quem prevaricou, então não deixemos que nos comam as papas na cabeça…



terça-feira, 23 de junho de 2009

Eléctrico em curto circuito,
mais uma achega


Aqui têm mais um texto do nosso amigo Fernando Castelo que, com a devida vénia, transferi da zona de comentários de ontem para esta primeira página.

Traz-nos, juntamente com a sua, uma série de memórias, um fabuloso património virtual que se cola ao outro, ao património visível. No caso vertente, devia andar estrada abaixo, estrada acima, alegremente, sobre carris devidamente cuidados e mantidos, para contentamento e benefício de gente que tem direito ao seu usufruto.

Enquanto os eleitos locais não souberem exercer a autoridade democrática que detêm, no sentido da defesa de um património tão expressivo como o Eléctrico de Sintra, apenas nos resta denunciar o facto e lamentar tanta incapacidade e incompetência.

"Meu caro João Cachado,

O meu amigo aborda desta vez um conjunto de sentimentos, pois o Eléctrico é um deles.

Quase ao colo do meu pai, como me deliciava ao apanhá-lo junto à estação dos "caminhos de ferro". Ainda há pouco tempo, em obras na Avenida Miguel Bombarda, lá estava o carril a desafiar-me às recordações.

Quando a recuperação das Linhas começou, para alegria de quantos por lá passassem, até sugeri algumas placas ao longo do trajecto, que poderiam ter alguma poesia. Sugeri isso e, para meu conforto, encarreguei-me de fazer uns pequenos poemas (maus, certamente) que devem ter ido ou directamente para uma gaveta ou para o lixo, pois a recepção nunca foi acusada, nem o destino dos mesmos.

Estive na re-inauguração do Eléctrico, naquele dia em que de novo pude ir até à Praia das Maçãs. Imaginarão, quantos me lerem, dos sentimentos em turbilhão que me invadiram e me levaram a voltar mais umas quantas vezes. Era o Eléctrico um dos pontos do figurino turístico de Sintra. Que alegre ilusão me foi criada, mas que rapidamente se desvaneceu, nesta Sintra que cada vez se sabe menos para onde caminha, mas que de lado bom tem pouco.

Em qualquer parte do mundo este trajecto e este meio de transporte seria das coisas mais fabulosas da visita. Falo do que sei. Aqui, já o meu amigo disse quase tudo. O ano passado, numa entrevista, ia durar só mais dois meses a recuperação, segundo foi dito por um autarca merecedor do maior crédito e que teve a coragem de dar a cara, na circunstância.

Falar em turismo para Sintra acaba por ser, infelizmente, uma quase aberração, já que este exemplo não é muito diferente de muitos outros. A vida tem destas coisas e desculpe-me o espaço do desabafo.
Fernando Castelo
22-06-2009 15:57"

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Eléctrico em curto circuito*

Há poucos dias, tentando ajudar um casal de alemães que pretendia ir de eléctrico até Colares – algo que lhes tinham dito ser possível – dirigi-me à Casa do Eléctrico. Infelizmente, conforme estava prevendo, ninguém soube esclarecer quanto à razão de apenas se chegar à Ribeira e, muito menos, quando seria reposta a normalidade.

De facto, não se entende como, actualmente, a Câmara Municipal de Sintra – que, desde 2002, assumiu a exploração da linha – apenas seja capaz de fazer circular o eléctrico, em curto circuito, entre Nunes Carvalho e a Ribeira. Impondo-se chamar as coisas pelos nomes, não há que hesitar.
Trata-se de um escândalo. É uma vergonha para Sintra.

Habituado que estou, nuns casos, a que ignorem as minhas palavras, e, noutros, a ser molestado por gente incapaz, nada me incomoda que, eventualmente, o responsável pelo despautério apareça por aí, com as esfarrapadas desculpas do costume, tentando iludir aquilo que não tem justificação possível. Por mais voltas que se dê, aí está mais um episódio de manifesta, desgraçada e pura cultura do desleixo.

E a verdade é apenas uma, ou seja, apesar da inequívoca facilidade dos meios a envolver para resolução da situação, nem uma dúzia de quilómetros de carris a Câmara de Sintra consegue garantir. A isto chegámos. O mais pitoresco e interessante meio de transporte de Sintra não circula – ou circula mas pouco!... – depois dos avultados investimentos dos munícipes, incluindo a compra e recuperação da Vila Alda.

Lembram-se de umas bocas acerca do prolongamento da linha do eléctrico, primeiramente, até à estação da CP e, depois, até à Vila Velha? Pois eu lembro-me muito bem. Foi mesmo uma promessa de alto nível. E, para que total fosse o engodo, até me mostraram fotografias virtuais do eléctrico atravessando a Heliodoro Salgado.

Em véspera de eleições locais, acautelem-se com a possibilidade do embarque numa destas manigâncias. É que, quando lhes dá para se candidatarem, há por aí uns turistas habilíssimos em cantos de sereia…

*Jornal de Sintra, 19.06.09

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Revisão da matéria



Ainda hoje mesmo, o texto A Favela, datado de 5 do corrente, continua a suscitar o interesse e longos comentários de leitores, em especial da Freguesia de São Pedro, que aproveitaram a circunstância da publicação, para se pronunciarem, não só especificamente acerca do caso, mas também sobre questões com ele telacionadas.


Também o ciclo de artigos dedicados ao Festival de Sintra, nomeadamente, os referentes aos dias 1,9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16 e 17 de Junho, desencadearam uma série de reacções que, sinceramente, não esperava se manifestasse com tanta vivacidade.


Nestes termos, uma vez que, só na próxima segunda-feira, dia 22, o sintradoavesso voltará a propor outro assunto, muito gostaria de, novamente, chamar a atenção de todos, tanto para os referidos textos como para os comentários decorrentes. Enfim, eis o convite à revisão da matéria dada...



quarta-feira, 17 de junho de 2009

[Ainda a propósito do Festival de Sintra, 2009]


Alcobaça, a Festa da Música

No momento em que ainda decorre a actual edição do Festival de Sintra cuja estrutura, pelo menos nas páginas do sintradoavesso, tem merecido a série de negativas críticas que alguns leitores não quiseram deixar de expressar, é com o maior prazer que gostaria de destacar o que, muito perto de nós, na vizinha zona do Oeste, está a acontecer em termos de uma proposta musical que, não tenho a menor dúvida, constitui algo do que de melhor se está a fazer em Portugal.

“(…) a décima sétima edição do Cistermúsica dedica a maior parte da programação ao universo da fascinante e inesgotável da música de câmara. Numa parceria que se quer estruturante para o futuro do festival e da música no concelho de Alcobaça, as mais variadas vertentes da música de câmara são exploradas em nove de um total de doze concertos, percorrendo seis freguesias e algumas das mais belas igrejas do concelho, com uma programação que valeu ao Cistermúsica ser classificado em primeiro lugar no concurso do Ministério da Cultura para apoios plurianuais (…)”

Estas são as palavras iniciais de Alexandre Delgado, compositor, violetista, musicólogo e director do Cistermúsica, Festival de Alcobaça, no texto de apresentação da edição deste ano e que, muito sintética mas liminarmente, sem margem para dúvidas, definem e caracterizam a identidade e a individualidade desta excepcional iniciativa cultural. Nas últimas semanas, como tenho tido o privilégio de acompanhar o Festival em questão, poderei confirmar como estes objectivos foram alcançados.

Com rara eficiência, o Cistermúsica, para além de ter comemorado as grandes efemérides musicais deste ano, relativas a Haydn, Mendelssohn e Händel, articulou as suas propostas, estritamente no domínio da música, com as de um ciclo de cinema que observou sofisticado programa, soube dar espaço digno ao interesse das crianças – ou não fosse Alexandre Delgado também um grande pedagogo – envolveu agrupamentos nacionais e estrangeiros de alto gabarito, acolheu propostas de música contemporânea, encomendou novas obras e vai rematar, no próximo domingo, com um concerto pelo galáctico Jordi Savall.

É obra, terão de admitir mesmo os mais cépticos. É obra, digo e escrevo eu. Mas não surpreende. Nada acontece por acaso. Em Alcobaça, o Presidente da Câmara é o Dr. Gonçalves Sapinho, homem desde sempre ligado à Educação e à Cultura. Em Alcobaça, houve quem soubesse confiar a direcção do Festival a Alexandre Delgado que passou a responsabilizar-se por um das mais sérias iniciativas culturais dos últimos anos em Portugal. Eu não dispenso. Lá estarei, no próximo domingo, na nave central do mosteiro. Façam como eu, ainda estão a tempo.*

E, quanto a Sintra, não se demitam, continuem a expressar a vossa opinião, a exemplo do que tem acontecido, nos últimos dias, neste blogue. Tenho esperança de que melhores dias virão para recuperação daquilo que se perdeu recentemente. Como acabam de verificar, se até mesmo o proverbialmente distraído Ministério da Cultura, quando colocado perante a excelência de uma proposta, como a de Alcobaça, é capaz de lhe conferir um primeiro prémio, destacando o paradigma de competência, porque não lutar no sentido de que algo semelhante volte a acontecer por estas bandas?

*www.cistermusica.com


terça-feira, 16 de junho de 2009


Festival de Sintra 2009,
Vengerov maestro, um equívoco

(conclusão)


Já quanto ao Concerto para Violino e Orquestra no. 3, em Sol Maior, K.216 de W. A. Mozart, o que dizer daquela direcção? Pois, nada clássica, pois nada contida, no apolíneo registo que solicitava uma obra tão carregada de lirismo e liberdade de forma, em que o rondo final inclui episódios nitidamente contrastantes com o tema principal.

Como tantas vezes acontece, por parte de maestros sem grandes exigências, Vengerov imprimiu uma interpretação romântica da peça deste seu mal entendido Mozart, facto que nada abona a favor do maestro de serviço. Não diria que esteve mal a articulação entre orquestra e solista mas, na verdade, menos bem o exagerado volume de som que solicitou.

Otto Pereira é um jovem violinista, que, desde o ano passado, passou a integrar o naipe dos doze segundos violinos da orquestra Gulbenkian. É um rapaz dotado, com bastante sensibilidade, já senhor de segura técnica. No entanto, no que a Mozart concerne, bom será que esteja atento à linguagem e aos especiais acertos que pedem as obras deste compositor. Mais uma vez volto a Vengerov, cuja direcção, sem ser desastrada, contudo, acabaria prejudicando Otto Pereira por não suscitar a tal mozartiana interpretação – deixem passar o enfático pleonasmo – que a peça exige do solista.

Enfim, um concerto vulgaríssimo, absolutamente banal. Todavia, um evento muito especial dada a concentração de equívocos, que não podia ser mais desafiante. Por isso, decidi dar um ar da minha graça, quebrando o silêncio que me tinha imposto. É um facto, não resisti e, por isso, assumo a contradição em que caí quando anunciei que me manteria em silêncio. De qualquer modo, também penso que terei feito bem não calando o que me parece óbvio dever partilhar.

Relativamente ao público, claro está que, pouco exigente e ainda menos conhecedor, aplaudiu muito. Não percebeu nada do que ali aconteceu. Pelo simples facto de entrar num auditório, para assistir a um concerto de música erudita, muita gente se sente obrigada ao aplauso final. E, como a ignorância não conhece fronteiras, era ver quem menos acertava.


PS:
Entretanto, à saída do concerto, confirmava-se, muito menos prenhe de equívocos, o resultado das eleições, ditando uma claríssima chamada de atenção ao governo da nação. Tal como acabara de acontecer lá dentro, no auditório Jorge Sampaio, também cá fora, o maestro não está à altura de fazer a leitura mais acertada da partitura


segunda-feira, 15 de junho de 2009


Festival de Sintra 2009,
Vengerov maestro, um equívoco

Terminou, há poucos dias, a temporada de música da Fundação Calouste Gulbenkian 2008/2009 que, entre Outubro e Junho, proporcionou cerca de oitenta concertos e recitais, entre os quais trinta com a orquestra da casa. Assinante que sou de todos os ciclos – orquestra e coro, canto, piano, música de câmara, música antiga, grandes orquestras, etc – assisti a todos os espectáculos, exceptuando um ou outro caso, devido a ausência em festivais no estrangeiro. Portanto, não tenho qualquer deficit de frequência, relativamente à Orquestra Gulbenkian que me levasse a procurar o concerto do Festival de Sintra, no passado dia 7.

Aliás, gostaria de começar por referir que, em Portugal, não há mesmo orquestra que eu melhor conheça do que a da Fundação Gulbenkian. Se, de facto, em criança, no meu caso pessoal, era a da Emissora Nacional que levava a palma, o panorama mudou quando, teria eu os meus quatorze anos, portanto, no início dos anos sessenta, nasceu a outra orquestra, primeiramente, como agrupamento de câmara, para crescer e se impor nos meios musical e cultural português, já em plena década de setenta.

Bem poderei escrever que me tornei adulto ao lado desta formação musical. Passados quase cinquenta anos, ao longo de décadas de cumplicidade, vou envelhecendo com alguns dos músicos que a constituem, sendo o caso do contrabaixista Alejandro Erlich-Oliva o que tenho mais presente. As suas e as minhas barbas têm encanecido à medida que vou acompanhando o trabalho de uma orquestra que produz imenso e, invariavelmente, com enorme qualidade.

Tenho a felicidade e o privilégio de poder dizer que, entre outras, as Filarmónicas de Viena e de Berlin, logo a seguir à Gulbenkian, são as orquestras cujos concertos, ao vivo, mais vejo e ouço durante cada ano que passa. Graças a Deus, devo pertencer ao restrito grupo de melómanos que tal pode afirmar, sem margem para dúvida. Há muitos anos que estou habituado a ouvir as melhores orquestras mundiais, tendo obrigação de saber comparar e integrar a da Gulbenkian, entre as melhores da Europa.

Por agora, tudo isto para concluir que, como imaginarão, se conta por muitas as centenas de concertos a que assisti com esta excelente orquestra. E muitos, muitos os maestros, dos melhores do mundo, que vi dirigi-la. Mas, à frente da orquestra Gulbenkian, também tenho assistido a medíocres prestações de alguns bons dirigentes. Ora bem, aqui chegado, é precisamente neste contexto que me interessa introduzir o concerto em que a Gulbenkian se apresentou no CCOC no passado dia 7.

Maestro?

O evento foi anunciado com Maxim Vengerov na qualidade de maestro. Ora bem, há meses, quando soube desta curiosidade, chamemos-lhe assim, ainda pensei que o violinista dirigiria a orquestra mas como solista, solução que, aliás, não é assim tão rara como isso. Todavia, quando apareceu o programa, anunciando Otto Pereira naquela condição, logo se me colocaram algumas questões.

Maxim Vengerov, que andará pelos seus trinta e seis anos, é um violinista cuja carreira tenho acompanhado, tanto em Lisboa, na Gulbenkian, como em Sintra e no estrangeiro, inclusive assistindo a algumas das suas master classes. É um virtuoso absolutamente extraordinário, super dotado em todos os aspectos, com uma técnica inultrapassável, sensibilidade, inteireza, simpatia, empatia, carisma, tudo o que possam imaginar de positivo.

Sempre considerei e até o escrevi algures que, intérprete tão genial não precisava de, sistematicamente, cair na estafada solução de interpretar, como encore, aquilo que costumo qualificar como números de trapézio, ou seja, peças como as Czardas de Vittorio Monti, de efeito fácil e garantido, em que um artista da sua categoria não deveria incorrer. Porém, de gosto algo duvidoso, ainda que facilmente evitável, não será daí que grande mal vem ao Mundo.

Certo é que, para além da interpretação de todos os concertos do repertório, o vi e ouvi fazer coisas inesquecíveis como aquela fantástica, comovente história do touro Ferdinand, um verdadeiro achado. Vi-o, numa mesma ocasião, na Gulbenkian, partir sucessivamente, duas cordas do Stradivarius e encarar o problema com elevada dose de bonomia, como só os grandes sabem e podem fazer. E também assisti, em Salzburg, ainda no tempo em que era director artístico o maestro Cláudio Abbado, à recusa da direcção do Festival da Páscoa de lhe conceder a possibilidade de tocar qualquer extra.

Dúvidas pertinentes

Enfim, seguramente, um grande senhor do violino a nível mundial. Assim sendo, que ponderáveis razões poderiam levar a organização do Festival de Sintra a propor este fabuloso Vengerov, virtuoso do violino, como maestro, naquele particular concerto – afinal o único em que a Gulbenkian se apresenta, como tem vindo a acontecer nos últimos ano – se não era previsível, fosse qual fosse o ângulo de abordagem, que tal episódio trouxesse qualquer específica mais-valia?

Haverá alguma questão de ordem física – daquelas que, não raro e periodicamente, afectam os violinistas – de que Vengerov estivesse padecendo? Ao pretender enveredar também pela carreira de director de orquestra estaria Vengerov a beneficiar da oportunidade de tirocinar, num periférico festival de Verão, que deixou de ter eco internacional, com a previsível garantia de que qualquer eventual desaire passaria mais ou menos desapercebido?

Tudo quanto possa alvitrar não passa de conjectura, ainda que, tratando-se de quem é, seja permitido admitir até mais do que uma hipótese, na tentativa de perceber o quadro de referência em que se apresentava este curioso concerto. Agora, entrando já na apreciação do que se evidenciou, não direi que a prestação de Vengerov, como maestro, se inscreva no rol das tais medíocres prestações a que aludi uns parágrafos atrás, mas só porque, pelo menos, e por enquanto, nem de longe, ele pertence ao quadro dos tais bons maestros...

O concerto no CCOC

Em Sintra, Vengerov foi apenas uma curiosidade. Nem mais nem menos. Vá lá, com algumas reticências, a sua condução da Sinfonia no. 3 em Lá menor, op. 56 de Mendelssohn, me pareceu obedecer a uma leitura em que soube sublinhar a expressão do vigor, a força algo telúrica bem patente no quarto andamento allegro vivacíssimo, romântico até mais não poder ser, exigindo uma direcção condicente que, na realidade, aconteceu. Foi talvez o seu melhor momento.

(continua)




domingo, 14 de junho de 2009

Festival de Sintra 2009
Quarenta e quatro

(conclusão)

Contrapontos, a confusão

Ao fim e ao cabo, relativas à optimização da fruição estética do evento musical, estas considerações adquirem especial acuidade se articuladas com uma terceira vertente que a organização do Festival de Sintra decidiu introduzir, há algum tempo, com a louvável intenção de ir à conquista de novos públicos: os Contrapontos.

Já deverei ter escrito quanto baste acerca da ideia dos contrapontos para sentir que caio no pecado da repetição. Contudo, convém continuar lembrando que a lógica conceptual dos designados contrapontos – modelo concebido pelo Maestro Cláudio Abbado, enquanto director artístico do Festival da Páscoa de Salzburg – se define por uma coincidência com a composição polifónica(1).

Assim sendo, no sentido de perceber se a matriz do Festival de Sintra não é fruto do acaso, resultante de meter no mesmo saco propostas inarticuláveis e avulsas, claro é que se impõe proceder à articulação temática entre ponto e contraponto. É que, caros leitores, nem em Sintra, nem noutro sítio qualquer, é possível acolher a estratégia dos contrapontos sem que estes, ao nível do tema que os enquadra, definam em relação a que entidade do programa do festival se apresentam como contraponto…

Por outro lado, mesmo no quadro da actual proposta, para que as diferentes componentes do Festival se evidenciassem com o respectivo peso específico, igualmente imprescindível seria que, para além do quadro geral dos eventos, a organização tivesse disponibilizado três programas individuais, um referente à Música, outro à Dança e um terceiro aos Contrapontos. Como, infelizmente, assim não acontece, as soluções gráficas em presença não satisfazem este específico desejo de esclarecimento inequívoco.*

PS:

1. Monserrate e Pena, espaços dependentes da empresa de capitais públicos Parques de Sintra Monte da Lua, não foram contemplados. Que pena!
2. Claro que, não estando em causa a qualidade dos eventos, desejo o maior sucesso.


*Quando escrevi este artigo, antes do início do Festival de Sintra 2009, não estava disponível qualquer programa individual.



(1)vd. Quarenta e três, JS 06.06.08
e sintradoavesso, Quarenta e três, 30.05.2008