[sempre de acordo com a antiga ortografia]

domingo, 12 de outubro de 2014


Justo júbilo

[facebook, 07.10.2014]

Eis-nos, na maior informalidade, numa das mais sofisticadas salas de música que podemos frequentar em Portugal, assistindo a um evento do mais alto nível em qualquer latitude, ouvindo um reportório clássico e romântico do maior interesse.

Como não rejubilar? O que mais pedir? Pedir, não. Agradecer, isso sim, à Parques de Sintra e ao Centro de Estudos Musicais Setecentistas que nos proporcionam esta possibilidade. Agradecer pelo sentido de oportunidade. Agradecer por tão alto levantarem a fasquia. Agradecer pela organização, pela inexcedível simpatia e profissionalismo dos colaboradores e responsáveis.

Nunca será particularmente elegante falar ou escrever sobre vil metal enquadrados por um tal contexto. Contudo, não resisto a considerar que, lá por fora, jamais pagaria menos do triplo ou do quádruplo do que neste caso de Queluz, para me sentar num lugar relativamente decente, partilhando algo de semelhante, por estes dois mesmos intérpretes.

Se há alguém que falta estar à altura é o público que, por vezes, parece andar algo distraído da oferta da agenda cultural...
 



Sonatas de Beethoven, Schubert e Clementi


[facebook, 07.10.2014]

Um verdadeiro privilégio que nos concedeu a Parques de Sintra e o Centro de Estudos de Música Setecentista. Midori Seiler e Jos van Immerseel são dois dos mais distintos músicos, disputados pelos melhores auditórios por esse mundo fora.

Tivemos um serão magnífico, como primeiro momento de uma série de cinco concertos e recitais do Ciclo de Outono, da Temporada 'Tempestade e Galanterie'. Durante este mês de Outubro, o Palácio de Queluz deve estar nas agendas de todos os interessados.

 


Amália,
gaivota eterna


[facebook, 06.10.2014]

Amália é um caso muito sério da Cultura Portuguesa contemporânea, que ultrapassa as fronteiras do universo musical - urbano, étnico - em sentido restrito, para se projectar como' facto', com suficientes ingredientes de autonomia, dela fazendo um «produto» original, autêntico, genuíno e genial.

Além do 'cabedal' próprio, a inteligência de Amália determinou-lhe rodear-se dos melhores entre os melhores. Nesse sentido, Amália é a síntese do trabalho e empenho de uma élite que, para ela, produziu os melhores contributos poéticos e musicais, por ela transformados em artefactos perfeitos.

Em justa proporção, razão e emoção, permitiram-lhe assumir e partilhar as mais evidentes formas simbólicas da cultura nacional que, na sua voz, se transformaram em ícones inesquecíveis. Com uma aura e carisma evidentes, eis a rematada diva que nos coube ter, contemporânea, durante décadas de encanto.

Com poema de Alexandre O'Neill e música de Alain Oulman, aqui vos proponho "Gaivota", o exemplo manifesto do que acabo de escrever.
Boa audição!


http://youtu.be/TP4BnfUm0eI

 


Amália,
morte há quinze anos


[facebook, 06.10.2014]

"(...) Entretanto, quando telefonei à Ana Maria, soubera que a Amália tinha morrido. Como não ouvira rádio nem vira televisão, estava a leste das notícias.

Foi um tremendo choque. Mórbido como sou, gostando muito da Amália, não raro, me punha a imaginar como seria quando ela partisse. Como reagiria eu que, pequenino, nos meus seis anos, mal sabendo pôr o gira-discos a funcionar, fazia tocar "Mãe Preta" (Barco Negro) e chorava, chorava muito, sem compreender muitas das ideias mas completamente 'apanhado' por aquela voz louca, quase gritando 'são loucas, são loouuuuucas'...

Meu Deus, a impressão que me faziam estas músicas e aquela voz perfeitamente mágica. Em casa, eu estava habituado a ouvir muita e boa música clássica. Mas havia outras coisas boas. E a Amália, certamente, também me educou o ouvido e cá deixou um residual de emoções e sentimentos que, naturalmente, só muito mais tarde, começaria a entender (...)"

Aquelas foram algumas das palavras que, em cima do acontecimento, escrevi no meu diário. Estava na Beira, de visita à minha mãe e irmãos, quando Amália nos deixou. Três dias depois, aquando do funeral:

"(...) Hoje foi o funeral da Amália, com honras de Estado. Como viajei [estive no Porto, em trabalho], não vi nada, não participei. E eu precisava. Precisava de me comover, mas lá, de comungar deste tão grande desgosto nacional. Aqui, no Porto, coisa esquisita, parece que não estou no meu país, o país de Amália. À minha volta, não sinto qualquer consternação nem sequer ambiente para partilhar a mágoa que me invade.

No Telejornal do segundo canal, fizeram uma montagem de imagens do cortejo, com o fundo musical de "O Grito", música de Carlos Gonçalves e letra de Amália que ela própria tinha pedido para a ocasião. Bem, é das coisa mais pungentes que já se cantaram. Uma impressão profundíssima, de choro e soluço incontido.

Apetece-me tanto ouvir a Amália. Fechar-me umas horas e fazer o meu luto. (...)"
Lembro-me de quase ter estado a pegar no telefone para ligar ao Jorge Rodrigues, da RDP 2, que, como eu, é um «tarado» pela Amália. Não o fiz. Tive pudor. Reservei-me na dor. Não exagero seja o que for. Foi mesmo dor, muito pesar.

Hoje, se quiserem, acompanhem-me. Claro que o meu convite é para ouvir "Barco Negro" e "O Grito". Das minhas memórias, sei eu. E das vossas?


Boa audição!


http://youtu.be/8fZD5ol3rxI Barco Negro
http://youtu.be/5YBS7x4jWi0


Sequeira Costa,
um paradigma


[facebook, 06.10.2014]

O recital de Sequeira Costa desta tarde na Gulbenkian não podia ter sido mais gratificante. Nos seus oitenta e cinco anos, está magnífico. A interpretação das peças em programa, dos períodos barroco, clássico e romântico, repectivamente, de Bach, Beethoven e Chopin, foi absolutamente irrepreensível e de uma 'sagesse' que resulta do filtro de uma experiência única que foi a sua, no acumular de tantas e diferentes abordagens ao longo de carreira tão preenchida.

Eu que o ouço tocar há sessenta anos - é verdade, desde os meus seis anos de idade!... - posso garantir-vos que já o ouvi fazer estas mesmas obras menos bem do que hoje. É um grande mestre. É tão especial a sua opção pelos tempos, dentro da estreitíssima faixa concedida pelos compositores!... As suas pronunciadas pausas, o touché, o legatto, o cantabile, o fraseado, ou seja, todos os recursos adequados «naquele» e só naquele, determinado e preciso momento de uma interpretação em que dá a ouvir tudo o que o compositor pretendeu.

Naturalmente, não me dirigindo a especialistas, apenas partilho convosco a impressão global que, mais uma vez, me deixou o pianista Sequeira Costa. Ele, o mesmo que tanto impressionou o próprio Chostakovitch, a ponto de este o convidar a integrar o júri da primeira edição do Concurso Internacional Tchaikovsky, em Moscovo, ao lado «só» de Sviatoslav Richter, Dmitri Kabalevsky, Aram Khachaturian e Emil Gilels...

Ele, o mesmo Sequeira Costa - que emparceirou com Arturo Benedetti Michelangeli, Sviatoslav Richter, Heinrich Neuhaus, o já referido Gilels, os maiores do século vinte, de quem foi bom amigo - hoje aclamado pelo público que esgotou o auditório, em peso, de pé, em sentidíssimos aplausos aos quais correspondeu com infindáveis extra programa. Um estupendo momento musical. Mais uma vivência memorável.

PS. Aproveitaria ainda para anunciar que diligências estão em curso por parte da organização no sentido de poder contar com Sequeira Costa na próxima que será a quinquagésima edição do Festival de Sintra. Tenham em consideração que ele integrou o programa da primeira e de muitas seguintes edições.

 


Fundação Gulbenkian,

 Recital de Sequeira Costa

 
[facebook, 5 de Outubro de 2014]

Vou agora saír para Lisboa, em direcção à Gulbenkian, para assistir, às 19,00 horas, a um recital de Sequeira Costa integrado no Ciclo de Piano da temporada 2014/15, que inclui a "Suite Francesa No. 5, em Sol Maior, BWV 816 de Johann Sebastian Bach, a Sonata No. 1, em Fá menor, op. 2 no. 1 e a Sonata No. 8, em Dó menor, op. 13 'Patética', de Ludwig van Beethoven e Sonata No. 3, em Si menor, op. 58.
...
É um grande senhor do Piano, a quem a Música erudita, em geral, muito deve em Portugal. Sem o seu grande contributo o Festival de Sintra por exemplo, certamente, seria outra coisa menos prestigiada. O Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta, uma sua criação, tornou-se num dos mais importantes do mundo com os mais conceituados membros do júri ao longo de décadas. Professor e pedagogo de reconhecida fama, é um privilégio poder tê-lo de vez em quando por cá.

Por ele interpretadas, entre centenas de peças durante toda a vida, assisti a duas séries completas das Sonatas para Piano de Beethoven, sempre de belíssimo recorte, que tenho na maior consideração. Grandes pianistas, que o conhecem de outras andanças, colocam Sequeira Costa no mais alto patamar da pianística mundial.

As posições da máxima exigência e recusa de quaisquer concessões à facilidade da adopção de recursos que fascinam os públicos menos preparados, têm -lhe granjeado alguns adversários, causado algumas incompreensões e fama de mau feitio. Paciência... A verdade é que, só os grandes, se podem dar ao luxo de chamar as coisas pelos nomes. Sequeira Costa faz inequívoca parte desse grupo.

Não deixa de ser sintomático que haja dificuldade de encontrar gravações de Sequeira no YouTube. Em contrapartida, de Maria João Pires, é o que se quiser... Há indefectíveis de MJP, que logo advogarão que por «alguma razão» é. Claro que sim, meus amigos, mas que nada tem a ver com o gabarito de ambos os intérpretes.
 
Sem querer ser «mauzinho», sabem em que lugar se qualificou MJP no Vianna da Motta?

 


Efeméride mozartiana

5 de Outubro de 1773

Sinfonia no. 25

[facebook, 5.10.2014]

[Recupero um dos meus quarenta textos de introdução à obra sinfónica completa de Mozart, que publiquei durante todo o ano de 2012. Desta vez, porém, introduzi algumas modificações de pormenor.]

Mozart acabou de compor a Sinfonia em Sol menor, KV 183/173dB em 5 de Outubro de 1773, apenas dois dias depois da precedente sinfonia Nº 24 - facto que não está absolutamente comprovado - e pouco tempo após o sucesso obtido pela ópera “Lucio Silla”.

Chamo a vossa atenção logo para os primeiros acordes já que foi esta a peça escolhida por Milos Forman para início do “Amadeus”. A propósito, deixar-me-ão reforçar a ideia de que o filme, de modo algum, corresponde a uma biografia do compositor. Coisa bem diferente é a que se passa, ou seja, liberdade ficcional à solta que, de quando em vez, radica em alguns factos biográficos...

Voltemos à Sinfonia desta efeméride de 5 de Outubro há duzentos e quarenta anos. Recordo-vos que Mozart escreveu duas sinfonias em Sol menor, ou seja, esta – também conhecida como a ‘Sol menor Pequena’ e, muito mais tarde, em 1788, a famosíssima Nº 40, KV 550.

Preciso é ter em consideração que a maioria das sinfonias do século dezoito é composta em tom maior, aparentemente, adequando-se muito mais à optimística grandeza e pomposa solenidade do que aos matizes mais escuros e sentimentos mais apaixonados afins das obras em Sol menor.
 
Pois bem, é precisamente, um pouco nesta linha que se move uma corrente da musicologia pretendendo descortinar nestas peças a marca de um pré ou proto-romantismo, coincidente com o movimento 'Sturm und Drang'.

Em contraste com as sinfonias da década precedente, estas obras têm em comum um uso muito mais frequente do contraponto, súbitos saltos temáticos, maior utilização das síncopes – ou seja, o recurso ao padrão rítmico em que um som é articulado na parte fraca do tempo ou compasso, prolongando-se pela parte forte seguinte – finais mais prolongados e ocorrência muito mais frequente de segmentos em uníssono.

Ainda a propósito, convirá ter presente que, muito antes de ter composto esta Sinfonia KV. 183, o jovem Mozart conhecia todas estas particularidades. Lembremos o que, já a propósito desta série de artigos introdutórios às sinfonias de Mozart, eu próprio referi quanto à KV. 118, datada de dois anos antes.
 
E, ainda mais extraordinário, se recuarmos ao período da infância, nomeadamente, a 1764 (nos seus oito anos de idade, durante a estada em Londres), quando esboçou num caderninho de notas uma peça para tecla – precisamente, em Sol menor, KV 15 - em estilo quase orquestral, que já captava o carácter tempestuoso que tem sido erroneamente proclamado como original de um período posterior.

A obra desenvolve-se de acordo com a estrutura clássica de quatro andamentos ,1. Allegro con brio, 4/4 em Sol menor, 2. Andante, 2/4 em Mi bemol Maior, 3. Menuetto /Trio, 3/4 em Sol menor e Trio em Sol Maior e, finalmente, 4. Allegro, 4/4 em Sol menor. Ainda de assinalar que haverá influências da Sinfonia No. 39 de Joseph Haydn, que também obedece à tonalidade de Sol menor.

Mais uma magnífica interpretação da Mozart Akademie Amsterdam sob a direcção de Jaap Ter Linden.

Boa audição!

http://youtu.be/kbNl7di8a-A


PIRIQUITA,
Travesseiro, queijada & segredo ilimitado

 

[facebook, 5.10.2014]

O artigo de Isaura Almeida, publicado em página inteira do "Diário de Notícias" de 11 de Setembro passado, que abaixo reproduzo, é apenas mais um dos inúmeros trabalhos que muitos órgãos da comunicação social têm dispensado a este altar da doçaria tradicional de Sintra.
...
Imprensa, rádio e televisão têm revelado um especial interesse por esta casa centenária que, há largas dezenas de anos, é um ícone local. Conhecidíssima, a nível nacional e, de tal modo referida e aconselhada pelas mais diferentes publicações estrangeiras, a PIRIQUITA, ela própria, é objecto de uma insaciável gula alimentada pelos «segredos» que uma casa destas não poderia deixar de encerrar.

Parte substancial deste artigo é dedicada ao «segredo» bem guardado de um fabrico cuja inicial genuinidade doceira se mantêm apesar dos números avassaladores da confecção anual. Amigo que sou de Fernando Cunha Cunha, julgo poder partilhar convosco o grande segredo com o qual ninguém está particularmente preocupado e que, afinal, muito ultrapassa aquele que a sua mãe, Senhora D. Maria Leonor, guarda religiosamente.

Além da qualidade dos ingredientes - elemento tão inequívoco e imediato que nem seria necessário referir - para se ter uma ideia do tal «mistério», preciso será uma incursão pelas entranhas da loja, passar pela «cozinha», subir ao segundo andar daquele prédio de interior coleante mas tão acolhedor, ouvir, conversar e entender que ali funciona uma família da qual os colaboradores fazem parte integrante.

A amizade, a bonomia, o humor, em suma, o bom ambiente que por ali reina e a preocupação com o resultado de um trabalho quotidiano que, de modo algum, pode comprometer os pergaminhos da casa, eis o núcleo essencial de «temperos», que tudo condicionam tão positivamente, e que se filtram naquela maravilha da pastelaria portuguesa.

"Piriquita"? Uma casa feliz, um caso de sucesso geracional, enfim, um outro tipo de património cultural, do melhor nível, que Sintra oferece ao mundo.


 
 


Parques de Sintra
400 exemplares voluntários


[facebook, 5 de Outubro]

 
Bem demonstrativo da exemplar relação entre a Parques de Sintra e o público para quem trabalha sempre obedecendo a padrões do mais alto nível, anteontem, 6ª Feira, enquanto participava num painel do XVI Congresso Iberoamericano de Urbanismo, no Centro Cultural Olga Cadaval, o Prof. António Lamas bem podia anunciar, com todo o orgulho, mais este estrondoso êxito.

De facto, exemplar a todos os títulos, a Parques de Sintra não pode constituir maior orgulho para todos os sintrenses. É Sintra no seu melhor!


É VERDADE,
NÃO ESQUEÇAM!


HOJE, POR SER DOMINGO, COMO ACONTECE TODOS OS DOMINGOS DE MANHÃ, ACESSO GRATUITO, PARA OS MUNÍCIPES SINTRENSES. EM ESPECIAL; PENSEM NOS GAROTOS, PROPORCIONANDO-LHES UMA VISITA INESQUECÍVEL

domingo, 5 de outubro de 2014



XVI Congresso Iberoamericano de Urbanismo
manhã de 3 de Outubro



Naturalmente, lá estivemos. E, na altura reservada à participação dos presentes, interviemos ele, Fernando Morais Gomes, o José Cardim, o João Cruz Alves, a Adriana Jones, eu e os «do costume», num debate muito interessante em que, a partir da mesa, ouvimos palavras da máxima pertinência, tanto do Presidente da Câmara, Dr. Basílio Horta como do Prof. António Lamas.
 
Desde já fica a promessa de que, na próxima semana, o meu artigo para o 'Jornal de Sintra' será a propósito deste evento. Nessa altura, terei oportunidade não de detalhar mas de alinhar mais algumas considerações com base no acervo de informação que houve oportunidade de partilhar.