[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Antena Dois,
sinais dos tempos

(Continuação)


Não muito mais tarde, ao concluir que os destinatários das observações ou faziam ouvidos de mercador ou nem sequer tomavam conhecimento, passei a enviar mensagens por correio electrónico. Infelizmente, no entanto, o resultado não foi melhor. Resolvi contactar e recorrer ao amigo José Nuno Martins, meu contemporâneo da Faculdade de Letras e actual companheiro de outras lides que, até muito recentemente, desempenhou as funções de Provedor do Ouvinte.

Aqui, neste mesmo blogue, poderia convosco partilhar informações a partir de contactos particulares com outras fontes igualmente fidedignas, que me levam a acreditar que o maior número de reparos de sinal negativo à oferta da Antena Dois se reporta ao já citado Império dos Sentidos e a todos os programas em que, directamente, intervém o Sr. João Almeida, o próprio subdirector.

Porém, apenas me socorrerei daquilo a que todos os ouvintes puderam aceder, ou seja, ao trabalho do Provedor. Toda a gente conhece José Nuno Martins, nele apreciando o imenso profissionalismo, a coragem e desassombro, bem como a grande capacidade de comunicador de alguém que, caso raro, ainda é senhor de um Português absolutamente irrepreensível. Portanto, não recorro a uma qualquer e ordinária fancaria, antes a produto de primeira qualidade…

Por várias vezes, fazendo-se portador dos reparos de muitos ouvintes, confrontou o subdirector João Almeida com opiniões que lhe não eram nada favoráveis e até muito contundentes, concedendo-lhe oportunidade de defesa e tempo de antena para expor a pertinência das suas opções e opiniões que, tão radicalmente, desgostam ouvintes da estação, habituados a outros paradigma e gabarito.

Então, quando foi possível começar a ouvir o resultado da actividade do Provedor do Ouvinte, representando e fazendo eco de justíssimas críticas e de testemunhos que teve o cuidado de fazer gravar, para emitir em tempo precedente à defesa do atingido, apenas se confirmou a falta de categoria, a falta de preparação científica, académica e profissional, numa palavra, a sobranceria daquele radialista.

Já enquadrados pelo actual figurino ou pelos precedentes, por aquele programa da manhã passaram, por exemplo, Judith Lima, Luís Caetano, Gabriela Canavilhas, André Cunha Leal, Ana Paula Russo, apenas para citar pessoas que não podem confundir-se com o actual pivô, um tal Paulo Guerra que deve ter frequentado o mesmo curso que João Almeida, acabando por transformar o Império dos Sentidos - e por aqui me fico… - numa verdadeira ofensa ao bom senso.

É fundamentalmente este programa de três horas, entre as sete e as dez, que concita o maior número de críticas. Tornou-se um espaço palavroso, muito adjectivoso, onde se desfia e resgata imensa coisa, durante o qual o Sr. Guerra, ao apresentar qualquer tema musical – pelo meio das muitas, muitas, muitas notícias que repete até à exaustão – se limita à leitura das capas dos CD ou da página da Internet que deve consultar como muleta redentora no monitor à sua frente.

Por ali deixou de passar o filtro do verdadeiro melómano, pessoa culta e informada, eventualmente músico, com formação académica na área das Ciências Musicais, para residir e presidir a ignara vulgaridade de um locutor generalista que, tal como o seu subdirector, sem quaisquer anteriores créditos culturais, veio de um qualquer emissor, nada vocacionado para a Antena Dois, esta que é uma rádio outra, com a sua especificidade, exigindo uma mínima preparação que, desde o berço, de todo em todo lhes falta.


(continua)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

RDP dois,
sinais dos tempos...

Há uns dias, uma boa amiga partilhava comigo o desgosto que, actualmente, muitos antigos e fiéis ouvintes da RDP 2 manifestam em relação à evidente falta de qualidade de alguns programas da designada rádio clássica. E, conhecendo-me tão bem como, aliás, se deve depreender dos escritos que costumo propor-vos, perguntava-me porque não escrevia eu acerca do assunto.

Como, de facto, a aludida falta de qualidade foi algo que logo se começou a notar – ainda no tempo do Acordar a dois, precisamente desde a altura em que se aposentou João Pereira Bastos, o anterior director da Antena Dois – o lapso de tempo é já tão longo que lembrei a essa minha amiga que, na realidade não podia ter deixado de expressar a minha opinião. E fi-lo, relativamente cedo, mal me apercebi da impreparação de quem substituiu aquele notável profissional e colaborador do canal cultural da rádio pública.

Várias horas de programação, três no começo da manhã e mais duas (depois reduzidas a uma) ao fim da tarde, passaram a estar cheias de imprecisões, de falta de rigor, fartas nas adjectivações em que são férteis todos os ignorantes que conhecemos. Foi um verdadeiro choque. E, para que não houvesse quaisquer dúvidas, imediatamente nos apercebemos de que não era coisa esporádica. A asneira instalava-se, nem mais nem menos, através da própria chefia…

Estávamos habituados a sintonizar uma estação onde sempre se cultivou o equilíbrio, uma certa elegância e sofisticação, a partilha de uma informação cultural actualizada, disponibilizada por colaboradores da mais alta craveira, dirigidos por pessoas do calibre de um Engº João Paes, por exemplo, com quem todos aprendemos ao longo de dezenas de anos de emissões. Pessoalmente, tenho dívidas enormes à RDP, à anterior EN, ao programa dois, desde criança, desde que me conheço.

É uma casa com um património de grande dignidade, à qual muitos de nós devem uma significativa parte da sua formação cultural e gozo da grande Arte, uma casa que, de um momento para o outro – sinais dos tempos… – ficou nas mãos de uma direcção ocupada por gente sem qualquer passado cultural, sem qualquer mérito, destituída de quaisquer créditos para o ouvinte tipo da Antena dois.

Primeiramente, recorri ao telefone. Estava habituado a essa prática. Durante anos, sempre foi por aquele meio que, por exemplo, contactei com a Judith Lima, ou Jorge Rodrigues, muito estimáveis pessoas e excelentes profissionais (que, entretanto, sintomaticamente, abandonaram a estação…) com quem trocava impressões, fazendo sugestões, dando o ânimo de que careciam, sempre que me apercebia de que algo não estava a correr tão bem como mereciam.

Mas, infelizmente, diferentes passaram a ser as razões que me levaram a procurar o contacto, em especial, relativamente ao referido período da manhã com o programa Império dos Sentidos e ao da tarde, Linha do horizonte, que substituira o Ritornello. Frequentes foram as vezes que marquei aquele conhecido número de telefone, para chamar a atenção e corrigir certos detalhes, sempre que me apercebia que, com a maior desfaçatez, com a maior ligeireza, o próprio subdirector incorria em menores ou maiores erros, em apreciações valorativas da maior vacuidade, sem qualquer substância.

(continuação)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Seteais,
estratégias de comunicação

(conclusão)


Daí que, mais uma vez, tenha decidido abusar da vossa paciência. Faço-o, no entanto, na convicção de que não deixo de representar muitos munícipes que, não me tendo passado procuração, certo é que se sentem representados pelas minhas palavras.

Todos ficamos na expectativa de que a Câmara Municipal de Sintra sinta necessidade de se informar quanto ao que está a acontecer. Todos esperamos que, em defesa dos interesses dos cidadãos e munícipes sintrenses, a autarquia informe a comunidade relativamente às suas diligências sobre um bem patrimonial que, estando sob a tutela do poder central, constitui, ao longo de séculos, um marco altamente simbólico desta comunidade.

Ao fim e ao cabo, num tempo em que a comunicação é tão fácil quanto exigente, venho solicitar à Câmara Municipal de Sintra que, para já, apenas acerca de Seteais, adopte uma eficaz estratégia de comunicação. Julgo que não é pedir demais já que me refiro a um direito fundamental.

Nota final

Nos últimos dias, como verificaram, estive exclusivamente voltado para Seteais. Com tanto assunto para trabalhar – numa terra que, infelizmente, é pródiga em matéria susceptível de ser notícia pelas piores razões – julgo ter feito o que se impõe. Seteais, repito, não é um fait divers. O que ali está acontecendo, apresenta duas vertentes muito preocupantes, ou seja, por um lado, o designado encerramento temporário e, por outro, a polémica construção do depósito de água.

Primeiramente, o encerramento não se justifica, não é razoável e, por mais que se afirme que são razões de segurança que o determinaram, a realidade contraria em absoluto argumento tão fraco e falacioso. E, de facto, se pretendem invocar razões e preocupações com a segurança de pessoas e bens, elas já estão a dar que falar mas, claramente, fora do recinto.

A propósito de segurança, vou estar muito atento, isso sim, aos resultados do acidente de que foi vítima o condutor do veículo de transporte de turistas (vd., neste blogue, Última hora de 20.06.08) que põe em causa os serviços da empresa que está envolvida com o grupo Espírito Santo na recuperação de Seteais.

Em segundo lugar, extremamente preocupante, a tal construção. Ontem mesmo fui à reunião pública do executivo municipal denunciar esta situação que também já foi objecto de pedido de esclarecimento ao IGESPAR, por parte da administração da Parques de Sintra Monte da Lua e de comunicação à UNESCO. O Senhor Presidente da Câmara mandou extrair cópia da Acta para fazer seguir um pedido de esclarecimento ao IGESPAR.

Afinal, como facilmente se conclui, há todas as razões para acompanhar e apoiar esta luta que a ALAGAMARES lidera, na sua qualidade de única e inequívoca associação preocupada, motivada e envolvida na defesa do património de Sintra, sem medos atávicos de ferir a susceptibilidade de quem quer que seja.

A defesa do património pressupõe correr riscos, inclusive o de ser acusado de procurar protagonismo… A ALAGAMARES, em digno trabalho de exemplar cidadania, expõe-se publicamente em defesa do nosso património e, por tudo isto – como se já não bastasse tudo o que tem feito nos últimos anos, em vários domínios da actividade da animação cultural – ganhou o inequívoco crédito e o lugar que os sintrenses preocupados com estes assuntos já desesperavam de atribuir a quem efectivamente merece. Naturalmente, também o seu Presidente, o Dr. Fernando Morais Gomes, está de parabéns.

quarta-feira, 25 de junho de 2008


Seteais,
estratégias de comunicação
(continuação)


A propósito

As obras são perfeitamente compatíveis com a continuação das visitas, desde que limitadas aos espaços onde, inequivocamente, em tão larga superfície, os visitantes não correm quaisquer riscos. Mas, a propósito, importaria perceber se a Câmara Municipal de Sintra tem conhecimento, de qualquer modo foi informada ou procurou informar-se acerca de todos os trabalhos em curso. De igual modo, cumpre entender se o IGESPAR, entidade à qual compete o acompanhamento técnico da obra, está efectivamente a acompanhar os trabalhos que, simultaneamente, decorrem no exterior.

Mas que razão me leva a levantar este problema? Pois, muito simplesmente, porque não suscita a mínima tranquilidade a obra que está a decorrer no antigo tanque, visível a partir da estrada. O que, naquela propriedade, era um local aprazível, fresco e calmo está a ser transformado numa zona descaracterizada, onde funcionará um grande depósito de água. A escala da construção inicial foi tão significativamente aumentada que já ali se aplicaram muitas toneladas de betão, através de melindrosas trasfegas a que tenho assistido.

Aliás, permitam-me um aparte para dar conta de que a última dessas operações, na passada sexta-feira, originou um lamentável acidente, registando-se um ferido com alguma gravidade, sinistro a propósito do qual será necessário apurar se a empresa de segurança, envolvida com o grupo Espírito Santo nestas obras de recuperação, esteve ou não à altura das circunstâncias, actuando como seria suposto e desejável.

Volto à questão que venho abordando para confirmar que as dúvidas que se me têm colocado são partilhadas pela Parques de Sintra Monte da Lua, entidade que, a partir da terceira semana de Agosto próximo, será responsável pela totalidade do espaço de Seteais. Tanto quanto consegui apurar, a administração daquela empresa já pediu explicações ao IGESPAR sobre tão polémica obra.

De facto, a intervenção em curso, para além de outros indesejáveis factores, como o tão evidente aumento da escala ou a aplicação de controversos materiais, pôs em causa, de modo inequívoco, a salvaguarda do espírito do lugar, circunstância a evitar a todo o transe, para além de contrária ao que determinam as cartas internacionais que Portugal subscreveu e que, para todos os efeitos, está obrigado a respeitar.

Por outro lado, adicionalmente, também me é possível informar que a própria UNESCO já foi posta ao corrente da situação. Afinal, esta questão de Seteais, não é bem aquilo que o senhor Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Sintra já classificou como teimosia de um grupo de cidadãos fundamentalistas. Afinal, para além do próprio encerramento temporário, há razão bastante para justas e iniludíveis preocupações quanto à preservação, defesa e recuperação do património em causa.


(continua)

terça-feira, 24 de junho de 2008

Seteais,
estratégias de comunicação

(Continuação)

Como lembrei, o texto está escrito sobre fundo negro. Mas, à esquerda, o painel tem uma faixa diagonal a branco. E, precisamente na zona em que branco e negro se encontram, aparece a afirmação inequívoca mas sui generis de uma certificação. Assume a forma de um carimbo circular onde, bilingue, surge a indicação do termo das obras, Reabertura prevista 2009 preview reopening. Apenas 2009.

Claro que é um recurso gráfico. No entanto, mesmo nessa qualidade, tratando-se de uma certificação tão institucional quanto possível a uma entidade particular, optaram por não atestar o tal compromisso com o primeiro trimestre… Ora bem, terão de concordar que nada disto é inócuo. Muito pelo contrário, ainda que pressionada pelas reacções públicas ao encerramento, revela uma saudável necessidade de comunicar.

Julgo não exagerar se afirmar que, inclusive, revela a adopção de uma estratégia que, sumariamente descodificada, até abona a favor do Grupo Espírito Santo… Aliás, no meio de tudo isto, se há entidade que, pelo clamoroso silêncio, revela uma nítida falta de estratégia comunicacional e geral é a Câmara Municipal de Sintra. Em todo este processo apagou-se, sumiu-se, envergonhou-se, como se nada disto lhe competisse.

A história das tentativas de encerramento de Seteais demonstra que, ao longo de duzentos anos, sempre que o problema se colocou, a Câmara Municipal de Sintra, esteve invariavelmente ao lado do povo que protestava. Desta vez, já em pleno século vinte e um, perante um consumado encerramento temporário, mascarado por falacioso argumento – a pretensa falta de segurança – a Câmara apenas evidencia uma cómoda estratégia de silêncio. De qualquer modo, está a dar à História o manifesto da sua capacidade. E, não estando ao lado do povo, percebe-se perfeitamente a companhia que prefere.

Aliás, os partidos políticos representados na Assembleia Municipal também não ficam muito melhor no retrato… Reparem que, só dois meses depois das primeiras reacções públicas em que estive envolvido e de que dei conta, é que o Bloco de Esquerda apresentou uma moção contra a situação em Seteais, portanto, já a reboque da movimentação em curso. Enfim, do mal o menos. Mais vale tarde…

A terminar, julgo poder afirmar que, apesar do já consumado encerramento do Penedo da Saudade, cuja reabertura deveria ser reivindicada; embora, inopinadamente, o hoteleiro concessionário se tenha permitido impedir o acesso de viaturas não pertencentes a hóspedes do hotel; ainda que, no passado recente, por diversas vezes, o mesmo grupo Espírito Santo tenha fechado temporariamente o terreiro, a seu bel-prazer, sempre que nisso viu conveniência; pois, apesar de todo este currículo mais ou menos lamentável, jamais alguém pôs em dúvida que houvesse coragem para não reabrir.

O que está em causa é o encerramento temporário, determinado por razões de segurança que, manifestamente, não colhem. Tal encerramento causa escândalo porque não é racional, na medida em que foi determinado com falta de senso. Enfim, nem se pediu que o concessionário fosse suficientemente esclarecido para, inclusive, promover as visitas precisamente com o objectivo de que as obras fossem encaradas como um espectáculo em curso, como, felizmente, já se faz em tantos lugares, mesmo entre nós, e, proximamente, mesmo em Sintra, durante a recuperação do Chalet da Condessa.

(continua)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Seteais,
estratégias de comunicação


[Depois de, na passada sexta-feira, ter interrompido para partilhar um episódio daquele dia, continuo com o assunto anteriormente iniciado].


(continuação)

Então, passando a privilegiar a formalidade institucional do preto e branco, em mensagem bilingue, português e inglês, o hoteleiro informava:

Acesso temporariamente indisponível. O Tivoli Palácio de Seteais está de momento em remodelação. Lamentamos informar que, por razões de segurança, o acesso ao palácio e jardins se encontra temporariamente indisponível. Pedimos desculpa pelo incómodo. À guisa de assinatura, aparecia um endereço electrónico http://www.tivolihotels.com/ e, quase no limite da superfície comunicante, no canto inferior esquerdo, uma identificação minúscula Espírito Santo ES Hotels.

Sintomas

Tão simpáticos, até lamentam e pedem desculpa… Mas, se ficaram impressionados – apesar da ignorância quanto às razões de segurança (?!) que impedirão o acesso ao recinto – preparem-se para o último dos cartazes com que nos brindaram. De dimensões significativamente mais avantajadas que o precedente, privilegiando a horizontalidade, ao contrário do anterior em que dominava a verticalidade, é também bilingue e, igualmente, formal e solene na utilização do preto e branco.

Ainda que o tratamento gráfico tenha sido ligeiramente alterado, o discurso é totalmente coincidente, desde o título Acesso temporariamente indisponível, até ao final do segundo período do texto em que, novamente, aparece a expressão temporariamente indisponível, repetição indesejável que não houve o cuidado de evitar, embora não faltassem alternativas perfeitamente eficazes.

Eis, então, a grande alteração. Sentiram necessidade de compensar a indisponibilidade do acesso que, unilateralmente, decidiram, invocando a boa causa: Estamos a trabalhar para melhorar este espaço. Depois, a rendição à necessidade de se comprometerem com um prazo, para além de sossegarem quanto a qualquer dúvida sobre uma interpretação de encerramento definitivo: Os jardins estarão novamente abertos ao público no primeiro trimestre de 2009. E, rematando, em caracteres de corpo maior, Pedimos desculpa pelo incómodo.

Confessem que estão sensibilizados, quase comovidos com tanta simpatia e consideração. Na realidade, que mudança! Ainda se lembram da primeira mensagem Proibida a entrada de pessoas estranhas à obra, frase eficassíssima mas tão económica que o próprio verbo é subentendido? Meu Deus! Que caminho fizeram!... Todavia, ainda falta chamar a vossa atenção para um detalhe deveras interessante.

(continua)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Seteais, última hora

Resolvi interromper a publicação, ontem iniciada, do texto subordinado ao título Seteais, estratégias de comunicação, no sentido de vos dar conta de um facto relacionado com as obras em curso em Seteais ocorrido esta manhã.

Primeiramente, no entanto, preciso é que contextualize a notícia. Como já tenho escrito, só quando não estou em Sintra é que não passo diariamente por Seteais. Daí que ninguém estranhe a circunstância de me aperceber quotidianamente do que é possível concluir a partir dos movimentos distinguíveis.

Já há algumas semanas que o antigo tanque, visível a partir da estrada que bordeja um dos limites da propriedade, está sendo objecto de grande intervenção. Tanto quanto me é possível saber, apenas por directas perguntas aos operários que ali trabalham, aquilo que era tosca construção está a transformar-se num grande depósito de água.

Para o efeito, na realidade, tenho assistido ao movimento que poderão imaginar. Hoje, por exemplo, estava a concretizar-se mais uma – julgo que a segunda – significativa trasfega de betão, com três betoneiras aguardando a vez. De facto, como hão-de calcular, tentei saber que autorização e pareceres do IGESPAR, que, como já estão ao corrente, faz o acompanhamento técnico da recuperação do palácio, estarão a montante desta específica obra.

Queria saber, andava em investigações e não pretendia escrever fosse o que fosse sem ter certezas. Contudo, ainda na ignorância, resolvi que hoje tinha de partilhar esta preocupação convosco porque a tal operação de fornecimento de betão deu origem a um acidente, infelizmente com um ferido cujo estado não estou em condições de poder informar.

Conhecem aquele veículo verde, tractor com um ou dois atrelados, que costuma fazer o circuito entre a sede do concelho e Monserrate? Hoje de manhã, cerca das dez horas, ao passar pelo local, no sentido Seteais-Monserrate, mesmo na curva à quota alta sobre o tanque, obrigado a tomar a faixa esquerda, porque a direita estava ocupada com a trasfegadora de betão, sentindo dificuldade em continuar o percurso, já que o tejadilho do atrelado batia no tronco de uma árvore, o seu condutor saiu do lugar, provavelmente para estudar melhor a manobra mas, parece, com o veículo mal travado que, descaindo, o empurrou contra o muro.

Tanto quanto me apercebi, terá havido falha de segurança. Reparem que, em lugar tão difícil, vencendo assinalável desnível, a manobra de várias betoneiras é uma operação crítica e sofisticada. Mas há uma empresa à qual compete concretizar as obrigações decorrentes de situações que tais. Desconheço se tudo se terá processado de acordo com as regras. Desconheço, por exemplo, se era necessário que a autoridade policial estivesse presente para dirigir o trânsito tão alterado. Fica no ar, portanto, a questão de apurar se terão sido mobilizados todos os meios materiais e humanos adequados.

Quando eu próprio passei, apenas verifiquei que o homem estava estendido no pavimento e havia alguém que lhe aplicava um pacho com qualquer produto. O que não consegui, foi aperceber-me se algum elemento da tal empresa de segurança, envolvida com o Grupo Espírito Santo na recuperação do Palácio, estaria presente antes do acidente e, se afirmativo, terá feito o que lhe competia para que o motorista não tivesse incorrido em manobra que lhe podia ter sido fatal.


Conclusão

Tudo isto se passa à volta de uma obra que, minimamente, é algo controversa. Sei que a própria Parques de Sintra Monte da Lua já terá manifestado preocupação com a natureza e características destes trabalhos em curso, com toneladas de betão à mistura, executados num bem patrimonial que lhe passará a estar totalmente afecto a partir de Agosto próximo.

Afinal, infelizmente, a controvérsia não se limita ao encerramento dos portões. Sempre quero ver que explicações nos poderão ser facultadas. Vamos lá a ver se, quem de direito, passa a encarar o caso de Seteais não como uma teima de um grupo de munícipes fundamentalistas mas como uma questão séria, altamente significativa e simbólica e não um qualquer fait divers

quinta-feira, 19 de junho de 2008


Seteais,
estratégias de comunicação

Se, na sequência da intempestiva decisão de encerramento do terreiro de Seteais, necessário fosse prova bastante do manifesto desconforto do Grupo Espírito Santo, encontrá-la-íamos nos sucessivos cartazes que, junto aos portões, tem vindo a colocar desde os primeiros dias da ofensa, evidenciando o modo como a questão foi objecto de alteração da sua estratégia de comunicação pública.

Numa primeira fase, talvez não prevendo que o encerramento daquele espaço fosse susceptível de desencadear a reacção que tive a honra de iniciar logo na primeira semana de Março, o hoteleiro concessionário pendurou dois avisos, cuja secura não podia ser mais patente, através dos quais apenas informava não ser permitido o acesso de pessoas estranhas à obra.

Seguidamente, apareceu um painel informativo das entidades envolvidas no processo de reabilitação em curso, cuja natureza e características são as habituais em circunstâncias idênticas. Ainda hoje, sensivelmente no mesmo local, permanece a uma tal distância do gradeamento que a compreensão da mensagem é impossível a olho nu. Portanto, como calculam, tive de recorrer ao binóculo…

Tomar nota

Apenas nos deteremos na leitura, já que a interpretação deste dispositivo, embora apetecível, poderia tornar-se fastidiosa e exigiria um espaço inusitado. E, na verdade, não estamos numa aula de semiótica... Passemos ao mínimo dos mínimos. Ocupando a faixa superior, à esquerda, sobre fundo negro e com caracteres brancos, portanto, com solenidade q.b., aparece o cartão de identidade da unidade hoteleira objecto da intervenção em curso (cada /significa mudança de linha):


Tivoli/Collection/Palácio de Seteais/Sintra/Heritage Hotel/cinco estrelas da ordem. À direita, o reforço do retrato local, directo e a cores. Sintomáticas, as designações em língua inglesa, primeiramente, collection e, três linhas abaixo, heritage. Estão a perceber como não se desperdiça a oportunidade de dar a entender aos anglófonos o privilégio de possuir (nós ou o concessionário?) tal património?...

A meio do painel, sobre verde fundo, articulando com o cromatismo do relvado, a identificação do dono da obra, Tivoli/Hotels & Resorts. Nessa mesma média faixa, à esquerda, a identificação da entidade a quem compete a Coordenação/e Fiscalização, ou seja, a Series/ES/Serviços Imobiliários Espírito Santo, S.A. Do lado oposto, portanto, à direita, ficamos a conhecer o logotipo do Empreiteiro Geral/HCI Construções e, também de acordo com a lei vigente, a indicação HCI – Construções, S.A./Alvará de Construção nº 1401.

Na faixa inferior, também dividida em três zonas, identifica-se a Coordenação de Segurança e Ambiente/Tabique/Wellive ao nosso lado esquerdo; na central, os Projectistas PV, Arquitectura, Lda., Procaf/CPF Engenharia, Carlos Lisboa, Lda.,Consultoria de Engenharia; finalmente, no canto inferior direito, a indicação do Acompanhamento Técnico/Igespar, Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, a primeira entidade oficial mencionada.

Significado e significante

Como inequivocamente fica documentado, em parte alguma do painel se deduz a real condição do dono da obra que, na realidade, não passa de um mero concessionário. Não é dono das instalações, não é dono daquele património imobiliário nem, tampouco, da zona de jardins que o envolvem em tão singular enquadramento paisagístico. E haveria algum inconveniente em que tal condição fosse anunciada? Assim como não ficaria mal ao Grupo Espírito Santo a demonstração do privilégio de tal concessão, não acham que também o Estado deveria ter o cuidado de pôr os pontos nos ii?

O que aquele painel comunica à saciedade, é a exuberância de um poderoso grupo económico que, de armas e bagagens, está instalado em Seteais, procedendo a uma grande intervenção que, em termos técnicos, podia ser mas não é supervisionada, podia ser mas não é coordenada, podia ser mas não é fiscalizada por um pobre mas digno Instituto público que, afinal e para todos os efeitos, está reduzido à atitude (ou à actividade?) de um tolerado acompanhamento.

Continuemos. Umas semanas depois, apareceu um outro painel. Corresponde este a uma diferente necessidade de informação, a partir da qual o emissor considerou conveniente abrandar uma postura inicialmente demasiado telegráfica, seca, nada preocupada com a reacção do receptor.


(continua)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Campo de Seteais,
tentativas de encerramento
(conclusão)


Todavia, continuando com José Alfredo, “ (…) nada disto consta das Actas, o que é muito curioso. (…) um professor primário que usava o pseudónimo de «Madoro» (…) foi o primeiro a saltar à liça (…) defendendo o pretendido ajardinamento e aceitando um horário que o Sr Conde de Sucena desejava estabelecer para «abertura e encerramento» dos portões (...)".

Ora bem, José Alfredo e um grupo de sintrenses não estão com demasias. Resolvem tocar o sino a rebate, simplesmente, reparem, porque constara que estava vedado o acesso ao Penedo da Saudade. [Que diferença com o que hoje se passa!...] O Comandante dos Bombeiros, Joaquim Cunha, dissuadiu-os à desistência do propósito, convencendo o grupo de que a «coisa» talvez não fosse por diante.E, efectivamente, dispondo de bons amigos na vereação, mexeu cordelinhos no sentido de que o objectivo do Conde de Sucena não avançasse.


Conclusão

Então, agora nós. Pois é, nós estamos de pé atrás e, pelos vistos, muito boas razões temos para isso. O actual e eufemisticamente designado encerramento temporário do recinto de Seteais, baseado em esfarrapados argumentos de preocupação com a segurança dos visitantes, não augura nada de bom. Está encerrado com base numa descarada mentira pelo que, mantê-lo de portões fechados, até meados de 2009 constitui ofensa a toda a população que o demanda. Por outro lado, a posição da Câmara Municipal de Sinta, sintomática e manifestamente ao lado do concessionário do hotel, nada nos tranquiliza.

Aos quase duzentos anos da tríade de tentativas perpetradas pelos aristocratas Marquês de Marialva, Conde de Azambuja e Conde de Sucena, que não tiveram outro remédio senão encolher o rabinho, perante a vontade do povo de Sintra, pretende agora juntar-se o plebeu Espírito Santo. Pretenderá o quê? Esperemos que apenas incluir-se numa inglória tetralogia...

Está nas nossas mãos afirmar se estamos ou não à altura das posições de quem nos antecedeu na tomada de atitudes de defesa do estatuto de livre e público acesso a um lugar que, para os sintrenses, não só é emblemático como também altamente simbólico.




(1) da Costa Azevedo, JOSÉ ALFREDO, Velharias de Sintra, Vol. I, Câmara Municipal de Sintra ed., Sintra, 1980.
(2) Expressão que corresponde a uma das condições exigidas pela Augusta Ordem Maçónica para a Iniciação. José Alfredo foi Mestre Maçon.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Campo de Seteais,
tentativas de encerramento

(continuação)

Tentativa segunda

Foi o 3º Conde de Azambuja, D. Augusto Pedro de Mendonça Rolim de Moura Barreto quem também tentou encerrar o campo, tal como o Marquês de Marialva, seu antecessor. Em 6 de Outubro de 1897, a Acta da reunião da Câmara de Sintra regista:

“(…) que tendo no dia 3 do corrente mês de Outubro chegado ao conhecimento dos habitantes desta Villa, que o Conde de Azambuja tentava transformar a natureza e fins do Campo de Seteais, tornando-o, de passeio publico para uso e gozo do publico, n’um campo cultivado em proveito próprio, com manifesto desprezo das clausulas de aforamento, como o indicava a sorriba que em parte do mesmo campo mandou fazer, sem duvida destinada a sementeiras ou plantações, ali se apresentou no mesmo dia grande numero de pessoas, protestando contra esse facto, e por elles tinha sido nomeada a comissão que vinha à Camara pedir que desse as necessárias providencias para que o publico não fosse esbulhado nos seus direitos, fazendo cumprir integralmente todas as condições do primeiro contrato. (…)”

Anotada por António Cunha, lê-se na Cintra Pinturesca, a páginas setenta e seis, que a vereação “(…) a que presidia o Sr. Visconde da Idanha deu imediatas providencias, e no tribunal judicial por largos mezes se debateu um processo instaurado pelo Sr. Conde de Azambuja , em que nada mais conseguiu do que ficarem ratificadas as condições do primordial aforamento. (…)”

Tentativa terceira

Os herdeiros do Conde de Azambuja venderam a propriedade a José Rodrigues de Sucena, Conde de Sucena que, em 3 de Fevereiro de 1934 apresentou à Câmara um requerimento, pedindo para embelezar o campo e, ao mesmo tempo, que lhe fosse concedida a remissão do foro.
De acordo com notícia do Jornal de Sintra de 22 de Abril daquele ano, a Câmara teria despachado favoravelmente o pedido do Sr. Conde de Sucena, sob reserva de determinadas garantias para a população.

(continua)