[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sábado, 13 de outubro de 2012



A Paz, os alhos e os bugalhos*


O Comité do Nobel fala e escreve sobre alhos, ou seja, enaltece o caminho percorrido, desde os tempos da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço até aos nossos dias, evitando a beligerância entre países que tinham empurrado os seus filhos para dezenas e dezenas de anos de guerras fratricidas e fomentando a paz no continente por um período tão alargado como jamais aconteceu.

Porém, as reacções que tenho encontrado respondem bugalhos. E os «bugalhos» com que deparo são de um tal primarismo que aflige. Claro que é facílimo conotar as justíssimas reacções dos cidadãos europeus - nomeadamente portugueses, irlandeses, gregos, italianos e espanhóis, perante políticas nacionais e globais que estão a minar o Estado Social e a sua qualidade de vida - com estes acontecimentos recentes, circunstanciais, muito importantes de cidadãos gritando que não aguentam a violência de soluções mal equacionadas.

De facto, estamos todos a passar um péssimo momento, incapazes de trilhar a via do federalismo, para a qual apontaram Monet, Spaak, Adenauer e os outros pais fundadores. É verdade. Estamos em risco de não conseguir percorrer esse caminho para a Federação dos Estados Unidos da Europa e de não honrar o fabuloso património das conquistas alcançadas em setenta anos de paz.

Mas, por favor, nada de confusões. Não deixemos que a árvore nos impeça de olhar a floresta… Aliás, com a sua decisão e à sua medida, o Comité Nobel faz uma inteligentíssima chamada de atenção, até estimulando e promovendo uma significativa quota parte de ânimo, mobilizando-nos a todos, decisores políticos e cidadãos em geral, para que nos empenhemos decisivamente nas soluções que, cada vez mais, apontem em direcção ao grande objectivo referido.
 
*texto também publicado hoje no facebook
 
 


Uma questão de exemplo

[Texto publicado no facebook em 12 de Outubro]


Ao contrário do que algumas pessoas pretendem, o interesse dos cidadãos que discutem a aquisição dos quatro automóveis topo de gama pelo grupo parlamentar do Partido Socialista, com verbas disponibilizadas pelos contribuintes, não se enquadra em qualquer manobra de diversão, com o objectivo de desfocar a atenção de matérias que, supostamente, os deveriam preocupar em exclus
ivo.

Compreende-se que, muito naturalmente, ao Partido Socialista conviesse propalar tal ideia. Porém, é de tal modo paradigmática a atitude do referido grupo parlamentar que, por mais voltas e reviravoltas que dêem, nunca sairão bem do retrato.

Se não, vejamos. Completamente exaurido, julgava o povo não poder mais com a carga de impostos que tem vindo a suportar e eis que se avizinha um ano inimaginável. Ora bem, é precisamente numa altura como a que estamos a atravessar, com os cidadãos causticado por tantos sacrifícios, que os senhores deputados arranjaram maneira de escandalizar quem está cada vez menos disponível a aturar-lhes a bizarria de quaisquer mordomias.

Muito bom sintoma é este. Muito nos deve animar a circunstância de verificar que o povo se insurge contra tais testemunhos de abuso, que não encontram paralelo em países ricos, como os escandinavos, onde tudo se pauta com uma cuidadosa contenção nos gastos dos dinheiros públicos, exactamente no respeito pelo esforço dos cidadãos na disponibilização das verbas e no sentido de não ferir a sua susceptibilidade.

Se esses senhores – hoje, do grupo parlamentar do PS mas que, amanhã, não tenhamos a mínima dúvida, poderiam ser do PSD – pretendem fazer-se deslocar em viaturas que, enfim, ultrapassem a classe das utilitárias, pois, então, que as adquiram com os seus dinheiros pessoais. Não fariam mais do que, nos tempos da «outra senhora», fazia, por exemplo, o Dr. José Gonçalo Correia de Oliveira, Ministro da Economia e delfim de Salazar, que tinha a mania dos mais sofisticados automóveis, chegando a ter um Aston Regina Marti Evaldin DB6, vários Jaguar de diferentes modelos, Alfa Romeo, Facel Veja e eu sei lá que mais. Mas, atenção, eram pagos com o seu dinheiro, dele que era um homem rico, nascido numa família rica, com suficientes cabedais para sustentar tão requintados gostos.

Nos tempos que correm, como assim não podem fazer, isto é, como não têm de seu para pagar o luxo que julgam ter direito, muitos dos actuais políticos apenas se dão ares… E, portanto, com o dinheiro dos contribuintes, fazem ridículas figuras de papalvos, de pacóvios, protagonizando a atitude dos deslumbrados que, nunca tendo tido acesso a certos meios e a certos bens, se convenceram de que, ao volante dos automóveis em questão, as suas medíocres pessoas beneficiarão do estatuto a que aspiram…

O grande problema é que é gente deste baixo calibre e tanta falta de nível que acaba por ocupar os cargos do poder, delegado pelos eleitores, subvertendo os mecanismos da democracia. Urge não lhes dar descanso, urge desmascará-los, desacreditá-los, ridicularizá-los agora e quando tiverem o descaramento de se apresentarem ao eleitorado.

Não há como não conversar acerca deste assunto com os nossos miúdos, nas escolas, em casa, evidenciando o péssimo exemplo de quem mina a cidadania. Só assim, ajudando a entender e a descodificar comportamentos tão desviantes, talvez possamos ter a dita de nos livrarmos destes videirinhos ordinários.


Despudor sem limite

[Texto publicado no facebook em 11 de Setembro]


Através da TVI, acabamos de saber que o grupo parlamentar do Partido Socialista adquiriu quatro automóveis novos, de topo de gama, VW Passat e Audi A5, recorrendo ao orçamento da Assembleia da República, isto é, usufruindo de verbas disponibilizadas por todos os contribuintes.

Mais se soube que qualquer dos outros grupos parlamentares dispõe de viaturas que, para todos os efeitos, ou são menos espampanantes, mais económicas, mais antigas ou, no caso do BE, nem sequer as adquiriram, preferindo alugar quando necessário. Disse o leader parlamentar do PS que, deste modo, poupam mais de 100.000 Euros/ano em relação à frota que substituíram.

A propósito, logo nos lembramos de várias empresas públicas - não se recordam do caso da Companhia das Águas? - cujos gestores também pretendiam iludir o povo, exactamente com o mesmo argumento, para, despudoradamente, se fazerem passear em automóveis de luxo quando nem condições havia para se transportarem de carroça.

No mesmo país que, inadvertida e irresponsavelmente, o Partido Socialista conduziu à bancarrota, melhor seria que os membros do seu grupo parlamentar tivessem um pingo de vergonha e nos poupassem estas lamentáveis cenas de pacóvios deslumbrados com mordomias que custam o sangue, o suor e as lágrimas de um povo sofrido e exaurido. Não haverá quem os contenha?

Claro que o «arco do poder» é tão medíocre que, actualmente, em substituição de tão maus governantes, estamos sendo governados pela equipa dos mais incompetentes desde o Vinte e Cinco de Abril. São péssimos, é verdade, continuam perfeitamente às aranhas, com a troika de permeio, fazendo-nos pagar juros de agiota por empréstimos incomportáveis, no quadro de uma economia que nem sequer gera a riqueza necessária ao serviço da dívida.

Contudo, cumpre não esquecer que, na aflitiva situação que o país atravessa, os mesmos senhores que nos trouxeram à bancarrota, não hesitaram em comprar, com o nosso dinheiro, bens perfeitamente dispensáveis. Não, meus senhores, ao contrário do que possa sugerir-se, isto não é um episódio insignificante, onde estão em jogo «só» umas centenas de milhar de euros, coisa desgarrada, inconsequente.

Inadmissível seria que se confundisse este e outros comentários congéneres com qualquer ponta de demagogia. Nem por sombras! Tenho, temos, isso sim, o direito a concluir, perante as evidências, que prevalece a mesma mentalidade de sempre. É a mesma gente. É o mesmo escândalo. É, sem qualquer hipérbole, o horror institucionalizado a minar os frágeis alicerces de um Estado Democrático de Direito servido pelos piores dos piores. Que lástima!


 


 


quinta-feira, 11 de outubro de 2012




Assembleia Municipal de Sintra,
10 de Outubro de 2012, o essencial

 

Ontem à noite, 10 de Outubro, sessão extraordinária da Assembleia Municipal de Sintra no Auditório Acácio Barreiros do Centro Cultural Olga Cadaval. Estive naquela reunião do Parlamento local mas não venho contar-vos detalhes acerca do andamento do processo relativo à supressão de freguesias. Certamente, qualquer dos órgãos de comunicação social presentes se encarregará de informar e circunstanciar, muito melhor do que eu faria.
O que me traz é outra matéria, lateral quanto ao cerne da questão que lá se aflorava, ainda que suscitada pela discussão. Primeiramente, sem perder mais tempo na introdução, desde já o meu frontal repúdio pelo modo evidentemente descortês, como um (embora ainda pudesse referir outro) elemento da bancada socialista – faço a justiça de não confundir nem o Partido Socialista nacional, nem mesmo o local, onde conto com amigos, com a inqualificável prestação de um deputado municipal – que desrespeitou a própria Assembleia e o Presidente da Câmara Municipal. A propósito, cumpre esclarecer que, nem a CDU nem o Bloco de Esquerda, as outras duas organizações partidárias da oposição local, pisaram o risco da decência que, a todo o transe, deveria ter prevalecido.

Naturalmente, não tenho procuração do Prof. Fernando Seara, nem ele precisaria de defesa e, muito menos, de tão impreparado advogado como eu. Mas, de facto, escandalizou-me que, directamente, um senhor deputado tivesse chegado ao ponto de o acusar de cobardia. Nem mais nem menos, cobardia! Hão-de concordar que só uma grande capacidade de encaixe permite que, publicamente, o visado não perdesse as estribeiras…
Neste e noutros enquadramentos em que é suposto imperar a urbanidade, de tal modo que se possa participar numa reunião congénere sem qualquer sentimento de desconforto consequente da falta de maneiras, bom seria que a educação do berço – que nem tem a ver com os maiores ou menores recursos da família nem com apelidos com mais «de» ou «e» – a todos permitisse a prática da civilidade e o exercício da elegância. Enfim, infelizmente, assim não é.

Todos sabemos que a discussão e o debate de ideias, em Liberdade, numa assembleia democrática, pode e deve acolher momentos de grande vivacidade e até de contundência. É bom que assim seja e para isso todos estamos preparados, nomeadamente, os que ainda vivemos algumas décadas sob um regime em que o sagrado princípio da liberdade de expressão estava arredado e amordaçado. Mas há limites que cumpre observar no sentido de evitar a ofensa pessoal.
O que, tão energicamente, ontem feriu a minha susceptibilidade foi o modo absolutamente blasé como aquele senhor ofendeu pessoalmente o Presidente da Câmara, afinal, um seu colega autarca que, tal como ele, jurou defender os interesses dos cidadãos que os elegeram, numa plataforma de convivência democrática em que atacar e defender ideias é um inquestionável e nobre exercício. Que isso se confunda com ataque e ofensa pessoal será sempre absolutamente lamentável.

E, ao fim e ao cabo, na opinião de tão douto tribuno, representante do PS, cobarde, porque o Prof. Fernando Seara, antes de se pronunciar, em definitivo, quanto ao processo em curso sobre a supressão de freguesias, se permitiu – coisa inaudita! – estudar exaustivamente a Lei  vigente e propor aos seus pares do executivo municipal que  suscitassem  a intervenção da instância parlamentar de São Bento que, para o efeito, está prevista e disponível. E, de facto, toda a vereação concordou com tal iniciativa.
Ele próprio, aliás, teve ocasião de o sublinhar com a maior veemência. Fê-lo, puxando pelos galões académicos, lembrando como, quando necessária, é importante a atitude que conduz ao estudo aturado, consequente, exaustivo, cansativo como tantas vezes acontece. Mas, ironia das ironias, num país em que impera a ligeireza, a rapidez da decisão [?!?], num país de gente tão proverbialmente «despachadinha», dos Relvas e quejandos, no reino dos Acácios de garantido sucesso, quem ousa estudar e, subsequentemente, perguntar e esperar pela resposta, arrisca-se a levar em cima com o labéu de cobarde e oportunista…

Eis o que, fundamental e essencialmente, se me oferece reportar-vos acerca da sessão extraordinária da Assembleia Municipal de Sintra de 10 de Outubro de 2012. Quanto à reorganização administrativa do concelho, aqueles que há anos acompanham o que tenho vindo a publicar acerca do assunto, sabem que não advogo qualquer supressão ao total das vinte freguesias do actual e ingovernável concelho e, a contrario senso do main stream, que privilegiaria a constituição de mais um ou dois concelhos, equacionados a partir de coerências socioeconómicas, culturais e geográficas das freguesias, que determinariam as afinidades dos agrupamentos. E, como também não desconhecem, sempre o fui propondo sem ofender fosse quem fosse e  com o objectivo de contribuir, com o meu modesto testemunho, para a promoção da qualidade de vida dos meus concidadãos.           


Doutora Hildegarde

[Texto publicado no facebook em 8 de Outubro]
 
Por decisão de SS Bento XVI, Santa Hildegarde von Bingen (1098-1179), passou a emparceirar com os doutores da Igreja Católica Apostólica Romana. Em boa verdade, ontem foi dia grande porque idêntica decisão recaiu sobre outra figura máxima da hagiografia cristã, o místico espanhol São João da Cruz que, nestes preparos de tão ilustre doutoramento, vai emparceirar com a sua conterrânea Santa Teresa de Ávila.

Naturalmente, para todos quantos se reclamam dos benefícios do Conhecimento, estas são personagens que ultrapassam as fronteiras da Fé para se agigantarem no mundo profano como referências indeléveis da Cultura de todos os tempos.

Hoje, no entanto, a nossa especial atenção, apenas para Santa Hildegarde. Médica de vanguarda, visionária, poeta e compositora, mas igualmente empenhada em variadíssimos domínios do saber, não surpreendendo que, novecentos anos depois da morte, o seu magistério permaneça incrivelmente actualizado.

Trago-vos uma gravação altamente recomendável de um excerto da "Symphonia harmoniae ecclaestium revelationum", do Liber Divinorum opernum, pela Accademia San Felice, com a belíssima voz do soprano Barbara Zanichelli como solista. Foi registada no Mosteiro de San Mininiato al Monte (quem conhece Firenze, sabe a que imprescindível espaço me refiro), em 2006.

Boa audição!
 



Mozart,
Sinfonia No. 26


Há um qualquer efeito de cascata no que se refere à produção sinfónica de Mozart durante o ano de 1773, em que escreveu nada mais nada menos do que sete sinfonias, antes de um lapso de quatro anos. Três destas obras
são compostas no quadro do designado «estilo italiano» como Aberturas.

Tal é o caso da No. 26, KV. 184, em Mi bemol Maior, uma pequena obra-prima, instrumentada para uma orquestra mais dilatada, 2 flautas, 2 oboes, 2 fagotes, 2 trompas, dois two trompetes a e cordas. Estruturada em três andamentos, o ’Molto presto’, 4/4, inicial insinua-se à laia de concerto, seguindo-se um ’Andante’, 2/4, em Dó menor que, tão nitidamente, contrasta com a tonalidade geral e, finalmente, um ’Allegro’, 3/8.

Continuamos fiéis à interpretação da Mozart Akademie Amsterdam, sob a direcção de Jaap Ter Linden.

Boa audição!

 



Contra o efémero

[]Texto publicado no facebook em 5 de Outubro]


Ontem, pela voz de Francisco Assis, durante a discussão das moções de censura apresentadas por PCP e BE, hoje, nas palavras de António Costa, nas comemorações oficiais do 5 de Outubro, o Partido Socialista teve representantes à altura do momento que atravessamos. Finalmente!

Depois de dias e dias da mais que coleante e titubeante atitude de António José Seguro – a quem, como há anos venho dizendo e escrevendo, não se reconhece qualquer ideia digna de registo, o que, em abono da verdade, o coloca exactamente na mesma plataforma que Pedro Passos Coelho – depois das costumeiras reacções de circunstância às propostas de um governo perfeitamente despudorado, em que Seguro nada de substancial se afirmou para além do óbvio, houve quem viesse salvar a honra do convento.

Partindo do princípio de que escrevo para gente atenta, que escutou e ou leu as palavras a que me refiro, dispenso-me de os citar. Aliás, o mesmo faço em relação a Manuel Alegre cujo testemunho acabo de ouvir no âmbito dos trabalhos do Congresso Democrático das Alternativas, que também hoje decorre na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Longe de se confinarem aos limites do partido a que pertencem, são vozes às quais não é difícil reconhecer autoridade quando se pronunciam por um Socialismo que vem de longe e se projecta no futuro.

Em 17 de Junho de 2011, escrevia eu, a terminar um artigo oportunamente publicado:

“(…)Entretanto, numa estratégica e sábia reserva, as boas cabeças esperam pelo momento de aparecerem. Compreensivelmente, trata-se de uma elite que recusa partilhar o poder com os folclóricos pacóvios que vão proliferando como cogumelos. Ora bem, é neste túnel de desmedida e negra ignorância que, por enquanto, vamos esperando a luz que, fatalmente, surgirá. Por enquanto, ainda é o tempo dos Seguro e Passos Coelho. Obviamente, pois que sejam eleitos! Um dia destes, obviamente, serão demitidos…”

Embora pareça que o país não pode esperar nem mais um minuto…
 
 


A propósito

Depois da comunicação de Vitor Gaspar nos termos da qual ele próprio se referiu a um enorme aumento de impostos, também ouvi os comentários de José Gomes Ferreira na SIC e entendo mal como, de algum modo, ele acaba por acolher estas medidas sem acrimónia.

Tudo isto é indecoroso. No entanto, paulatinamente, estes Moedas, Passos Coelho, Gaspar, Borges & Cª, vão abrindo o caminho para que, no futuro, seja qual for a situação, o terreno esteja tão minado que, fundamentalmente, os baixos custos do trabalho, o medo institucionalizado, escancarem a porta a toda a perversidade decorrente do capitalismo de casino descontrolado.

Sabemos dos incompetentes que nos trouxeram a este descalabro e, passados poucos meses da bancarrota pela qual são responsáveis, também confirmámos aquilo que já prevíamos, portanto, que o actual executivo é incapaz de remediar situação tão complexa.

No contexto destes sucessivos destemperos, alguém alvitra no sentido de que o"caso" da TSU foi criado precisamente para dar problemas, com o objectivo de suscitar a ideia de haver um recuo por parte do Governo, para que este pudesse fazer passar medidas muito mais gravosas.

Não é que isto não nos tenha passado pela cabeça. Porém, é coisa demasiado sofisticada para ter sido congeminada pelo primarismo destes governantes de pacotilha. É perfeitamente plausível que, perante hipóteses tão inusitadas, como a do caso TSU, pretendamos encontrar uma justificação inteligível e, inclusive, não recuemos perante algo que se revela quase ou mesmo maquiavélico. Mas a coisa não colhe. Estes tipos são muito básicos, muito rascas, embora extremamente competentes na condução do seu programa de redução, a todo o transe, dos custos do trabalho.


Mozart,
Sinfonia no. 25


Depois de um interregno, que se prolonga desde o dia 20 do passado mês de Setembro, retomo a série total das sinfonias de Mozart , hoje com a Sinfonia em Sol menor, KV 183/173dB, acabada de compor em 5 de Outubro de
1773, apenas dois depois após a precedente sinfonia Nº 24, facto que não está absolutamente comprovado, e pouco tempo depois do sucesso obtido pela sua ópera “Lucio Silla”.

Chamo a vossa atenção logo para os primeiros acordes já que foi esta a peça escolhida por Milos Forman para início do “Amadeus”, filme que, como sabem, de modo algum, corresponde a uma biografia do compositor.

Mozart escreveu duas sinfonias em Sol menor, ou seja, esta – também conhecida como a ‘Sol menor Pequena’ e, muito mais tarde, em 1788, a famosíssima Nº 40, KV 550. Preciso é ter em consideração que a maioria das sinfonias do século dezoito é composta em tom maior, aparentemente, adequando-se muito mais à optimística grandeza e pomposa solenidade do que aos matizes mais escuros e sentimentos mais apaixonados afins das obras em Sol menor. É um pouco nesta linha que se move uma corrente da musicologia pretendendo ver nestas peças a marca de um pré ou proto-romantismo, coincidente com o movimento Sturm und Drang.

Em contraste com as sinfonias da década precedente, estas obras têm em comum um uso muito mais frequente do contraponto, súbitos saltos temáticos, maior utilização das síncopes – ou seja o recurso ao padrão rítmico em que um som é articulado na parte fraca do tempo ou compasso, prolongando-se pela parte forte seguinte – finais mais prolongados e ocorrência muito mais frequente de segmentos em uníssono.

Ainda a propósito, convirá ter presente que, muito antes de ter composto esta Sinfonia KV. 183, o jovem Mozart conhecia todas estas particularidades. Lembremos o que, já a propósito desta série de artigos introdutórios às sinfonias de Mozart, eu próprio referi quanto à KV. 118, datada de dois anos antes. E, ainda mais extraordinário, se recuarmos ao período da infância, nomeadamente, a 1764 (nos seus oito anos de idade, durante a estada em Londres), quando esboçou num caderninho de notas uma peça para tecla – precisamente, em Sol menor, KV 15 - em estilo quase orquestral, que já captava o carácter tempestuoso que tem sido erroneamente proclamado como original de um período posterior.

A obra desenvolve-se de acordo com a estrutura clássica de quatro andamentos ,1. Allegro con brio, 4/4 em Sol menor, 2. Andante, 2/4 em Mi bemol Maior, 3. Menuetto /Trio, 3/4 em Sol menor e Trio em Sol Maior e, finalmente, 4. Allegro, 4/4 em Sol menor. Ainda de assinalar que haverá influências da Sinfonia No. 39 de Joseph Haydn, que também obedece à tonalidade de Sol menor.

Mais uma magnífica interpretação, desta vez da Filarmónica de Viena, sob a direcção de Leonard Bernstein que, enfim, até nem é um notável mozartiano. Não disponho da data da gravação mas, apesar de já ter uns bons anos, reconheço uma série de músicos, como o omnipresente clarinetista Peter Schmidl, logo no inicial Allegro com brio.

Boa audição!
 
 
 
 
São Tiago,
uma carta contundente
 
[Texto publicado no facebook em 30 de Setembro]

Entre outras fontes essenciais, o meu catolicismo cristão radica em textos absolutamente estruturantes, não só da Fé que professo, mas também da intervenção cívica que reivindico e da cidadania que, devo confessar, gostaria de partilhar, com muito mais evidência pública e notória, com os cristãos católicos da minha comunidade. Provavelmente, outros fossem os pastores e outra, muito diferente, seria a prática quotidiana de tantos cidadãos, afinal, ávidos da palavra que é preciso animar, isto é, fazendo brilhar o ânimo que contém.

Vem isto a propósito da epístola da Missa de hoje, extraída do Livro de Tiago, Cap. 5 [1-6]. Num momento tão especialmente difícil da vida comunitária, em que o Governo do Estado se escusa e recusa ir buscar aos ricos e poderosos a quota parte que lhes compete para o esforço comum, eis que São Tiago profere algumas das palavras mais certeiras contra a atitude dos acima referidos, que se conduzem através da olímpica ignorância dos direitos dos mais desfavorecidos.

São palavras que qualquer revolucionário, a começar pelo próprio Jesus de Nazaré, subscreveu e continuará a assinar em todos os tempos e lugares onde for justo e oportuno. Porém, ontem, na Missa vespertina da nossa comunidade, o celebrante passou por este texto como cão por vinha vindimada. Com uma oportunidade destas para alertar consciências em patológico letargo, será que Sua Reverência assim terá decidido porque Arménio Carlos, em pleno Terreiro do Paço, já lhe teria feito o favor?

Bem, o melhor é acederem ao texto que passo a transcrever. Não tenho a menor dúvida de que, enquanto inevitáveis herdeiros da cultura judaico cristã que é a nossa, incluindo agnósticos e ateus, não deixarão de concluír como, com estas palavras, São Tiago nos fornece um tão grande motivo de orgulho.

“1.Agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos, por causa das desgraças que vão cair sobre vós.
2.As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão roídas pela traça.
3.O vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e devorará as vossas carnes como fogo. Acumulastes tesouros no fim dos tempos. 4.Fraudamente, privastes do salário trabalhadores que ceifaram os vossos campos. O seu salário clama e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhordo Universo.
5.Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança.
6.Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.(…)”

Foi por lembrarem verdades como esta e outras dos Evangelhos, que, por exemplo, nos anos 50 e 60, os Padres Adriano Botelho e José da Felicidade foram perseguidos pelo regime e pela própria Igreja. Conheci-os pessoalmente, devo-lhes, desde criança e jovem, uma perspectiva do entendimento da Vida que tento honrar. Mas, meu Deus, por vezes, tanto retrocesso!...