[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013



Mozart, trilogia sinfónica
na Mozartwoche 2013

[Texto publicado no facebook em 26 de Janeiro de 2013]


Apenas uma nota prévia às considerações que farei acerca do concerto de ontem à noite. Na Mozartwoche, todas as propostas são do mais alto nível. Desde 1956, ano do início deste festival, a Stiftung Mozarteum não faz qualquer concessão à mediania. Os eventos podem correr mal e, 
em tantos anos que aqui venho, tenho boas histórias de espectáculos que correram mal ou mesmo muito mal, o que não significa que, à partida, não constituíssem apostas estimulantes.

Portanto, durante todo o festival, antes de qualquer dos espectáculos, tal como ontem fiz, poderei sempre evidenciar a excepcionalidade do que aqui acontece. Ontem, fi-lo por se tratar de um programa que envolve uma tríade de peças geralmente considerada como o testamento sinfónico de Mozart e que, tão recentemente, como deverão lembrar-se, também eu abordei ao escrever as notas que convosco partilhei no fim do «curso» que vos propus sobre todas as sinfonias de Amadé.

Ora bem, Sir Simon Rattle sabe perfeitamente o terreno que pisa quando , em Salzburg, se apresenta à frente da inglesíssima Orchestra of the Age of Enlightenment (OAE), num dos auditórios mais emblemáticos como é o do Grosses Festspielhaus, perante um público sempre muito exigente quanto à leitura e interpretação do «seu» Mozart, pelas melhores orquestras alemãs e austríacas que gostam de reivindicar o melhor serviço ao grande génio aqui nascido.

Nesta mesma sala, há dez anos, assisti eu aos primeiros passos de Sir Simon Rattle como Director do Festival da Páscoa de Salzburg. Cumpre lembrar que Herbert von Karajan, natural desta cidade, foi quem fundou o Festival da Páscoa e o dirigiu pela primeira vez. Depois da sua morte, os maestros que se lhe seguiram também têm assumido a direcção do Österfestspiel que pressupõe uma especial relação com esta cidade. E Sir Simon tem, de facto, essa relação especial com Salzburg.

Por outro lado, a sua relação com a OAE vem de 1992, portanto, há mais de vinte anos, quando foi designado seu ‘Principal Guest Conductor’. Actualmente é ‘Principal Artist with the OAE’, uma excelente formação orquestral cuja fama e proveito nós, portugueses, bem conhecemos das suas deslocações à Gulbenkian, sob a direcção de Franz Brüggen.

Em Salzburg, tal como Sir Simon Rattle, também a OAE nada veio arriscar e, isso sim, apenas confirmar o altíssimo nível das prestações que fazem o seu já longo palmarés. Mozart teve o mais fiel servidor através da leitura que ontem tivemos o privilégio de viver. Nada falhou, numa obediência rigorosa aos tempos, às pausas – e que longas pausas Sir Simon é capaz de fazer aguentar os músicos e o público, na correctíssima perspectiva que pausa é sofisticadíssima música – sereno mas arrebatado, dominando todos os matizes das partituras, privilegiando uma sábia adequação da dinâmica, jamais concedendo a mínima facilidade e, em suma, evidenciando como é de bastidores, e não fruto de exuberância no palco, a grande tarefa de qualquer maestro.

A exemplo do que quase sempre acontece, o Grosses Festspielhaus estava esgotadíssimo, nos seus dois mil e trezentos lugares, vivendo uma das maiores festas sinfónicas que é possível. O grande legado sinfónico de Amadé continua bem entregue. E, no ano que vem, também na Mozartwoche, há mais. Para o dia 1 de Fevereiro de 2014, já está anunciado um concerto com a Orquestra Filarmónica de Viena, com o mesmo programa, sob a direcção de Daniel Barenboim.

Vou deixar-vos com um momento absolutamente genial, de uma inspiração inultrapassável, do terceiro andamento, Menuetto-Trio, da Sinfonia KV. 543, a primeira da trilogia, numa fabulosa leitura de Karl Böhm, dirigindo a Orquestra do Royal Concertgebouw de Amsterdam, em 1955.



http://youtu.be/f531-rRjipM


Ontem, “Lucio Silla”

[Texto publicado no facebook em 25 de Janeiro de 2013]


Pois, meus amigos, “Lucio Silla”, a ópera de Mozart que inaugurou a edição de 2013 da Mozartwoche de Salzburg, tem todos os ingredientes para produzir récitas de alto gabarito. A de ontem poderia ter sido memorável não
fosse o facto de Rolando Villazón, no protagonista, ainda estar com a voz muito afectada, fruto de anteriores abusos, com os defeitos decorrentes do empenho nas árias «de bravura» e longe da prestação exigida aos tenores que se aventuram nos terrenos mozartianos. Em alguns momentos, chegou a ser penoso ouvi-lo.

Quanto ao soprano Peretyatko, enfim, nada de particularmente entusiástico, mas a revelar-se muito bem nas árias 4. Dalla sponda tenebrosa e 11. Ah se il crudel periglio que exigem grande sofisticação e domínio, muita contenção de todos os recursos vocálicos e expressivos.

Excelente, isso sim, Marianne Crebassa, meio-soprano, no ‘Cecilio’ ainda muito jovem mas a prever voos formidáveis. Também em muito bom nível, os sopranos Inga Kalna e Eva Liebau, respectivamente, em ‘Lucio Cinna’ e Celia.

Marc Minkowski trabalhou a partitura a partir de representações anteriores sob a direcção de Harnoncourt e de Jean-Pierre Ponnelle. Les Musiciens du Louvre, sob a sua direcção, estiveram ao mais alto nível que se lhes reconhece.

A encenação, a cargo de Marshall Pynkoski, tem soluções extremamente eficazes que concorrem para uma assinalável fluidez de todo o espectáculo que, nas suas quase três horas de duração, em três actos, apenas com um intervalo, exigiu um ritmo que se revelou perfeito.

Cenários e figurino de Antoine Fontaine, confirmando como é um grande senhor dos palcos, artista de talento a rodos. Elemento essencial do sucesso, a coreografia, muito eficaz, de Jeannette Lajeunesse Zingg, ela própria integrando um corpo de bailado de alto nível artístico.

Quando regressar a casa, voltarei a partilhar convosco mais algumas impressões sobre este espectáculo. Para já, o que ainda espero, é ter a dita de assistir a uma récita desta produção, mas com um bom tenor mozartiano e em boa forma...

Como sou muito vosso amigo, aqui vos deixo uma interpretação primorosa da ária referida "Dalla sponda tenebrosa" por Edita Gruberova, uma mozartiana irrepreensível.

Boa audição!

http://youtu.be/K3bIrjllFZ8
 


[Passo a transcrever o artigo que subscrevi para a edição de hoje, 25 de Janeiro de 2013, do ’Jornal de Sintra’. É curioso que, ao escrevê-lo, ainda desconhecia que a Parques de Sintra Monte da Lua iria promover uma acção de voluntariado que, de algum modo, também eu propus no post scriptum.

Como sabem, estou em Salzburg. Hoje de manhã passei em Mönchsberg e, agora à tarde, acabo de regressar de Kapuzinerberg, lugar
es aos quais se reporta a «lição» referida no texto. Tudo continua a correr favoravelmente. É fantástico como, tendo a tempestade acontecido há apenas meia dúzia de anos, com consequências horríveis, hoje em dia até pareça que nada aconteceu.]

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A tempestade e uma lição alheia

A meio da manhã do passado sábado, durante a minha caminhada, tanto quanto logo se me evidenciou, pelo que senti, vi e me apercebi, a situação era preocupante. Havia muitas árvores rachadas, caídas por todo o lado, desde a Estefânea a São Pedro, por um lado, ou, por outro, na Volta do Duche, junto ao muro da quinta que bordeja o passeio do lado esquerdo em direcção ao centro histórico.

Mais ou menos longe, mesmo não avistando os carros de bombeiros, as sirenes bem davam conta do desusado movimento de socorro em acção. Continuando o meu vaivém, tropecei em imensos troncos, tronquinhos, ramos, muitos ramos e volumosas ramadas que as rajadas foram arrancando. Olhando para cima, em direcção ao Castelo dos Mouros e à Pena, tive a certeza de que as coisas não poderiam deixar de ameaçar as mais funestas consequências.

De qualquer modo, a dança das árvores, a firmeza de algumas centenárias, grossas, quase impávidas, enquanto à sua volta tudo andava num remoinho , a chuva abatendo-se em bátegas espessas, descendo e redopiando à velocidade das rajadas, o ranger das madeiras doridas da violência dos elementos, de qualquer modo, repito, um espectáculo sublime, num ritmo avassalador que os sentidos mal acompanham.

Regressando a casa, recebi uma nota do gabinete de comunicação da Parques de Sintra Monte da Lua que, nas linhas e entrelinhas bem expressava o que era preciso ir ver à serra. E, não sendo fácil a aproximação dos locais, lá fui como pude. Na Quintinha, junto a Monserrate, junto ao portão do Châlet da Condessa, num dos extremos do Parque da Pena, em especial neste último lugar, a desolação mais confrangedora.

A casa do guarda atingida, um gigante caído a poucos metros do châlet, o jardim indescritivelmente sofrido, a fúria estampada nos verdes desgrenhados, nos castanhos matizados de troncos enegrecidos, canteiros e caminhos enlameados por escorrências descontroladas… E os rostos abatidos, os ombros caídos, sob os oleados molhados, de quem se dói e condói, perante tanta destruição. Que ira aquela, dos elementos que não pouparam o jardim, amoroso, à volta do ninho dos amores… Agora, quanto e quanto trabalho, de mais e mais recuperação, quando tudo ainda estava tão fresco.

Uma estupenda lição

Deixo o local e vou avançando. Há uma quantidade enorme de árvores derrubadas, Fala-se em duas mil, não sei. Enquanto uma natural tristeza ia tomando conta de mim, logo me ocorreu um cenário muito semelhante, só que muito branco, de neve por todo o lado, que presenciei, há uma meia dúzia de anos, na montanha que, de um e outro lado do rio Salzach, emoldura o grande vale ocupado pela cidade de Salzburg.

Ventos ciclónicos, de mais de duzentos quilómetros à hora, tinham arrasado centenas de velhíssimas árvores, anteriores a Mozart e a Haydn que, há mais de duzentos e cinquenta anos, já se passeavam sob as suas densas copas. Naquela altura, os caminhos de Mönchsberg e de Kapuzinerberg, que sempre procuro com a avidez de quem sabe ir encontrar o que só ali existe, estavam diferentes. Tinham acolhido cadáveres gigantescos. De campo santo, isso sim, era o ambiente.

Como costumo fazer estadas prolongadas, fiquei na cidade o tempo bastante para beneficiar de uma das melhores lições que, afinal, tão negativo cenário poderia ter suscitado. Muito resumidamente recordo que as autoridades florestais da região aproveitaram o ensejo para fazer pedagogia pública, precisamente, naquele cenário de calamidade.

Através de painéis estrategicamente distribuídos, circunstanciaram as origens da tempestade e, tendo fotografado as imediatas manobras de remoção, corte e aproveitamento da matéria lenhosa, reproduziram tais documentos que ilustravam curtos textos, muito acessíveis. E, meus caros amigos, no que me pareceu uma das melhores atitudes, noutros painéis, o discurso era no sentido de sossegar as pessoas.

Por um lado, informavam que as consequências da calamidade estavam devidamente enquadradas e que teriam um constante apoio técnico, de acordo com um cronograma também anunciado e, por outro, não deixavam de lembrar a capacidade de regeneração natural, em todos os aspectos, tanto ao nível da flora como da fauna locais.

Uma estupenda lição, assim escrevi em subtítulo. De facto, foi. De facto, continua sendo. Depois deste episódio, já não sei quantas mais vezes lá tenho ido e sempre confirmando como «a lição» foi certíssima e permanece totalmente adequada. Quando lerem estas linhas, é curioso, já estarei novamente em Salzburg. E, de certeza, depois das subidas a Mönchsberg – provavelmente, aquando de uma das minhas visitas ao Museu dos Modernos – ou a Kapuzinerberg, pelo Stefan-Zweig-Weg, passando algumas manhãs e tardes, lá estarei dando conta da formidável maneira como, com a sábia intervenção do Homem, a natureza reage tão surpreendentemente.

Já enviei um recorte destas impressões à Parques de Sintra Monte da Lua, em especial, ao cuidado do Prof. António Lamas e do Engº Nuno Oliveira. [É verdade, porque não lhes enviam um abraço neste momento tão doloroso? Imaginam como gostariam dessa lembrança?]. Talvez seja possível fazer algo de semelhante numa altura em que estamos todos tão consternados. Uma boa lição, como sabem, não tem limite de réplica…

Ps: É verdade, só mais um «recado». Se estamos tão evidentemente preocupados com o que aconteceu, por exemplo, junto ao Châlet da Condessa, porque não nos oferecemos para dar uma ajuda no que for preciso? Ou seremos nós daqueles que nos limitamos a alinhar nas campanhas, subscrever umas petições e atirar «umas bocas» no facebook, no Dia do Voluntariado?

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]
 
 


Mozartwoche 2013

[Texto publicado no facebook em 24 de Janeiro de 2013]


Meus caros amigos, desta vez, enquanto estiver por aqui, irei partilhando umas impressões mas nada que se pareça com o que fiz no ano passado, precisamente durante a Mozartwoche, em que cheguei a cansar-me para manter o «compromisso».

Nestes próximos dias, contem apenas umas «dicas». Aliás, a edição de 2013 da Mozartwoche será para mim a primeira em muitos anos em que não assistirei a todo o Festival. Tenho compromissos em Lisboa que me impedem de aqui permanecer além do fim do mês e isto continua até 3 de Luis Fevereiro.

Como já vos tenho anunciado, o grande evento acontece precisamente hoje com a primeira de três récitas de "Lucio Silla", KV. 135 de Mozart. É uma novíssima produção em que a Fundação do Mozarteum se empenhou de modo muito especial.

Marc Minkowski - actual Director Artístico da Mozartwoche - dirigirá o seu 'Les Musiciens du Louvre Grenoble'. A encenação é de Marshall Pynkoski e, como vozes protagonistas, Rolando Villazón e Olga Peretyatko.

Hoje, entre as duas e as quatro da tarde, na Wiener Saal do Mozarteum, haverá uma mesa redonda subordinada ao tema "Lucio Silla ou: até que ponto está morta a 'opera seria do século dezoioto", com a presença de Mathias Schülz da Direcção do Mozarteum, e especialistas tão famosos como Christian Esch(Wuppertal), Ulrich Konrad (Würzburg) e até Peter Ruzicka (Hamburg).

Acreditem que, além da ópera, dos concertos e dos recitais, é muito por via destes debates, conferência, mesas redondas, ateliés, etc, que aqui venho. Aprende-se imenso com esta gente. São ocasiões únicas de concentração de conhecidos estudiosos cujas opiniões importa conhecer. Estão sempre a investigar, a descobrir novos caminhos mozartianos pelo que se revelam imperdíveis tais momentos.

Relativamente à récita de logo à noite na ‘Haus für Mozart’, ou seja, no antigo Kleines Festspielhaus, gostaria de vos deixar com uma ou duas pistas relativamente à voz da Peretyatko. Para o efeito, sempre abordando obras de Mozart, queiram ter em consideração as duas seguintes gravações.

Boa audição!



http://youtu.be/YOlbMr-vCYM

http://youtu.be/1IKUlnv9tfI
 
 



Mau tempo em Sintra


[Texto publicado no facebook em 19 de Janeiro de 2013]
 

 Já tenho partilhado convosco a minha prática diária de uma hora de caminhada, esteja onde estiver, faça o tempo que fizer. E, por vezes, como hoje, chovendo e com vento insuportável, o quadro não é nada convidativo. Mas, absolutamente formatado para os meus seis quilómetros da ordem, lá fui pelo percurso mais frequente, ou seja, desde minha casa, junto ao Centro Cultural Olga Cadaval, Correnteza, Alfredo da Costa, Volta do Duche, Palácio da Vila, Pisões, Regaleira, e por ali abaixo até ao desvio para a Fonte dos Amores, local onde retrocedo.

Tanto quanto me parece, pelo que senti, vi e me apercebi, por estas bandas, a situação é preocupante. Há muitas árvores rachadas, caídas por aí fora, em especial na Volta do Duche, junto ao muro da quinta que bordeja o passeio do lado esquerdo em direcção ao centro histórico, onde há espécimes de considerável altura mas de tal forma desguarnecidos que, em condições congéneres, estes episódios sucedem-se.

Mais ou menos longe, mesmo não avistando os carros de bombeiros, as sirenes bem davam conta do desusado movimento de socorro em acção. Continuando o meu vaivém, tropecei em imensos troncos, tronquinhos, ramos, muitos ramos e volumosas ramadas que as rajadas foram arrancando. Olhando para cima, em direcção ao Castelo dos Mouros e à Pena, tive a certeza de que as coisas não poderiam deixar de ameaçar consequências desagradáveis.

De qualquer modo, a dança das árvores, a firmeza de algumas centenárias, grossas, quase impávidas, enquanto à sua volta tudo anda num virote, a chuva abatendo-se em bátegas espessas, descendo e redopiando à velocidade das rajadas, o ranger das madeiras doridas da violência dos elementos, meu Deus, como tudo isto é belo, especialmente contundente mas belo, num ritmo que o nosso entendimento dificilmente acompanha em todo o detalhe.

Regresso a casa, ao conforto possível. De manhã ainda se circulava mas, acabo de saber que o trânsito foi cortado junto aos Paços do Concelho, onde a vereação tem estado reunida para acudir às emergências. Oxalá possa haver a competente resposta que os cidadãos esperam.

A propósito de competência, por me parecer conveniente, passo a dar conhecimento de uma nota que hoje me enviou Maria do Céu Alcaparra, do Gabinete de Comunicação da Parques de Sintra Monte da Lua:

“A Parques de Sintra, empresa responsável pela gestão de áreas como os Parques da Pena e Monserrate, Castelo dos Mouros e Convento dos Capuchos, em Sintra, esclarece o seguinte:

No seguimento das condições meteorológicas dos dias 18 e 19 de Janeiro, verificou-se a queda de muitas árvores na Serra de Sintra não se registando quaisquer feridos ou danos de maior.
No entanto, os Parques da Pena e Monserrate, Castelo dos Mouros e Convento dos Capuchos estarão encerrados ao público durante este fim de semana, no sentido de se removerem as árvores e ramos caídos, reabrindo apenas na Segunda-feira, dia 21 de Janeiro.

Na manhã de hoje (19 de Janeiro), alguns turistas ficaram retidos no Parque da Pena devido às árvores caídas na estrada. Para que não ficassem desabrigados durante o processo de desimpedimento da estrada, a Parques de Sintra disponibilizou espaços onde puderam permanecer até a mesma ser desimpedida. Neste momento já todos os turistas regressaram aos seus pontos de origem, não se tendo registado quaisquer incidentes ou problemas."

Finalmente, se alguém precisar de algum esclarecimento adicional fará o favor de contactar Parques de Sintra - Monte da Lua, pelo telefone 219 237 309 / 92 549 55 41 ou correio electrónico, maria.alcaparra@parquesdesintra.pt
 
 
 


Émilie, em Lisboa

[Texto publicado no facebook em 18 de Janeiro de 2013]


Ontem, na Gulbenkian assisti à primeira récita de Émilie, monodrama lírico de Kaija Saariaho, que já conhecia parcialmente através de excertos da gravação disponível da Opéra de Lyon.

A música de Kaija Saariaho tem um brilho especialíssimo, muito interpelante, suscitando constantemente a atenção do ouvinte-espectador. Barbara Hannigan está em boa forma, a orquestra sob a d
irecção de Martinez Izquierdo esteve à altura.

A proposta cénica é que, na concepção de Vasco Araújo e André Teodósio, me pareceu fraquinha, pouco ou nada acrescentando ao substrato musical, nada descodificando ou explicitando, com pobres intervenções de elementos da Companhia Nacional de Bailado.

A não ser, na minha perspectiva, esta componente menos positiva da Émilie de Lisboa, não vislumbro qualquer problema de comparação com o exemplo que ontem apresentei, na referida produção, com Karita Mattila na protagonista, na Opéra National de Lyon.

A propósito

Não poderei deixar de referir que a personagem real, Émilie du Châtelet, na qual se inspirou Amin Maalouf para o libretto, é, verdadeiramente, alguém a redescobrir. Faz-me lembrar imenso outra extraordinária mulher do século XVIII que, curiosamente, também foi amiga de Voltaire (só mesmo amiga, e correspondente em abundante epistolografia), a Princesa Friederike Sofia Wilhelmine da Prússia, irmã mais velha de Frederico o Grande, escritora, compositora, interessada em arquitectura, pintura, construção de jardins, artes decorativas, etc.

As minhas idas a Bayreuth têm contribuído, cada vez mais, para acrescentar fascínio maior por esta princesa, tão independente, culta e erudita que, pelo casamento, se tornou também Margrevina de Brandenburg-Bayreuth, personagem e personalidade absolutamente fascinante por quem me tenho perdido em leituras e outras demandas.
 
 


[Outra atitude de comemoração do aniversário de Dona Olga Marquesa de Cadaval. Transcrição do artigo publicado na edição de hoje, 18 de Janeiro de 2013, do Jornal de Sintra, aqui ilustrada com aproposta de audição de uma obra de Benjamin Britten dedicada a quem estamos a homenagear durante esta semana em Sintra]

Dona Olga, Marquesa de Cadaval,
mais um aniversário



Dona Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo (Cadaval), nasceu em Torino, aos 17 de Janeiro de 1900 e morreu em Lisboa, no dia 21 de Dezembro de 1996. Foi exemplar figura de grande senhora da Cultura Europeia, protectora da Música e de muitos músicos, através de meritória actividade mecenática que beneficiou Portugal, seu país de adopção.

É uma figura absolutamente fascinante que, em diferentes oportunidades, me tem levado a dedicar-lhe trabalho de imenso prazer. Tal é o caso da concepção de um documentário sobre a sua riquíssima biografia, projecto de equipa em que me incluo, ao lado de bons amigos, como Mário João Machado, ex Presidente do Conselho de Administração da SintraQuorum (Centro Cultural Olga Cadaval), João Pereira Bastos, ex director do Teatro São Carlos e da RDP Antena Dois, João Santa Clara, realizador de cinema e Vitor Beja, produtor.

O filme que faltava

Os cenários são os mais diversos, desde Sintra e a Quinta da Piedade, à herdade de Muge com as suas actividades agrícola e pecuária, e, como não podia deixar de ser, Veneza com o palácio no Grande Canal, casa da sua família materna, dos célebres Mocenigo, família que deu sete doges à cidade, palácio onde, em 1624, na sequência de encomenda de Girolano Mocenigo a Claudio Monteverdi, «só» foi estreada "Il Combattimento di Tancredi e Clorinda", importantíssimo marco da História da Música europeia.

Temos horas e horas de excepcional material recolhido em entrevistas, quer com alguns dos beneficiários directos do seu mecenato, tais como Daniel Barenboim, Nelson Freire, Olga Prats, Stephan Bishop-Kovacevitch, quer com seus amigos como Nella Maisa, os Engºs João Paes Freitas Branco ou Luís Santos Ferro, Maria Germana Tânger, Maria Barroso Soares ou Jorge Sampaio, com os Presidentes da Câmara Municipal de Sintra Edite Estrela e Fernando Seara, bem como com os seus netos, condes de Schönborn- Wiesentheid, e muitas mais pessoas.

Como não recordar, dentre a galeria dos amigos, os mais destacados dos mundos cultural, político, religioso, seus íntimos, desde Marinetti, Gabriele d'Annnunzio, Graham Greene, Saul Bellow, C. Chanel, Maeterlinck, Louise de Vilmorin, Francisco José - a quem a Marquesa se referia como «Il Kaiserone – Pio XII, Frau Cosima (filha de Liszt e viúva de Wagner) a Princesa de Polignac, Kenneth Clark, Marconi, a Duse, René Huyghe, para mencionar, desordenadamente, apenas alguns dos estrangeiros e não músicos?... Enfim, muitas, muitas histórias a contar acerca da vida desta senhora.

Prevê-se que, já no próximo Verão, no âmbito da 48ª edição do Festival de Sintra, este documentário seja publicamente apresentado. Trata-se de um filme cujos direitos de reprodução já foram assegurados pelo segundo canal da RTP, documento aquele que, estou em crer, poderá contribuir decisivamente para uma divulgação mais sistemática, tanto a nível nacional como internacional desta grande senhora da cultura europeia do século vinte.

Reparem que Dona Olga, senhora da mais alta linhagem da aristocracia europeia – que, além dos referidos doges venezianos, também conta com directos ascendentes em Frederico II da Prússia ou Catarina II da Rússia – se estabeleceu em Portugal, no princípio dos anos trinta, após o casamento com Dom António Caetano Álvares Pereira de Melo, Marquês de Cadaval, tornando-se notável o modo como se soube colocar à disposição de todos com quem se cruzou.

Muito especialmente, exerceu o mais desinteressado dos mecenatos, a favor de uma plêiade de jovens músicos, cujo extremo talento ela soube reconhecer e que se tornaram nos galácticos nomes que, hoje em dia, brilham ao mais alto nível nas salas de concerto, como os já mencionados Nelson Freire, Martha Argerich ou Daniel Barenboim. Passou a vida a dizer ao mundo como eram excelentes os jovens artistas que patrocinava e como, ao fim e ao cabo, todos se deviam render aos seus excepcionais dotes. Em troca, como afirmava, recebeu muito mais, ou seja, a Arte que serviam com o seu génio de extraordinários intérpretes.

Comemorações 2013

Durante esta semana, Sintra comemora o aniversário do nascimento de quem é a patrona do seu Centro Cultural. A meio da manhã do dia 17, alunos do segundo ciclo do Ensino Básico da vizinha Escola D. Fernando II, irão prestar-lhe homenagem, depositando flores junto ao seu busto, no átrio do referido edifício. Escrevo estas palavras na véspera deste evento que, na sua singeleza, se adivinha cheio de significado.

No dia seguinte, pelas dez da noite, o habitual concerto, também no mesmo Centro Cultural, desta vez, com a Orquestra de Câmara Cascais Oeiras, cuja ligação à Casa Cadaval é conhecida por ter sido na Quinta da Piedade, que foram dados os primeiros passos do agrupamento. Aliás, Dona Teresa, Condessa de Schönborn-Wiesentheid, neta da Senhora Marquesa, é membro fundador da Associação que, actualmente, dirige a instituição.

Do programa do concerto, sob a direcção do Maestro NiKolay Lalov, constam obras de Ottorino Respighi, Claude Debussy, José Viana de Motta e Benjamin Britten, compositores com evidentes traços de união à homenageada. Também na RDP, Antena Dois, tanto Paulo Alves Guerra, no «Império dos Sentidos», como André Cunha Leal, nas suas intervenções destes dias, incluindo a ocasião da transmissão do MET, em conversa com Ana Paula Russo, farão as referências que consideram mais pertinentes à memória de Dona Olga, Marquesa de Cadaval.

Sem grande hipótese de induzir em erro seja quem for, julgo estar em posição de poder afirmar que 2013 será um ano muito auspicioso para a preservação da sua memória, já que uma outra circunstância concorre para que assim seja. Como já sabem, entre outras grandes efemérides, vai comemorar-se o centenário do nascimento de Benjamin Britten. Ora bem, em Portugal e em Sintra, este evento virá sublinhar a articulação com a Senhora Marquesa Olga de Cadaval, precisamente por ter sido ela a dedicatária da Cantata “Curlew River”, datada de 1964, tendo ficado indissociavelmente ligada à história de mais uma peça importante na História da Música contemporânea.

Como sonhar ainda é possível, termino estas palavras de um texto que, naturalmente, faz parte da minha singela homenagem que se reparte por estes dias, alimentando a esperança de que, lá mais para o fim do ano – 22 de Novembro é a data do aniversário do grande compositor inglês - possamos ter a dita de assistir a uma récita de apresentação da referida obra.

[João cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

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>O artigo supra está ilustrado com um retrato da Senhora Marquesa cuja reprodução, neste momento, não me é possível. De qualquer modo, no Google, encontrarão uma boa galeria de fotos.
>Neste suporte do facebook, como posso propor a partilha de música, julgo vir a propósito recomendar-vos, mais uma vez, o excerto da Cantata “Curlew River” que já tive oportunidade de indicar aquando do último aniversário de Benjamin Britten, portanto, em 22 de Novembro de 2012.

Trata-se de uma aclamadíssima produção de Graham Vick – lembram-se do encenador do último “Ring” de Wagner em São Carlos? – que foi à cena, em 2004, por ocasião dos BBC Proms, no Royal Albert Hall em Londres. Se quiserem refrescar as notas de enquadramento desta peça tão especial no quadro de toda a obra do compositor, mais não têm do que consultar o arquivo.

Boa audição!

http://www.youtube.com/watch?v=JDPsoJZBPpw&feature=share&list=PLA393D79883D4C185
 
 
Homenagem à Marquesa de Cadaval
 
 
[Hoje, de manhã, 17 de Janeiro de 2013, as minhas palavras por ocasião da homenagem à Senhora Marquesa de Cadaval, no seu aniversário]
 

 Meus amigos,.

Acontece este acto, tão singelo, precisamente no local onde, constantemente, e sob as mais diversas formas, se celebra a Arte e vivem momentos de Cultura. É o local que a comunidade sintrense considerou adequado à perpetuação da memória de quem teve uma vida tão cheia, o...
cupada, preocupada e marcada pela Arte e pela Cultura, a Senhora Marquesa Dona Olga de Cadaval.

Se quiséssemos resumir em que consistiu a fundamental atitude de tão desinteressada mecenas, bem poderíamos dizer que passou muito do seu tempo numa total disponibilidade para quem mais carecia do seu apoio. Aconteceu isso em todos os domínios mas, como é do conhecimento geral, a sua intervenção, em especial no universo musical, nacional e internacional, foi absolutamente determinante no sentido de facilitar os primeiros grandes passos de jovens valores, a quem sabia reconhecer inquestionáveis méritos e dotes, apontando-os ao mundo como expoentes que evidenciavam as mais gratificantes promessas.

Antes de 1974, por vezes enfrentando alguns riscos dos sombrios tempos que enquadravam a vida cultural portuguesa, disponibilizou os seus conhecimentos, colocou ao seu serviço a rede de contactos dos amigos, soube estar atenta e, sempre que se lhe ofereceu o ensejo, jamais desperdiçou a oportunidade de promover os talentos, de contribuir para a excelência, de sublinhar a excepcionalidade. Ora bem, meus amigos, será que, à escala das possibilidades de cada um de nós, estaremos à altura desta nobre atitude, ou seja, da herança que recebemos da Senhora Marquesa de Cadaval?

E, perante estas crianças da nossa comunidade, crianças que, sendo o futuro, são o próprio tempo – como dizia o meu grande mestre Prof. Manuel Antunes – perante estas crianças, prestes a concretizar o gesto tão simbólico de oferecer flores à Senhora Marquesa, será que, interrogava eu, também nos poderemos comprometer com a nossa disponibilidade, para fazer tudo quanto estiver ao nosso alcance no sentido de reconhecer e respeitar a individualidade sagrada de todos os meninos, as suas características próprias, sempre a seu favor, nunca em seu prejuízo?

Permitirão que assim me expresse, sincera e comovidamente, curvado perante a memória desta senhora que, para mim, tem revelado um fascínio, cada vez mais surpreendente, à medida que mais e melhor a venho conhecendo e descobrindo. Uso desta veemência, porque considero o acto de homenagem, não uma formalidade para preencher agenda mas, isso sim, algo de altamente interpelante, verdadeiro desafio de gente que reconhece os valores da cultura e da civilização em que nasceu, enaltecendo alguém que, tendo-os encarnado no passado, nos ajuda a transmiti-los ao futuro.

Antes de terminar, gostaria de vos trazer um excerto do texto subscrito por um íntimo amigo da Senhora Marquesa, o Engº Luís Santos Ferro, palavras do programa comemorativo do aniversário de Dona Olga, em 1997.

Cito: “(…) Melhor é a sabedoria do que a valentia diz, numa moeda de ouro de 1724, o mote latino de um dos sete doges seus ancestrais, Alvise III Mocenigo, Melior est Sapientia quam Vires.
(…) Como participantes nesta cerimónia e, simbolicamente, representando tantos que a sua personalidade de alguma forma tocou, louvemos a sapiência e a generosa simplicidade com que distribuiu os seus invulgares talentos, multiplicados e enaltecidos no transcurso de toda uma ampla vida.” Fim de citação.

Neste nosso tempo, tão conturbado, afirmar que "Melhor é a sabedoria do que a valentia", é um acto de profunda coragem, lucidez e de grande sabedoria, mensagem certíssima, meus amigos, na perspectiva do futuro, para bem do qual a Senhora Dona Olga, Marquesa de Cadaval, tanto, tão decisiva e positivamente contribuiu, o mesmo futuro que tanto prezava na actualidade e na modernidade da Arte que jamais a desconcertou,
o futuro que aqui está, hoje, neste átrio, nestas crianças.

Pela primeira vez, celebram elas a memória de alguém que nós lhes apontamos como exemplo de vida. Estes alunos da Escola D. Fernando II sabem ao que vieram. Demos-lhes nós o melhor exemplo. Não as desapontemos.

Muito obrigado
 
 
 
Dona Olga, Marquesa de Cadaval,
17 de Janeiro aniversário «obrigatório»


17 de Janeiro, aniversário de Dona Olga, Marquesa de Cadaval. A celebração começou ontem, com André Cunha Leal, no "Baile de Máscaras", hoje tendo continuado, no "Império dos Sentidos", com Paulo Alves Guerra, ambos na DDP 2.

É gratificante verificar e entender como os profissionais deste posto da rádio pública estão atentos a uma série de efemérides, como a da presente data, lembrando uma marcante personalidade da vida cultural do século vinte, a mais desinteressada mecenas, a quem Portugal tanto deve e que
Sintra faz o possível por continuar a honrar.

Foi neste contexto que ajudei a professora de História da turma A do 5º ano, da
Escola D. Fernando II, a preparar os alunos para a homenagem que prestariam à Senhora Marquesa, a meio da manhã de hoje. Projectámos um bom conjunto de fotografias, com momentos biográficos da homenageada, que foram devidamente explicadas, tentando que a oportunidade servisse o objectivo de aproximar e envolver as crianças com quem se destacou na vivência de valores exemplares.

Muito singela, a cerimónia teve uma impressionante e mesmo comovente dignidade. Sempre perto do busto da Senhora Marquesa, os alunos, duas professoras, Vereadoras da Câmara Municipal de Sintra, um membro da família Cadaval, técnicos do Centro Cultural e da autarquia e alguns munícipes, todos nos compenetrámos da significativa importância simbólica de uma cerimónia que, embora formal, as crianças tinham de assimilar em toda a sua abrangência.

Julgo que se conseguiu. Os garotos perceberam perfeitamente o que tinham ido fazer e, sem nunca perderem a compostura, ouviram as palavras que foram ditas, entenderam que era com eles que, por via da homenagem, todos estávamos preocupados, eles que são o futuro, eles que, nada exigindo tudo merecem, em todos os tempos e nestes nossos, apesar de tão difíceis, quer para a
Escola quer para as famílias e para toda a comunidade.

Janeiro, em Sintra, é tempo de camélias, flores que a Senhora Marquesa adorava. Pois, com camélias, cada uma das vinte crianças foi guarnecendo e florindo o arbusto que os serviços da Câmara tinham preparado para o efeito, num momento muito bonito, em que, com a maior simplicidade, se viveu uma celebração que enobreceu este dia de Sintra, repito, com dignidade e simplicidade, valores que a Senhora Marquesa de Cadaval cultivou abundantemente.

Como soe dizer-se,”amanhã há mais”. De facto, a homenagem continua e, como não podia deixar de acontecer, com a realização de um concerto, pelas dez da noite, com entrada gratuita, precisamente, no Centro Cultural que tem Dona Olga como patrona. Do programa, constam peças de Respighi, Debussy, Viana da Mota e Britten que a Orquestra de Câmara Cascais Oeiras interpretará, sob a direcção de Nikolay Lalov, seu Maestro. Se puderem, apareçam.

“Simple Symphony” op. 4, obra de juventude de Benjamin Britten -cujo centenário se celebra neste ano, grande amigo da Senhora Marquesa - encerrará o concerto. Aqui vo-la deixo, numa excelente interpretação do Ensemble I Musici.

Boa audição!

http://youtu.be/FwSwopSro0k
 

domingo, 13 de janeiro de 2013

[artigo publicado na edição de 11 de Janeiro de 2012 do Jornal de Sintra]

Revista Municipal,
comunicar Educação



A exemplo do que terá acontecido com dezenas de milhar de munícipes, também eu recebi mais um número da Revista Municipal , relativo ao segundo semestre do ano de 2012. Costumo prestar a atenção que é devida a esta publicação, no sentido de que, também por esta via, resulte avaliação rápida e informal  quanto ao modo como e à qualidade com que o município resolve a questão da evidente necessidade de comunicar com os cidadãos acerca dos projectos e realizações em determinado período.
 
É boa esta altura em que, com o início de um novo ano, em simultâneo, também se encerra um ciclo de três mandatos autárquicos sucessivos, assegurados pela mesma coligação. Trata-se de um tempo relativamente longo durante o qual os decisores políticos locais não podem queixar-se de não terem tido tempo bastante para concretizar o projecto que, inicialmente sufragado, foi sendo confirmado pelos eleitores.

Em quaisquer circunstâncias, é muito relevante a obrigação da comunicação política eficiente com os eleitores que, no especial caso de Sintra, são fregueses e munícipes de um território imenso e polifacetado cuja governança, em função de características de tal modo compósitas, é extremamente exigente.

Não é este o momento para fazer o balanço em relação ao modo como tais pressupostos foram assumidos por quem está em fim de mandato. Contudo, com a Revista Municipal na mão, é tempo, isso sim, de verificar até que ponto as nossas expectativas foram ou não sendo frustradas pelas medidas decididas e concretizadas, não esquecendo que, tão somente, se referem ao último semestre.


A Educação

Ora bem, com o propósito de não me dispersar e, muito menos, de opinar acerca de assuntos em que a minha preparação de base não me permitiria expressar algo de minimamente pertinente, decidi concentrar a atenção apenas no sector da Educação em que tenho obrigação de não subscrever especiais asneiras já que, durante dezenas de anos, nele me inseri em enquadramentos vários.
Cumpre-me esclarecer que, durante os últimos anos, em Sintra, se houve pelouro em que, por todas as razões  e mais uma – a que também se prende com a minha condição de dirigente sindical de uma Federação Nacional representante de muitos trabalhadores afectos ao Sistema Educativo – tenho acompanhado pari passu, sem dúvida que esse  foi o da Educação.

A propósito, em virtude dessa afinidade, posso confirmar ser Sintra um concelho em que, precisamente, a gestão autárquica da Educação mais positivos trunfos apresenta quando comparada com a de outros do mesmo ou de distritos limítrofes. Isto que afirmo tem sido opinião geralmente expressa, em reuniões em que estive presente, com autarcas do pelouro educativo, da zona metropolitana de Lisboa, que têm apontado Sintra como exemplo de boas práticas, inclusive no controverso domínio da gestão do pessoal de apoio educativo, também designado como não docente, abrangido por uma dependência hierárquica dupla, do Ministério da Educação e da autarquia, num equilíbrio sempre difícil de alcançar.

Pegar no último número da Revista Municipal e, tal como faço, destacar este domínio de intervenção da Educação, até nem é coisa particularmente original na medida em que ele se evidencia na economia geral da publicação. Passando aos factos concretos, um dos mais recentes e mais determinantes, tem a ver com o arranque da nova Escola Básica dos segundo e terceiro ciclos Visconde de Juromenha, que se concretizou através da assinatura, em 17 de Outubro de 2012, do auto de consignação, para arranque imediato dos trabalhos.

Notícia da pág. 7 da revista, este foi um assunto que, pela sua decisiva importância, em especial para a população contemplada, já tive oportunidade de destacar através de textos oportunamente publicados. A obra em questão, cujo orçamento é superior a seis milhões e trezentos mil euros, vai ser inicialmente suportada pelo Município de Sintra, verba aquela que, mais tarde, o Ministério da Educação cobrirá. Investimento importantíssimo, não pode deixar de nos dar a maior satisfação porquanto vem resolver um problema de instalações degradadas que se arrastava há décadas.

Entraram em funcionamento dois novos jardins de infância, nas Escolas Básicas do Linhó e de Colares-Sarrazola. Contei dezanove intervenções de manutenção e conservação de edifícios e equipamentos escolares, em estabelecimentos de ensino nas várias freguesias. Igualmente, confirmei as atitudes de particular cuidado com a Educação Especial  e de apoio à família em noventa (90) salas do Pré-escolar, abrangendo as necessidades de mil e seiscentas crianças.
 
Quanto ao enriquecimento curricular no primeiro ciclo, ficou a saber-se estarem contemplados cerca de 14.500 alunos. Directivo Ultraspassando o âmbito, apenas informativo, da notícia da Revista Municipal, permito-me chamar a atenção para a indigência de algumas das áreas, cujo «enriquecimento» para as crianças  é suposto, com particular destaque tanto para a actividade física e desportiva como para a música, componentes de formação importantíssimas para merecerem uma abordagem que, no concreto, é deficiente, insuficiente e rudimentar.

Já as iniciativas relativas à Mostra de Teatro das Escolas e à Animação do livro e da Leitura, parecem de saudar com o maior entusiasmo, enquanto contributos outros, absolutamente determinantes para o sucesso educativo, em articulação com um decisivo e simultâneo investimento  no campo cultural. Já quanto ao programa de distribuição gratuita de manuais escolares, não sendo totalmente contra porque há casos singulares de aplicação de tal estratégia, prefiro outras medidas, já vigentes noutros locais do país, que há muitos anos venho advogando, tais como os bancos de livros, o sistemático empréstimo, a organização de bancas especiais para trocas e vendas em segunda mão no início do ano lectivo, etc.


Enfim, também através da Revista Municipal, podemos verificar como, apesar de tão lúgubre período das finanças nacionais e locais, a Educação tem sido uma área em que, de cabeça erguida,  Sintra pode encarar os desafios que, sem parança, continuarão a apresentar-se.

PS:
Devido a várias discrepâncias, fiquei sem poder concluir se, de facto e em definitivo, a Revista Municipal aderiu ou não ao Acordo Ortográfico. Sem pretender ser exaustivo e porque, de vez em quando, a atenção não podia deixar de incidir nos casos que passarei a apontar, permitam que assinale: pág. 7, 4º parágrafo, 2ª linha [lectivo], mas  última palavra do mesmo parágrafo [letiva]; 6º parágrafo, antepenúltima linha [Diretores]; pág. 10, 4º parágrafo, 5ª/6ª linhas [afetar]; pág. 37, 3º parágrafo, 1ª linha [objectivo], mas 7º parágrafo, penúltima linha [objetivo] Em que ficamos? E, de palmatória, o erro no título ‘Apoio á (???) família’, pág. 12. Portanto, neste aspecto, a atenção que se impõe, até porque, como instrumento de comunicação da autarquia, a publicação merece-o.


[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]