[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017


26/10/2017

Stravinsky,
Canção Fúnebre, Op. 5
Estreia em Portugal

Gulbenkian, 
Grande Auditório,
hoje às 21.00
Em 1909, a Canção Fúnebre que Stravinsky compôs em memória de Nikolai Rimsky-Korsakov foi tocada pela primeira e última vez há mais de cem anos.
Julgava-se que a partitura estivesse irremediavelmente perdida, talvez destruída durante a Revolução de 1917 ou na subsequente guerra civil. No entanto, em 2015, os manuscritos finalmente emergiram no Conservatório de São Petersburgo, quando a esperança de reaver esta peça composta antes de O Pássaro de Fogo era quase nula.
Eis uma abordagem, estupenda, de Valery Gergiev, dirigindo a Orquestra do Teatro Mariinsky, especialmente dedicada a todos os meus amigos que, pelas mais diferentes razões, não podem assistir hoje ao concerto no Grande Auditório da Gulbenkian.
Boa Audição!
[Ilustr: Igor Stravinsky; Valery Gergiev]


27 de Outubro de 1914
 Dylan Thomas (Swansea, País de Gales)
(m. Nova Iorque,1953)

[partilha de "Light Breaks Where No Sun Shines" numa gravação pelo próprio poeta. Também uma tradução por Joge de Sena]
Há cinquenta e dois anos, em Letras, fiquei a conhecer o portento. Estava no meu primeiro ano da Faculdade, quando se deu o evento, pela mão do poeta Tomaz Kim - pseudónimo de Joaquim Fernandes Tomás Monteiro Grilo, professor de Teoria da Literatura - a quem, na altura, fiquei a dever a descoberta de alguns dos maiores tesouros da 'nova' Poesia britânica e americana.
De tal modo desassossegou os meus dezassete anos de então que não mais deixou de jorrar a sua verve. Permanente espanto. Até hoje.
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Light Breaks Where No Sun Shines
Light breaks where no sun shines;
Where no sea runs, the waters of the heart
Push in their tides;
And, broken ghosts with glow-worms in their heads,
The things of light
File through the flesh where no flesh decks the bones.
A candle in the thighs
Warms youth and seed and burns the seeds of age;
Where no seed stirs,
The fruit of man unwrinkles in the stars,
Bright as a fig;
Where no wax is, the candle shows its hairs.
Dawn breaks behind the eyes;
From poles of skull and toe the windy blood
Slides like a sea;
Nor fenced, nor staked, the gushers of the sky
Spout to the rod
Divining in a smile the oil of tears.
Night in the sockets rounds,
Like some pitch moon, the limit of the globes;
Day lights the bone;
Where no cold is, the skinning gales unpin
The winter's robes;
The film of spring is hanging from the lids.
Light breaks on secret lots,
On tips of thought where thoughts smell in the rain;
When logics dies,
The secret of the soil grows through the eye,
And blood jumps in the sun;
Above the waste allotments the dawn halts.
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Tradução de Jorge de Sena
A luz rompe onde o sol não brilha;
Onde o mar não corre, as águas do coração
Avançam suas marés;
E, quebrados espectros com pirilampos nas cabeças.
As coisas da luz
Insinuam-se na carne onde carne não cobre os ossos.
Um círio entre as pernas
Aquece a juventude e o sémen e queima o sémen da idade;
Onde sémen se não agita,
O fruto do homem incha nas estrelas,
Brilhante como um figo;
Onde cera não há, o círio mostra os seus cabelos.
A alvorada rompe atrás dos olhos;
De mastros do crânio e dedos dos pés o soprante sangue
Desliza como um mar;
Sem muros nem estacadas, os borbotões do céu
Esguicham para a vara do vedor
Num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite nas órbitas arredondada,
Como uma luz de paz, o limite dos globos;
O dia acende o osso;
Onde frio não há, as ventanias desprendem
As vestes do Inverno;
A película da Primavera pende nas pálpebras.
A luz rompe em lotes secretos,
Em pontas do pensar onde os pensamentos cheiram mal na chuva;
Quando a lógica morre,
O segredo do solo cresce pelos olhos dentro,
E o sangue salta ao sol;
Por sobre os terrenos vagos a alvorada pára.
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> Dylan Thomas [by himself], no documento que convosco partilho.
Boa Audição!



27/19/2017


7 de Outubro de 1892
Graciliano Ramos
(m. 1953)


Para a evocação que hoje me interessa, apenas a partilhar convosco a convicção profunda de que se trata de uma das vozes mais sérias e grandes das literaturas brasileira e universal.
Estou certo de que entenderão como, para mim, "Vidas Secas", de 1938, é a única obra, de toda a Literatura do século vinte, que pode emparceirar, perfeitamente, com "The Old Man and the Sea" (1952), de Ernest Hemigway...
Além de escritor de primeira água - magistralmente estudado pelo meu querido amigo Prof. Fernando Alves Cristóvão - Graciliano ramos foi homem empenhadíssimo em termos cívicos, tendo ingressado no antigo Partido Comunista do Brasil, onde se destaca, já sob a direcção de Luís Carlos Prestes.
Eis um belo excerto de "Vidas Secas":
"(...) Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas. Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.
Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento a cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas sinhá Vitória não queria saber de elogios. - Arreda! Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos de revolucionários. (...)"
Sintomaticamente, em 1962, "Vidas Secas" foi galardoado com o Prémio da William Faulkner Foundation (USA), como livro representativo da «Literatura americana» Contemporânea. Há dois anos, quando, também neste meu mural do facebook, comemorei a efeméride, o meu amigo Luís Miguel Lavrador lembrava-me o trabalho de Aldemir Martins como ilustrador primeira edição da obra, de facto, um marco a ter em consideração.
"Vidas Secas" deu origem ao filme homónimo (1963), realiz daado por Nelson Pereira dos Santos, com nítida influência do neo-realismo italiano, tendo-se notabilizado como um dos mais conhecidos do designado «Cinema Novo».
Foi o único filme brasileiro indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais de qualquer cinemateca.
Inequivocamente, a ver ou, estou certo, na maior parte dos casos, a rever!
Aqui têm. Bom visionamento.
____________
[Chamada de atenção para Maria José CraveiroMaria Fernanda CarvalhoVitor SerrãoMaria Adelina Amorim, para quem o Prof. Fernando Cristóvão, indissociável de Graciliano Ramos, é uma das nossas referências académicas e amigo especialmente querido.]
[Ilustr: Graciliano Ramos]

27/10/2017

27 de Outubro de 1782
Niccolo Paganini
(m. 1840)


Comemoremos o aniversário ouvindo uma peça de sua autoria e também alguns dos instrumentos que lhe pertenceram!
1.
Comecemos com o primeiro andamento, 'Allegro maestoso' do Concerto para Violino No. 4. O solista e maestro é Massimo Quarta, que toca num violino que pertenceu ao compositor, dirigindo a Orchestra del Teatro Carlo Felice di Génova [I];
2.
Continuemos, aproveitando agora a oportunidade para ouvir todo um conjunto de instrumentos que foram propriedade do próprio Paganini, pelo extinto Tokyo String Quartet, na interpretação do Allegro con brio do Quarteto de Cordas em Fá Maior, Op. 95 'Serioso', de Beethoven, [II].
Desde 2013, altura da extinção do Quarteto Tokyo, e, tal como já tive oportunidade de informar, os dois violinos, a viola e o violoncelo Stradivari, foram cedidos pela proprietária Nippon Music Foundation ao famosíssimo Quarteto Hagen de Salzburg.
Vem a propósito esclarecer que uma grande parte dos mais famosos instrumentos de corda que circulam por esse mundo, por exemplo, das oficinas de Stradivari, Maggini, Stainer, Klotz, Ruggieri, Amati, Bergonzi, Guarnieri, Lupot, Veuillaume, etc, pertencem a grandes bancos e fundações internacionais, que os cedem aos intérpretes 'galácticos', permanecendo estes como fiéis depositários desse precioso património.
Boa Audição!


Efeméride mozartiana
27 de Outubro de 1788

[partilha de gravação histórica]

Viena:
Composição do Trio com Piano em Sol Maior, KV. 564. A entrada no seu catálogo pessoal regista: "27 de Outubro, Um trio para piano, violino e violoncelo".
Partilharei convosco uma gravação que, não podendo ser mais histórica, junta Leonid Kogan, Mstislav Rostropovich e Emil Gilels num registo de estúdio datado de Moscovo, 1952.
Detalhe:
I. Allegro 0:00
II. Andante 4:49
III. Allegretto 11:55
Boa Audição!
[Ilustr: Leonid Kogan , Emil Gilels e Mstislav Rostropovich]


27 de Outubro de 2017

Outono!


Com os menos «ardentes» e mais sofridos desejos da chegada de autênticos dias outonais, recorro a Edvard Grieg, à sua tão sugestiva Abertura de Concerto Op. 11, "Im Herbst" [No Outono].
Toca a Orquestra Sinfónica de Gothenburg sob a direcção de 
Neeme Järvi.
Boa audição!
[Ilustr: John Everett Millais, “Autumn Leaves,” 1856]







28 de Outubro de 1787
GRANDE EFEMÉRIDE MOZARTIANA




“Don Giovanni”
Com pequenas alterações em relação ao ano passado, aqui está a proposta de celebração do dia que, há precisamente 230 anos, tão auspicioso foi para a história do canto lírico universal.
Há, de facto, uma alteração interessante. Se, em 2016, partilhámos uma das récitas de Salzburg de 1953, para hoje, seleccionei uma outra gravada no ano seguinte.
Reparem nas diferenças:
- 27 de Julho de 1953
Don Giovanni- Cesare Siepi
Leporello- Otto Edelmann
Donna Anna- Elisabeth Grümmer
Donna Elvira- Elisabeth Schwarzkopf
Don Ottavio- Anton Dermota
Zerlina- Erna Berger
Masetto- Walter Berry
Commendatore- Raffaele Arié
Filarmónica de Viena
cond, Wilhelm Furtwängler
- Julho de 1954
Don Giovanni - Cesare Siepi
Leporello - Otto Edelmann
Donna Anna - Elisabeth Grümmer
Donna Elvira - Lisa Della Casa
Don Ottavio - Anton Dermota
Zerlina - Erna Berger
Masetto - Walter Berry
Commendatore - Deszö Ernster
Filarmónica de Viena
cond. Wilhelm Furtwängler
Ainda um factor que, para alguns de vós, será de determinante interesse e mais-valia. No ano passado, se «apenas» tivemos o som da gravação, desta vez, teremos um filme na sua plenitude. Enfim, ainda vos deixo o aliciante de poderem comparar esta 'Donna Elvira' de Lisa Della Casa com a de Elisabeth Schwarzkopf e este 'Commendatore' de Deszö Ernster com o de Raffaele Arié...
[Uma vez que, para evitar quaisquer reclamações, «aqui» o serviço é completo, se pretenderem proceder a tal operação de sofisticada comparação, aqui vos deixo a respectiva referência do Youtube: https://youtu.be/Jb3SpSOHpv0]
__________________
Então, a partir deste momento, aproveitando prosa anterior, eis-me confirmando como hoje é dia grande nas efemérides mozartianas. Foi em 28 de Outubro de 1787 que Mozart deu por terminada “Don Giovanni”, fazendo entrar no seu catálogo pessoal as seguintes notas, que transcrevo com a pontuação original:
“28 de Outubro, em Praga. Il dissoluto punito, o, il Don Giovanni. Opera Buffa em 2 Actos, Números Musicais: 24, Actores (sic): Signore Teresa Saporiti, Bondini and Micelli; Signori Bassi, Ponziani, Baglioni and Lolli”
Tenham em consideração que, dada por terminada em 28, subiu à cena no dia seguinte. Os mencionados nomes referem-se aos 'actores' que protagonizaram a estreia absoluta, em Praga, ou seja, senhores (Luigi) Bassi, (Felice) Ponziani, (Antonio) Baglioni e (Giuseppe) Lolli que assumiram, respectivamente, as personagens de Don Giovanni, Leporello, Don Ottavio e Masstto; as senhoras Teresa Saporiti, (Caterina) Bondini e (Caterina) Micelli, respectivamente, as de Donna Anna, Zerlina e Donna Elvira.
Como sabem, o libreto é de Lorenzo Da Ponte.
Boa Audição!
[Ilustr: "Don Giovanni", gravação ao vivo EMI, Salzburg 1954; Programa e Libretto da estreia de "Don Giovanni" em Praga]

28 de Outubro de 2017

Em Sintra,
em Lisboa,
em Bruxelas,
em Washington
- a ignorância no poder


Tenho a impressão de que, até tempos relativamente recentes, talvez com referência mais distante balizada pela queda do Muro de Berlin, nunca como actualmente tão aberta esteve a chaga da baixa de exigência pessoal e colectiva em relação à ‘obra’ que, constantemente, se impõe edificar.
Mal informados, impreparados, geralmente ignorantes, os eleitos nada ou muito pouco adquiriram como bagagem cultural que possa ter contribuído para assumirem atitudes afins do progresso das comunidades.
Naturalmente, jamais terão ouvido falar e, muito menos, lido alguma linha dos textos dos grandes clássicos greco-romanos ou do humanismo renascentista. Como poderão ter como norteamento das suas vidas de cidadãos eleitos qualquer objectivo sequer análogo ao que passo a citar?
“Que a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de anelarmos* às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível.”
"De hominis dignitate oratio" [Discurso sobre a Dignidade do Homem], Giovanni Pico Della Mirandola, Oratio, Roma, 1486.
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* não vá a interpretação da peça ficar prejudicada pela ignorância do significado...
> anelar = desejar ardentemente, ansiar, almejar, aspirar
[Ilustr: Giovanni Pico della Mirandola, retrato de Cristofano dell'Altissimo, Galeria Uffizi, Firenze]



29 de Outubro de 2017


NOITES DE QUELUZ
CICLO TEMPESTADE E GALANTERIE
Coordenação e Direcção Musical de Massimo Mazzeo
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Hoje, 29 de Outubro, 21,30
CONCERTO DE ENCERRAMENTO
SERENATA "IL NATAL DI GIOVE" [O nascimento de Júpiter]
de JOÃO CORDEIRO DA SILVA
(c. 1735-c. 1808)
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Tendo sido estreada no Palácio de Queluz, a 21 de Agosto de 1778, para celebrar o 17.º aniversário do infante José Francisco, filho de D. Pedro III e da rainha D. Maria I esta obra foi praticamente esquecida.
Hoje, 29 de outubro, finalmente, teremos o privilégio de assistir à sua estreia mundial moderna, com Riccardo Doni, no cravo e na direcção da orquestra barroca Divino Sospiro.
Personagens e intérpretes:
Melite - Eduarda Melo, soprano
Adrasto - Patrycia Cabrel, soprano
Amaltea - Giuseppina Bridelli, mezzo
Temide - Mariana Castello-Branco, soprano
Cassandro - Pedro Matos, tenor
Cumpre ter em consideração e, com toda a propriedade, agradecer o trabalho imenso de edição crítica da obra levado a efeito por Yskrena Yordanova.
[Palácio de Queluz, Sala do Trono]



29 de Outubro de 1816
Nascimento de Fernando de Sax-Coburgo e Gotha

[29 de Outubro de 2017]

Em Sintra, a celebração da memória do rei D. Fernando II, ou é muito 'bissexta' ou, pura e simplesmente, omissa. Em anos anteriores, a falta de celebração quase tem roçado o escândalo.
Mas, em 2016, por ocasião do redondo e jubilar duplo centenário, não faltaram, no Palácio da Pena, as condignas comemorações sob a responsabilidade da Parques de Sintra.
No meu mural continuo a lembrar quem me é tão caro. É com esse propósito que, mais uma vez, com algumas adaptações, permitirão me socorra de um texto publicado no 'Jornal de Sintra' em 2006.
Acrescentei a proposta final de audição de uma peça musical que tudo tem a ver com o texto, com o Senhor D. Fernando II, com a grande Música e com a Cultura ocidental judaico-cristã, nossa europeia matriz de absoluta referência.
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D. Fernando II
Pobre artista! Pobre Rei!
Há muitos anos que, para mim, o 29 de Outubro é subordinado à memória de Fernando de Sax-Coburg e Gotha (Coburg, 29.10.1816 - Lisboa, 15.12.1885), um dos homens que mais decisivamente marcou a segunda metade do século dezanove em Portugal, especialmente no âmbito da defesa e recuperação do património.
Muitas são as histórias e os episódios de salvaguarda de peças de valor patrimonial inestimável, in extremis resgatadas ao destino da pura e simples destruição, não fosse a sua directa intervenção. Um verdadeiro diletante, homem informado e de grande cultura, artista ele próprio, grande amante da Música, cantor, pintor de gabarito, tão impressiva foi a marca da sua atitude e actividades que ainda hoje é lembrado sob o epíteto de 'Rei Artista' que lhe atribuiu o escritor António Feliciano de Castilho.
"(...) Pobre artista! Pobre rei!" É com esta exclamação que Ramalho Ortigão termina o texto subordinado ao título "O Rei D. Fernando".* Estas palavras são precedidas por vinte páginas de uma homenagem que, passados cento e vinte dois anos sobre a sua escrita.
Trata-se de um texto e pretexto para que os portugueses melhor se reconheçam, quando lhes dá para o farisaísmo, mesquinhez, ordinarice, inveja, na acabada demonstração da incapacidade de se organizarem à volta dos seus mais autênticos interesses.
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Animação da Leitura...
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Quem ainda não leu aquelas estupendas linhas de "As Farpas" e julga conhecer a grande e a pequena História de Sintra, em especial no que se refere ao legado da Pena, não sabe o que tem andado a perder.
Ramalho Ortigão escreveu-as, «a quente», na sequência da morte do Senhor D. Fernando, reagindo à hipocrisia de uma data de ignorantes que, ao fim e ao cabo, ainda andam por aí... Ou ainda não terão notado? Verão a razão que me assiste quando as lerem.
Uma das maneiras para melhor comemorar a efeméride, não tenho a mínima dúvida, passa pela leitura de texto tão recomendável, que tanto proveito e gozo estético proporcionará a quem seguir o concelho deste humilde escriba que se atreve, não só ao beija-mão real, mas também à evocação de um dos melhores escritores de oitocentos. Nos dias que correm, passe a presunção, não é façanha menor...
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Animação da Música...
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Mas ainda não vos deixo sem outra recomendação que, aliás é suscitada pela leitura que recomendo: "(...) E, instalando-se num fauteuil, ao fundo da sala de música, [D.Fernando] cantou-lhe ao piano, à mais larga expressão elegíaca da sua extensa voz de baixo cantante, A Criação, de Haydn (...)"
Ouçam essa outra obra-prima. Mesmo que já conheçam a oratória "A Criação", não deixem de repetir. Dêem-se ao luxo de participar naquele momento sublime da História da Música que cioincide com a fracção de Tempo em que, no Espaço do caos, a luz se fez. O grande Haydn, introduzido pelo próprio Mozart na Maçonaria, deixa nesta obra o seu mais alto contributo para o brilhante acervo artístico da Augusta Ordem. Ouçam. Repitam.
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...e Animação da Arte, em geral
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Mas, por favor, nada de misturas. Em primeiro lugar, leiam. Depois, escutem a música. Não façam como tanta e tão boa gente, que afirma precisar da Música como «fundo» para a concretização de outras actividades culturais, como a leitura da Literatura, por exemplo.
Se querem saber, eu sou completamente contra. É que, enquanto formas de Arte, tanto a Literatura como a Música são tão exigentes de concentração, que o 'leitor-simultaneamente-ouvinte', mesmo de obras literárias e musicais 'afins', com certeza, perderá inúmeros aspectos de uma e outra...
Hoje, em memória de um «pobre Rei», em memória de um «pobre Artista», saibamos conceder-nos o benefício da Arte e, muito a propósito, lembremos o horaciano 'carpe diem' que, ao contrário do que alguns consideram bem interpretar, nada tem de aconselhamento à facilidade. E facilidade foi coisa que D. Fernando jamais promoveu embora tivesse sabido muito bem aproveitar os dias da sua passagem «por aqui».
Apenas uma proposta final para vos pôr em sintonia comigo e com D. Fernando II. Como não podia deixar de ser, de acordo com a preferência do homenageado, aqui vos deixo com "A Criação" de Joseph Haydn.
Desta vez, a gravação ao vivo, datada de 1992, na Igreja dos Jesuítas de Luzern, com a Scottish Chamber Orchestra, sob direcção de Peter Schreier, com as vozes solistas de Edith Mathis - soprano, Christoph Prégardien - tenor e René Pape - baixo-barítono.
Ficam com a obra integral, uma das mais fabulosas realizações não só da Música mas também da Arte de todos os tempos, que bem atesta o sofisticado gosto do homem de cultura que era D. Fernando.
Boa audição!
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(*) RAMALHO ORTIGÃO, José Duarte, O Rei D. Fernando, in As Farpas, Obras Completas de Ramalho Ortigão, tomo III, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1969
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NB:
O documentário biográfico "D. Fernando II, Notas biográficas", realizado durante o ano jubilar de 2016, será disponibilizado em data a anunciar pela Parques de Sintra.
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[Ilustr: Rei D. Fernando II]